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Ronaldinho Gaúcho completou um mês de prisão, com mais espaço de movimento que os confinados pelo coronavírus

Ronaldinho (C) e seu irmão Roberto Assis (D) ao chegarem ao Palácio da Justiça em Assunção, depois de terem sido presos por sua entrada irregular no Paraguai.07/03/2020
Ronaldinho (C) e seu irmão Roberto Assis (D) ao chegarem ao Palácio da Justiça em Assunção, depois de terem sido presos por sua entrada irregular no Paraguai.07/03/2020 AFP/Archivos

 O ex-jogador Ronaldinho Gaúcho, acusado de uso de passaporte falso, completou um mês de prisão preventiva no Paraguai, período em que o mundo mudou. Paradoxalmente, o ex-jogador, mesmo detido, está mais protegido e tem mais espaço de movimento do que milhões de pessoas em isolamento obrigatório nas suas casas devido ao coronavírus.

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Márcio Resende, correspondente em Buenos Aires

Na prática, os dias de Ronaldinho Gaúcho na prisão não são muito diferentes dos de milhões de pessoas pelo mundo, forçadas a ficarem em casa devido ao avanço do coronavírus. A irrupção da epidemia, especialmente durante o último mês, alterou o comportamento do mundo.

Preso na noite de 6 de março por uso de documentação adulterada, o ex-craque está num quarto discreto, acompanhado de seu irmão Roberto de Assis Moreira.

Prisão, onde o ex-jogador  Ronaldinho Gaúcho, está preso com seu irmão.
Prisão, onde o ex-jogador Ronaldinho Gaúcho, está preso com seu irmão. REUTERS - JORGE ADORNO

No quarto, os irmãos Assis Moreira têm duas camas, geladeira, televisor, ar-condicionado (frio-calor) e podem falar pelo celular.

Ronaldinho passa os dias jogando futebol e futevôlei com outros 30 presos. Esses, sim, são companhias diferentes: ex-policiais presos por assassinato, por roubo, por tráfico de drogas ou por corrupção. Mas o ex-campeão do mundo é o centro das atenções e admirado pelos detentos. A tal ponto que, no dia 21 de março, quando completou 40 anos, foi recebido com um churrasco especial preparado pelos demais reclusos. Na noite anterior, comera dourado à grelha, uma iguaria paraguaia.

Ronaldinho Gaúcho está na chamada Agrupação Especializada, um quartel da Polícia, reservado para presos especiais em Assunção, capital do Paraguai. No quartel, o ex-jogador pode andar por quase todos os 14 hectares, espaço bem maior do que o disponível para milhões de pessoas durante a pandemia do coronavírus.

Assim como os confinados que pedem comida a domicílio, nas primeiras semanas de prisão, Ronaldinho só recebia refeições de fora, levadas pelos seus advogados. Agora, já come os alimentos do quartel.

"Oferecemos alimentação completa para os presos, mas eles podem receber refeições de fora ou cozinharem aqui dentro. Só não podem receber visitas neste momento devido à pandemia do coronavírus", explica Blas Vera, diretor do presídio, sobre as medidas de proteção aos presos.

Assim, curiosamente, Ronaldinho também está bem protegido do coronavírus, mais do que milhões pelo mundo que saem às ruas.

Justiça paralisada pelo coronavírus

O processo pelo qual Ronaldinho é investigado está paralisado. Neste período de pandemia, a Justiça paraguaia limita-se a tratar apenas os recursos urgentes até, pelo menos, dia 13 de abril.

Até agora, o ex-atacante da seleção brasileira não conseguiu a prisão domiciliar. A defesa garante que os irmãos Assis Moreira foram vítimas de uma prisão "ilícita, ilegal e abusiva".

"Ronaldinho não cometeu delito porque ele não sabia que o passaporte que lhe entregaram era adulterado", garante o advogado Sérgio Queiroz.

"O juizado considera que estamos perante um fato punível grave porque atentou contra os interesses da República, contra o Estado paraguaio. Há perigo de fuga e de obstrução da Justiça. Trata-se de um estrangeiro que entrou de forma ilegal no país e que permanece de forma ilegal no país", considerou a juíza Clara Ruiz Díaz, no dia 13 de março, ao negar a prisão domiciliar.

"Os irmãos ficarão no país o tempo que for necessário", determinou o procurador Federico Delfino, ao explicar que agora os presos estão sob uma investigação ainda maior por produção e tráfico ilegal de passaportes.

Até cinco meses em prisão preventiva

A investigação já envolve 16 indiciados e a Promotoria ampliou a causa, no dia 8, a uma possível conexão com uma organização criminosa, acusada de lavar US$ 400 milhões. Além de Ronaldinho, empresários paraguaios e brasileiros são investigados.

A empresária paraguaia Dalia López, considerada a chefe da suposta quadrilha, foi quem convidou e financiou a viagem de Ronaldinho ao Paraguai. López está fugitiva e tem ordem de captura internacional pela Interpol desde o dia 18 de março. Se declarasse a favor dos irmãos, poderia ajudar a liberdade da dupla brasileira. Caso contrário, os dois podem permanecer outros cinco meses em prisão preventiva. Se condenados, eles podem pegar até cinco anos de prisão.

Ronaldinho e o seu irmão Roberto são acusados de entrarem no Paraguai no dia 4 de março com um passaporte falso. Viajaram ao país para participarem de um programa de assistência social infantil, organizado pela Fundação Fraternidade Angelical, pertencente à empresária foragida.

Quando entraram no Paraguai, os irmãos Assis Moreira não apresentaram o passaporte brasileiro nem o documento de identidade brasileiro, documentos aceitos em toda a América do Sul. Eles apresentaram passaportes paraguaios, mas alegaram depois na Justiça que nunca os solicitaram. Os irmãos foram detidos horas mais tarde no hotel, onde a Polícia encontrou os passaportes, além de documentos de identidade paraguaios também falsos.

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