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Protestos contra corrupção na Romênia: semelhança com Brasil é mera coincidência

Em protesto histórico, manifestantes formam bandeira gigante na frente da sede do governo, em Bucareste.
Em protesto histórico, manifestantes formam bandeira gigante na frente da sede do governo, em Bucareste. Inquam Photos/Liviu Florin Albei via REUTERS

Incêndio e tragédia em uma boate. Dezenas de mortos, autorizações fraudulentas. Corrupção. Em novembro de 2015, os romenos saíram às ruas para protestar contra a corrupção generalizada no país. No dia 31 de janeiro, durante a madrugada, o governo aprovou um decreto para amenizar as leis anticorrupção. Os romenos voltaram às ruas.

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“Essa nova forma de protesto popular nas ruas começou há alguns anos, mas foi o trágico incêndio na boate Colectiv, que deu início às grandes manifestações”, explica, em entrevista à RFI Brasil, a presidente do Grupo pelo Diálogo Social Magda Carneci, em Bucareste. “Criou-se um tipo de sensibilidade cívica e popular que permanece até hoje”, acrescenta a pesquisadora.

Na noite do dia 30 de outubro de 2015, 64 pessoas morreram em um incêndio na boate Colectiv, em Bucareste. As investigações demonstraram todo um sistema de corrupção, marcado por subornos e propinas que permitiam o funcionamento da boate, sem qualquer respeito às normas de segurança.

"Corrupção mata"

Com o slogan “a corrupção mata”, milhares de romenos saíram às ruas e provocaram a renúncia do então primeiro-ministro social-democrata Victor Ponta. Ele já era acusado, aliás, de lavagem de dinheiro, evasão fiscal e outras 17 infrações por falsificações de documentos. Todos os crimes foram cometidos antes do seu mandato de primeiro-ministro, quando ele era advogado.

A partir de 2015, a Justiça romena inicia um combate à corrupção. Cerca de 30 políticos estão sendo processados, inclusive o ex-primeiro-ministro Victor Ponta. É nesse contexto que o atual governo aprovou na madrugada do dia 1º de fevereiro um decreto que estabelecia um mínimo de € 44 mil para poder começar a perseguir os crimes financeiros e reduzia as penas de prisão por corrupção.

A reação popular foi imediata. Em um único dia, mais de 500 mil pessoas se reuniram na frente da sede do governo, na praça da Vitória, em Bucareste. Entre elas, a pesquisadora Magda Carneci. “Foi muito impressionante. O clima era pacífico. As pessoas gritavam frases como “governo de ladrões”, “renúncia”, cantavam o hino nacional. Havia famílias inteiras”, conta Carneci. “Eu pensava que a maioria das pessoas tinha votado contra o atual governo social-democrata nas últimas eleições em dezembro, porém o mais surpreendente é que não. Muitos diziam ter votado pelo partido, mas estavam decepcionados”, relata.

Governo recua

As manifestações já são consideradas históricas. Desde o final do regime comunista em 1989, tantos romenos não se mobilizavam por uma causa. Pressionado, o governo recuou e suspendeu o decreto que permitia a vários políticos se livrar da Justiça. Apesar disso, as manifestações continuam nas ruas de Bucareste. “Embora o decreto tenha sido retirado, existe hoje um projeto de lei que está no parlamento e pode ainda ser aprovado. Vale lembrar que o partido Social-Democrata, que ganhou as últimas eleições em dezembro, tem maioria no Parlamento”, ressalta Carneci.

Manifestações populares ou partidárias?

Segundo a pesquisadora, não há até agora um movimento ou partido por trás dos protestos. “As manifestações são organizadas via redes sociais. Nenhum partido ou grupo político se pronunciou publicamente em favor dos protestos. Aliás, algo interessante é o fato que as pessoas que estão na rua não aceitam líderes. No momento em que alguém começa a fazer um discurso, as pessoas vaiam, o fazem parar”, conta. Para Magda Carneci, ainda é cedo para saber quem poderá ser favorecido com tamanha indignação popular.

Em um paralelo com o que aconteceu na Espanha e a criação do partido Podemos, hoje terceira força política do país, o historiador francês Jacques Rupnik, do Centro de Pesquisa da Sciences Po em Paris, concorda que ainda é muito prematuro para tirar uma conclusão. “Por enquanto, os romenos estão muito mais na fase dos Indignados do que do Podemos”, avalia Rupnik.

O que esperar a curto prazo

Apesar de muitos manifestantes pedirem novas eleições, a pesquisadora Carneci não acredita que essa seja a saída mais provável para a crise política, visto que as últimas eleições ocorreram há apenas dois meses, em dezembro de 2016. “Acredito que o atual governo possa renunciar e um outro governo, também do partido Social-democrata, seja composto”, indica.

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