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"Muito obrigado pelo carinho e pelas orações", agradece Ronaldinho Gaúcho ao deixar penitenciária a caminho da prisão em hotel de luxo

Ronaldinho deixa a promotoria do Paraguai depois de prestar depoimento junto com seu irmão Assis, em 16.03.2020.
Ronaldinho deixa a promotoria do Paraguai depois de prestar depoimento junto com seu irmão Assis, em 16.03.2020. REUTERS - Jorge Adorno

Depois de passar 32 dias detido, o ex-jogador Ronaldinho Gaúcho conseguiu mudar o regime de reclusão para prisão domiciliar, que será cumprida na suíte presidencial de um hotel de luxo, no centro de Assunção, onde a diária custa US$ 380. O dinheiro para a fiança de US$ 1,6 milhão saiu de uma conta bancária na Europa, já que a conta no Brasil ficou praticamente zerada depois que o ex-craque teve problemas com a Justiça brasileira. 

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Márcio Resende, correspondente em Buenos Aires

Eram 19h30 em Assunção (20h30 em Brasília), quando abriram as portas do Agrupamento Especial, um quartel policial transformado em penitenciária de máxima segurança.

Um pouco desorientado, acanhado, mas sempre sorridente, surgiu Ronaldinho Gaúcho cercado de policiais. De bermuda, blusa branca e mochila nas costas, parou para autografar a camisa do Grêmio que um fã paraguaio exibiu enquanto pedia pela assinatura.

"Obrigado pelo carinho e pelas orações. Muito obrigado", disse Ronaldinho, como numa tímida prece, quando um repórter quis saber o que o mais famoso preso do país tinha a dizer para os torcedores paraguaios.

Em seguida, Ronaldinho entrou no carro que o levaria ao luxuoso hotel Palma Róga, no centro de Assunção, aonde entraria pouco mais de meia hora depois.

No hotel, Ronaldinho e o seu irmão Roberto de Assis Moreira, representante do jogador, serão os únicos hóspedes devido à pandemia do coronavírus que acabou com a frequentação dos turistas. Ficarão em duas suítes diferentes, a 104 e a 105. Um quarto simples no hotel custa US$ 90, mas os do primeiro andar são os mais caros. A suíte presidencial na qual Ronaldinho ficará tem um custo diário de US$ 380.

Os novos hóspedes estarão o tempo todo sob vigilância policial para evitar que deixem ilegalmente o Paraguai, embora Assunção esteja isolada do resto do país para evitar a propagação do vírus.

O novo regime de prisão preventiva veio depois de uma audiência e do pagamento de uma fiança de US$ 800 mil para cada irmão.

Rota do dinheiro europeu

Se Ronaldinho pretendia esconder a existência de uma conta bancária na Europa, o juiz penal Gustavo Amarilla revelou em detalhes a rota do dinheiro: "O montante saiu da Europa para a conta de um dos advogados. Deste para o Banco Nacional de Fomento do Paraguai, onde o Pode Judiciário tem uma conta".

Ronaldinho manteve o seu dinheiro na Europa, depois que, em fevereiro de 2015, o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul condenou os irmãos a pagarem uma indenização por causarem danos numa área de preservação ambiental na orla do rio Guaíba, em Porto Alegre. A falta de pagamento levou a Justiça a apreender os passaportes dos irmãos Assis Moreira.

Em outubro de 2019, a multa de R$ 8,5 milhões foi renegociada a R$ 6 milhões. Depois de paga, os passaportes foram devolvidos. Antes disso, porém, quando em novembro de 2018 a Justiça interveio nas contas do ex-jogador no Brasil, encontrou apenas o equivalente US$ 6,61.

Sentença favorável

A decisão de mudar o regime de reclusão do ex-jogador não era esperada até, pelo menos, dia 13 de abril devido à paralisação do sistema judiciário paraguaio como medida para conter a circulação do coronavírus.

Mesmo assim, o juiz Gustavo Amarilla aceitou tratar da quarta tentativa da defesa de obter a prisão domiciliar tanto de Ronaldinho Gaúcho quanto do seu irmão, Roberto de Assis Moreira, acusados de uso de passaportes adulterados e de identidades falsas, além de integrarem uma rede criminosa de falsificação de documentos e de lavagem de dinheiro.

A audiência na qual os promotores usavam máscaras aconteceu com a participação dos irmãos por vídeoconferência. O tribunal foi favorável à defesa do jogador.

"Corresponde a medida substitutiva para Ronaldinho e para o seu irmão, e a continuação da sua prisão num hotel. Tenho a confirmação da aceitação por parte dos diretores do hotel para que eles (os irmãos), por sua conta, fiquem em prisão domiciliar lá", sentenciou o juiz.

Pelas leis paraguaias, a prisão preventiva pode durar ainda cinco meses e, se forem condenados, os irmãos podem pegar até cinco anos de prisão.

Preso exemplar

Enquanto Ronaldinho deixava o Agrupamento Especial, o delegado Blas Vera, diretor do local, contou que a presença do brasileiro gerou entusiasmo nos demais detentos e levantou o espírito no ambiente.

"Quando Ronaldinho chegou, todos queriam estar com ele, tirar fotos. Depois, conforme os dias passaram, tudo voltou ao normal. Em nenhum momento, tivemos inconvenientes com ele", elogiou.

Durante o primeiro mês de prisão, o ex-jogador foi o centro das atenções no quartel para presos especiais acusados de corrupção, de tráfico de drogas e de assassinatos. Participou de torneios de futebol e pôde usar o celular livremente para conversar com amigos e parentes. Também enviou vídeos para os familiares dos demais detentos.

No dia 21 de março, quando completou 40 anos, ele ganhou um churrasco feito pelos presos como presente de aniversário. Ronaldinho também recebeu ex-jogadores famosos do Paraguai até que as visitas foram proibidas devido à pandemia do coronavírus.

A acusação

A investigação já envolve 16 indiciados e a Procuradoria ampliou a causa, em 8 de março, a uma possível ligação com uma organização criminosa, acusada de lavar US$ 400 milhões. Além de Ronaldinho, empresários e funcionários públicos paraguaios são investigados.

A empresária paraguaia Dalia López, considerada a chefe da suposta quadrilha, foi quem convidou e financiou a viagem de Ronaldinho ao Paraguai. López está fugitiva e tem ordem de captura internacional pela Interpol desde o dia 18 de março.

Ronaldinho e o seu irmão Roberto Assis são acusados de entrarem no Paraguai no dia 4 de março com um passaporte falso. Viajaram ao país para participar de um programa de assistência social infantil, organizado pela Fundação Fraternidade Angelical, pertencente à empresária foragida. Ronaldinho também pretendia lançar no mercado paraguaio o seu livro "Gênio na vida", que conta a sua história.

Quando entraram no Paraguai, não apresentaram o passaporte brasileiro, nem o documento de identidade brasileiro, documentos aceitos em toda a América do Sul. Apresentaram passaportes paraguaios adulterados que, depois, alegaram na justiça nunca terem solicitado. A polícia também encontrou documentos de identidade paraguaios falsos.

No Brasil, o ex-jogador é Embaixador do Turismo do governo de Jair Bolsonaro, cargo que mantém apesar da acusação no Paraguai.

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