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Cultura

Refugiados e migrantes inspiram filmes no Festival de Gotemburgo

Áudio 07:39
O migrante marroquino Faysal Abbaoui interpreta um migrante marroquino no filme italiano 'In Un Posto Bellissimo", de Giorgia Cecere.
O migrante marroquino Faysal Abbaoui interpreta um migrante marroquino no filme italiano 'In Un Posto Bellissimo", de Giorgia Cecere. Divulgação

O drama dos refugiados e da migração em massa para a Europa inspirou vários filmes do 39º Festival de Cinema de Gotemburgo, na Suécia, o maior da Escandinávia. Apesar de não haver uma seção específica para o tema, uma simples folheada no catálogo revela que os diretores europeus – principalmente os nórdicos – se interessaram em levar o assunto às telonas, seja como mote principal ou através de personagens, em documentários ou ficção.

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Augusto Pinheiro, especial para RFI Brasil em Gotemburgo

A diretora italiana Giorgia Cecere criou o personagem de um migrante marroquino no filme “In Un Posto Bellissimo”, que desenvolve uma relação afetiva com a protagonista italiana, que descobre que foi traída pelo marido. .

A cineasta explica o porquê dessa decisão: “Porque sinto que essas pessoas, paradoxalmente, são mais próximas de mim, mais confiáveis, eu as entendo, entendo as razões do seu comportamento, da sua presença no mundo, a sua psicologia. Para mim é mais fácil me identificar com o marroquino Faysal que com todos os outros personagens da história. Não é algo ideológico. É um sentimento humano. Entendo também a raiva e frustração de alguém que tem toda a energia vital e toda a vontade de ser algo e que, no entanto, apenas sobrevive. E para um rapaz tão jovem deve ser uma experiência terrível”.
 

E continua: “E também porque que faz parte de um espelho terrível ao qual nós, europeus, temos que nos confrontar hoje em dia. Olhar no que nos transformamos pela maneira como tratamos os migrantes. É a barbárie que está invadindo, sem que a gente perceba. A nossa barbárie, e não a barbárie que vem de fora”.

Ator que interpreta migrante é um migrante de verdade

O jovem que interpreta o marroquino, Faysal Abbaoui, não é um ator profissional, mas um verdadeiro migrante que trabalhava nas ruas vendendo diversos produtos - exatamente como seu personagem. Giorgia conta como o encontrou. « Essas são as coisas belas que captamos no cinema, a magia, que sabemos quando captamos. Comecei a trabalhar com um jovem ator para o papel, muito inteligente, muito capaz. Mas, uma semana antes do início das filmagens, encontrei Faysal numa das locações do filme."

Giorgia continua: "Foi um encontro muito casual, que entendi imediatamente que foi proporcionado pelo deus do cinema. Ele estava sozinho na estação, e eu também. Eu me aproximei e perguntei se ele estava interessado em fazer um filme, e ele disse que sim, porque procurava trabalho. Fiz um teste com ele, ele foi excelente, assim como durante toda a filmagem. Parece um ator de verdade.”

Refugiado virou diretor

O diretor Vladimir Tomic (centro), aos 12 anos, quando era refugiado na Dinamarca, em imagem do seu filme "Flotel Europa"
O diretor Vladimir Tomic (centro), aos 12 anos, quando era refugiado na Dinamarca, em imagem do seu filme "Flotel Europa" Divulgação

Já o diretor bósnio-dinamarquês Vladimir Tomic foi ele mesmo um refugiado, quando tinha 12 anos, fugindo da guerra na ex-Iugoslávia com a mãe e um irmão. A família foi instalada junto com centenas de outros migrantes em um navio no porto de Copenhague e, durante esse período, os moradores registraram vídeos em VHS. Essas imagens resultaram no documentário Flotel Europa.

“Eu já tinha uma fita VHS, que gravamos enquanto estávamos alojados no navio no porto de Copenhague em 1993. Gravamos para enviar por um comboio humanitário para nossos parentes em Sarajevo para que pudessem ver como estávamos vivendo. Mas eu sabia que havia outras pessoas que tinham gravado vídeos também. Entrei em contato com elas através das redes sociais, e elas me deram o material para fazer o filme”, explica Tomic. 

O cineasta compara a situação dos refugiados iugoslavos nos anos 1990 com a atual. “É muito diferente agora. Porque para mim e para outros refugiados foi realmente difícil, pois estávamos em guerra, era perigoso sair da Bósnia. Mas, quando conseguíamos, podíamos comprar uma passagem de trem e ir para a Dinamarca. Enquanto os refugiados atualmente têm mais dificuldades para viajar e são tratados de maneira muito dura. Mas a situação era a mesma em muitos aspectos, tínhamos que esperar muito tempo pela aprovação do asilo. Durante dois anos, não sabíamos o que ia acontecer, então também havia uma certa frustração”, afirma.

Bem-vindo à Noruega

A comédia dramática "Welcome do Norway" mostra a difícil relação entre um empresário racista e um refugiado eritreu
A comédia dramática "Welcome do Norway" mostra a difícil relação entre um empresário racista e um refugiado eritreu Divulgação

Entre outros filmes que tocam no tema está o norueguês “Bem-Vindo à Noruega”, do cineasta Rune Denstad Langlo, que disputa o prêmio principal do festival, de melhor filme nórdico. Trata-se de uma comédia dramática sobre preconceito, amizade e a dura realidade que os refugiados enfrentam na Escandinávia.

A história mostra a difícil relação entre um empresário racista, que abre uma residência para refugiados no hotel da família para salvar o negócio em decadência, e um migrante eritreu.

Outra estreia é o documentário “A Garota que Salvou a Minha Vida”, dirigido pelo refugiado curdo Hogir Hirori, que deixou a mulher grávida na Suécia para voltar ao Iraque e filmar o drama de milhões de pessoas que fogem do grupo Estado islâmico – e acabou contando a sua própria história.

Já o documentário sueco “Detenção”, dirigido por Anna Persson e Shoon Chakraborty, retrata um centro onde os migrantes aguardam deportação, mostrando a dura realidade sob a perspectiva tanto dos detidos quanto dos funcionários.

O filme “Vingança”, da diretora dinamarquesa Susanne Bier, vencedora do prêmio honorário do festival deste ano, faz parte da retrospectiva dedicada à cineasta e conta a história de um médico que concilia a vida em família com o trabalho em um campo de refugiados africanos em uma pequena cidade da Dinamarca. A produção ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2010.

Mas as histórias de migração também incluem aquelas entre países europeus. O espanhol Eloy Dominguez Serén, que trocou uma Espanha em crise pela promissora Suécia, onde vive de bicos, usou o cinema para entender o seu lugar na sociedade no filme “Nenhuma Vaca no Gelo”.

  O Festival de Cinema de Gotemburgo encerra no dia 8 de fevereiro.

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