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Esportes

Halterofilista brasileiro radicado em Israel retoma carreira de sucesso como veterano

Áudio 05:59
O halterofilista Sergio Britva, durante uma competição.
O halterofilista Sergio Britva, durante uma competição. Foto: Arquivo Pessoal

Idade, lesões, falta de tempo? Nada disso é obstáculo para o halterofilista Sergio Britva, nascido em São Paulo e radicado em Israel. Aos 48 anos, Britva se reinventa a cada dia e acaba de ganhar medalha de ouro em dois campeonatos internacionais na categoria 45 a 49 anos: na Copa Mundial de Veteranos, nos Estados Unidos; e na Copa Mediterrânea de Veteranos, no Chipre.

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Daniela Kresch, correspondente da RFI em Tel Aviv

Nos pódios, ele levanta a bandeira de Israel, país que escolheu morar aos 25 anos, em 1996. Mas, antes disso, ele foi campeção nacional de halterofilismo no Brasil de 1987 a 1995, competindo nas categorias infantil, juvenil e sênior. Para ele, o treinamento no Brasil, que começou aos 14 anos, foi a base de seu sucesso.

Nascido e criado na Vila Nova Conceição, em São Paulo, ele começou com o halterofilismo por acaso. Na verdade, buscava uma academia de musculação no Clube Hebraica, o qual frequentava, porque se achava “fraquinho”.

“O técnico da academia me ofereceu para fazer levantamento de peso como esporte competitivo”, conta Britva. “Foi um período em que a falta de conhecimento do esporte na América do Sul não o limitou a investir muito tempo em mim, em técnica, em dedicação a mim como atleta. Foi a base do que me transformou no campeão de hoje. Considero que, pelo fato de eu ter sido bem treinado como criança, os movimentos não acabaram com meu corpo até hoje”.

Nos anos 80, o halterofilismo passava por um bom momento no Brasil. Sergio Britva quebrou recordes já na categoria infantil nas modalidades arranco e arremesso. O auge da carreira foi em 1991, quando ganhou medalha de prata no sulamericano juvenil.

Na década de 90, o esporte passou por uma crise e foi praticamente sucateado. Britva encarou sua primeira grande decepção esportiva por causa disso. Por falta de orçamento, ele não foi enviado para o campeonato mundial que o classificaria para as Olimpíadas de Atlanta, em 1996.

“Como eu vi que não tinha nenhum tipo de apoio naquele mesmo ano, em 95, para eu conseguir a classificatória, foi um desânimo muito grande para mim porque eu vinha há anos treinando muito pesado, me dedicando, chegando muito tarde depois do trabalho, às vezes treinava até 10 horas da noite”, se lembra Britva. “E na hora que eu precisei realmente de uma ajuda para chegar até o mundial para me classificar para a Olimpíada, eu não tive essa ajuda. E, naquele mesmo momento, eu não tive condições nem tive a ideia de conseguir fazer isso de uma forma independente do clube ou da Federação Paulista ou mesmo da Confederação Brasileira. Assim decidi parar de treinar em 1995”.

No ano seguinte (1996), o atleta paulista decidiu morar em Israel. Ele procurou um clube onde pudesse praticar o levantamento de peso. Foi reconhecido pelo treinador do Maccabi Tel Aviv e ganhou rapidamente espaço. Três anos depois, já fazia parte da seleção nacional.

Ele quebrou recordes e ganhou medalhas dentro e fora do país. O fato de ser brasileiro foi, para ele, uma vantagem: “A minha brasilidade só ajudou. Graças a Deus o brasileiro tem uma mentalidade, ele tem um conceito de sociedade, que mesmo sem o idioma, consegue se associar. Somos pessoas quentes, comunicativas e terminamos nos tornando pessoas queridas muito rápido pelo meio. E ser brasileiro é ser querido no exterior, não tem jeito”.

Mas, apesar das vitórias e medalhas, novamente a falta de apoio ao esporte levou a frustrações. A crise no halterofilismo não acontecia apenas no Brasil. Em seu novo país, o dinheiro também era curto.

“Em 1998, me consagrei 8º na Europa e 17° no mundo no ranking. Infelizmente, o ano se passou e, em 1999, o clube entrou em grandes crises, eu não recebia periodicamente o salário, que era de aproximadamente 300, 400 dólares. Recebia um salário a cada três, quatro meses”, conta o atleta paulista. “Me vi obrigado a trabalhar. Fiz o serviço militar básico, que me tirou também dos treinamentos, fiz um curso salva-vidas e comecei a trabalhar. Infelizmente, o resultado foi que, no mesmo ano, eu caí no ranking de 17 para 42”.

Mas o pior estava por vir: em 2003, ele sofreu uma lesão debilitante. Ao levantar 180 kg, o tablado onde ele estava se abriu porque havia sido montado com menos pregos do que o necessário. O resultado foi o rompimento do ligamento do ombro direito e a perda da mobilidade. Ele foi operado e, por cerca de um ano, teve que fazer fisioterapia. Em 2005, no entanto, ele já treinava normalmente, mesmo sem aspirações de vitórias em campeonatos internacionais por causa da lesão e da idade. A volta por cima aconteceu quando ele descobriu a categoria Masters, a partir dos 35 anos.

“Em 2009, foi meu primeiro campeonato na Austrália, o World Masters Games, a Olimpíada dos Veteranos, na qual fui segundo lugar”, diz Sergio Britva. “E, desde então, voltou totalmente a felicidade, a vontade de continuar me dedicando, continuar competindo e levantando a bandeira de Israel, representando um país. E esses eventos me motivam todos os dias a sair de casa, treinar”.

A carreira do veterano Sergio Britva vai, agora, de vento em popa. Nos últimos nove anos, ele venceu o campeonato mundial cinco vezes, além de ter subido ao pódio em diversos campeonatos internacionais.

Em 2010, sua vitória na Copa Masters de Levantamento de Peso na Polônia se tornou manchete. Ele ganhou ouro, vencendo Hussein Khodadadi, o atleta do Irã, que não apertou sua mão, mesmo tendo aceitado subir no pódio sob ameaça de que a delegação iraniana seria banida por dois anos caso não fosse receber o prêmio. Mas ele desacatou orientação do governo de seu país de que não participasse da cerimônia porque um atleta de Israel havia vencido.

O halterofilista iraniano acabou sendo punido quando voltou a Teerã e não pode mais praticar o esporte. Desde então, nenhum competidor iraniano compete com atletas israelenses.

“Os iranianos chegam aos campeonatos com seleções completas, vão até o momento da pesagem que precede o campeonato, vêm que eu faço a pesagem, que eu estou inscrito no campeonato e eles abandonam aquela categoria para não competir comigo mais. Tenho pena, porque isso foge completamente aos princípios do esporte”, conta o atleta.

Hoje, o halterofilista brasileiro é casado e tem uma filha. A segunda deve nascer em poucos meses. Ele se divide entre os treinos e o trabalho como diretor de projetos de uma multinacional. Até porque ele não tem patrocinador e financia ele mesmo suas viagens e inscrições em competições.

Mas, se depender dele, vai continuar a levantar peso até quando puder: “Eu digo sempre para as pessoas que estão ao meu redor que, se um dia elas souberem que eu parei de treinar, é porque eu realmente não tenho condição financeira e ter tempo hábil de treinar ou porque infelizmente eu estou com uma doença irreversível. Porque o meu plano é continuar aproveitando de uma coisa que me completa muito.

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