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O Mundo Agora

Crise política tira governo alemão do imobilismo

Áudio 04:52
A chanceler alemã, Angela Merkel, junto com membros de seu partido União Democrata Cristã (CDU) durante coletiva comenta reunião sobre a formação de um novo governo de coalizão. Berlim, Alemanha, 20 de novembro de 2017.
A chanceler alemã, Angela Merkel, junto com membros de seu partido União Democrata Cristã (CDU) durante coletiva comenta reunião sobre a formação de um novo governo de coalizão. Berlim, Alemanha, 20 de novembro de 2017. REUTERS/Hannibal Hanschke

A Alemanha está virando um Estado normal. Não deveria surpreender ninguém, mas é surpreendente. Desde a derrota do nazismo em 1945, a Alemanha não é um país como os outros.

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Culpabilidade coletiva dos campos de extermínio e estado totalitário na Alemanha comunista, Guerra Fria e reunificação na marra: os desafios foram pesadíssimos. Mas também não houve outro povo que teve a coragem de enfrentar todos os fantasmas e todas as responsabilidades do passado. E que conseguiu dar a volta por cima.

A Alemanha hoje, é uma das economias mais prósperas do mundo, um oásis de estabilidade política, um paraíso social – se é que isso exista – pacífico e responsável, avesso a extremismos e populismos. Um país considerado chatíssimo pelos vizinhos, empanzinado no seu egoísmo tranquilo de país rico.

Angela Merkel encarnou essa mistura de tranquilidade centrista e a boa consciência ética. A chanceler nunca foi de grandes voos messiânicos e promessas de Mamãe Noel. Seu negócio era administrar a prosperidade e manter a estabilidade política, para não atrapalhar ou alvoroçar o país.

O sistema federal e o voto distrital misto não deixam quase nenhum espaço para maiorias absolutas. A regra do jogo são governos de coalizão e Merkel tem um jeito fora do comum para construir maiorias parlamentares, com seus adversários socialdemocratas e até com as diversas correntes de seu próprio partido conservador, a CDU.

Sem falar nos acordos com os Verdes ou os liberais do FDP nos Estados federados. A chanceler intuía que a maioria da população estava satisfeita e não queria aventuras. Daí essa atitude de “gerentona” e apaziguadora de conflitos. Nada de grandes mudanças.

Governo é para resolver as coisas no dia a dia, responsabilizando situação e oposição. Mas o prestígio de Merkel também vinha de sua coragem política e retidão moral. A decisão de acolher um milhão de migrantes e refugiados em poucas semanas foi um gesto que mostrou a firmeza moral da chanceler. Mas que também acabou custando caro.

Partido de Merkel levou bordoada

As últimas eleições deveriam ter sido a apoteose da carreira política de Angela Merkel. Claro, ela ganhou o páreo, mas o seu partido levou uma bordoada. Como também o seu aliado no governo, o partido socialdemocrata de Martin Schulz. Uma parte significativa do eleitorado resolveu votar nos partidos menores (FDP e Verdes) e, bem pior, na extrema-direita nacionalista e xenófoba.

Foi a primeira vez, desde o suicídio de Hitler no seu bunker, que um partido com esse tipo de ideologia e com membros que não escondem suas simpatias pelo nazismo, consegue ter representação no Parlamento. Ficou dificilíssimo costurar uma maioria para governar. Sobretudo que a socialdemocracia saiu tão enfraquecida das urnas que decidiu que a única maneira de recuperar credibilidade era uma cura de oposição.

Martin Schulz parece ter dado braço a torcer

Merkel tentou um acordo esdrúxulo com os liberais e os verdes. Só que as posições de uns e outros eram tão contraditórias que não podia dar certo. De duas uma: ou vai-se a novas eleições ou os sociais-democratas dão o braço a torcer. Na primeira hipótese o risco é aumentar ainda mais o voto na extrema-direita. Na segunda, é o partido socialdemocrata se sacrificar pela pátria, aceitar uma nova coalizão com Merkel e sair perdendo ainda mais no próximo pleito. Pelo visto, sob pressão, Martin Schulz deu o braço a torcer.

De qualquer maneira, o próximo governo vai ter que sair do imobilismo e da pura gestão do quotidiano. Um governo mais fraco e mais instável, que vai ter que aceitar riscos. Como todos os outros governos do Velho Continente. Vamos ter uma Alemanha mais imprevisível e perigosa, como todos os governos e eleitores de seus vizinhos. E no final pode até ser positivo para a Europa que está precisando de uma boa chacoalhada e não do eterno business as usual. Bem-vindos à Alemanha normal e à normalidade europeia do século XXI!

* O cientista político Alfredo Valladão publica sua coluna todas as segundas-feiras na RFI

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