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Europa/ refugiados

Refugiada conta périplo de Aleppo à Alemanha em cadeira de rodas

Nujeen Mustafa chegou à Grécia de barco conduzido pelo tio, que aprendeu a navegar pelo YouTube.
Nujeen Mustafa chegou à Grécia de barco conduzido pelo tio, que aprendeu a navegar pelo YouTube. Arquivo pessoal/ twitter

Dois mil quilômetros em uma cadeira de rodas. Nujeen Mustafa, de 17 anos, viajou entre a cidade Aleppo e Alemanha e, durante o percurso, ainda ajudou outros refugiados a se comunicar em inglês, idioma que aprendeu assistindo a uma série americana quando a Síria ainda vivia tempos de paz. A história da jovem síria se transformou em livro, apresentado nesta quinta-feira (20) na Feira de Frankfurt, o maior evento literário europeu.

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A jovem sofre paralisia cerebral e contou à jornalista britânica Christina Lamb seu difícil périplo pela Europa em cadeira de rodas. A narração está em Nujeen.

O livro começa com o relato dos primeiros dias da guerra e a escalada da violência, que terminou com a decisão de sua família de fugir do país. "Perdoe-me, Síria", disse a menina ao cruzar a fronteira com a Turquia. Seus pais, muito idosos para a viagem, ficaram no país e deixaram que Nujeen e suas irmãs seguissem até a Alemanha.

Lições de navegação pelo YouTube

A adolescente contou a viagem apavorante de barco até a Grécia: seu tio dirigiu a embarcação utilizando noções que aprendeu no YouTube, enquanto a jovem precisou enfrentar os passageiros que queriam jogar fora a sua cadeira de rodas, para liberar mais espaço.

Uma vez em terra, Nujeen teve de encarar os excessos dos traficantes de pessoas, os campos de refugiados superlotados e, como se não bastasse, as fronteiras europeias se fechando na sua frente. Mas ela também vivenciou momentos de solidariedade, como quando muitos migrantes a ajudaram a avançar o caminho levando a cadeira de rodas.

Para a jovem, que saía pouco de seu apartamento em Aleppo, o périplo de um mês representou, apesar de tudo, uma aventura. "Pela primeira vez", relata, ela se sentiu útil, já que o inglês que aprendeu assistindo a "Days of our life" foi fundamental. Entrevistada por vários jornalistas durante a viagem, tornou-se uma espécie de estrela, ao surpreender os repórteres com seu sonho de ser astronauta.

“Heroína” da Nobel da Paz

Sua história é tão extraordinária que a adolescente paquistanesa Malala Yousafzai, ganhadora do Nobel da Paz, disse que a considera uma fonte de inspiração. "Ela disse que sou sua heroína, o que é um pouco estranho para mim, porque foi ela quem mostrou que as meninas podem mudar o mundo", comentou Nujeen.

A obra é uma tentativa de dar um rosto e uma história aos milhões de refugiados que chegaram à Europa desde o ano passado. "As pessoas pensam na crise síria como algo que acontece muito longe delas e sobre a qual não deveriam se importar", lamentou. "Espero que o livro tenha um impacto, ainda que seja em apenas uma pessoa", disse Lamb.

A jovem síria hoje vive em segurança em Colônia, na Alemanha, e agora tem um novo objetivo: provar que a chanceler alemã, Angela Merkel, tinha razão ao abrir as portas de seu país aos refugiados em 2015, ano em que 890 mil migrantes desembarcaram no país. "Vamos fazer o máximo para provar a todo o mundo que a Alemanha tinha razão desde o início", afirmou à AFP, em uma entrevista por Skype a partir do apartamento que compartilha com suas duas irmãs.

Jovem entende o medo de alemães dos refugiados

Desde que chegou à Alemanha, em setembro de 2015, Nujeen vai à escola, fez amigos e até começou a jogar basquete para cadeirantes. Num momento em que aumenta a desconfiança em relação aos refugiados no país, a jovem disse que este clima não mudou sua opinião sobre os alemães.

"Entendo que algumas pessoas possam estar assustadas", pondera. Os refugiados deveriam "compreender isso e respeitar a cultura e o modo de vida dos alemães. Somos convidados e devemos causar uma boa impressão".

Se pudesse se reunir com Angela Merkel, ela indica que agradeceria a chanceler por sua política de acolhida. "Vamos mostrar ao mundo inteiro que o resultado dessa política será bom, que ela pode ficar orgulhosa e dizer 'eu tinha razão'", frisou. Nujeen espera com impaciência a resposta ao seu pedido de asilo, com o qual vai poder visitar os seus pais, sem medo de encontrar as portas fechadas na Europa no retorno.

A adolescente ainda sonha em se tornar astronauta, mas diz que a vida lhe mostrou que é sempre necessário ter um plano B. “Farei de tudo para realizar o meu sonho, mas se não der certo, continuarei a escrever para me tornar uma verdadeira escritora”, assegura.

Com informações da AFP

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