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Eleições UE

Governo da Hungria cala a imprensa independente para impor projeto obscurantista

O jornalista húngaro Gábor Horváth, editor-chefe do jornal Népszava (A Voz do Povo), na sede do jornal em Budapeste.
O jornalista húngaro Gábor Horváth, editor-chefe do jornal Népszava (A Voz do Povo), na sede do jornal em Budapeste. Foto: RFI

Os meios de comunicação desempenham um importante papel na estratégia do primeiro-ministro nacionalista da Hungria, Viktor Orbán. Em abril, a seis semanas das eleições para o Parlamento Europeu, o líder ultraconservador criou uma nova agência de imprensa internacional, a "V4 News Agency" (V4NA), com sede em Londres, para divulgar «o ponto de vista» do grupo de Visegrado (V4), formado por Hungria, Polônia, República Tcheca e Eslováquia, as quatro maiores economias entre as ex-comunistas do bloco. O V4 tenta aumentar seu poder de influência nas decisões de Bruxelas fazendo oposição, em várias áreas, aos países ocidentais da União Europeia.

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Enviada especial à Budapeste

Na Hungria, há vários anos Orbán silenciou a imprensa independente. O jornal Népszava (A Voz do Povo, em português), fundado há 146 anos, é considerado o último diário social-democrata do país. A imprensa pluralista foi dizimada por uma lei aprovada pelo Parlamento húngaro em 2010. O texto criou um órgão regulador, o Conselho da Mídia, inteiramente controlado pelo Fidesz, o partido do primeiro-ministro. Pouco a pouco, acionistas estrangeiros de importantes grupos de mídia deixaram o país, cedendo o espaço para empresários próximos de Orbán, que compraram a maioria dos veículos de comunicação para espelhar as posições do governo.

Nos últimos anos, os grupos de imprensa finlandês Sanoma e o alemão Funke Gruppe venderam suas filiais na Hungria. Emergiram no lugar novos magnatas da mídia, como Lorinc Meszaros, amigo de infância do premiê, hoje dono do maior grupo editorial da Hungria (Mediaworks), ou o americano de origem húngara Andrew Vajna. Depois de uma bem-sucedida carreira como produtor de cinema em Hollywood, Vajda comprou o segundo maior canal de TV local (TV2) e foi nomeado “comissário do governo para a promoção do cinema nacional”.

O editor-chefe do Népszava, Gábor Horváth, recebeu a RFI na sede do jornal em Budapeste para falar sobre a situação da imprensa no país.

RFI – Quais as condições de trabalho atualmente na redação do Népszava?

Gábor Horváth – Vamos começar pelas boas notícias. Não temos jornalistas na prisão, não existe uma repressão pessoal contra os jornalistas, ainda não é o mesmo tipo de ditadura que se vê na Rússia. Na verdade, eles compreenderam que se aplicassem o que descrevem como «conteúdos ilegais» na lei de imprensa e na lei da mídia, seria muito perigoso para eles mesmos em termos de sanções europeias. Eles optaram por fazer pressão pelo poder econômico.

RFI – De que maneira?

GH – Não existe mais um mercado de anunciantes na Hungria, tudo é centralizado pelo governo, inclusive no setor da propaganda. Como as agências querem estar bem com o governo, elas têm medo de comprar espaço publicitário em veículos independentes e serem alvos de retaliação. Eles têm usado esse tipo de pressão para minimizar a ação da mídia independente. Por exemplo, hoje só existe uma rádio independente em funcionamento na Hungria, mas o governo restringiu a transmissão apenas para Budapeste. Essa rádio não é mais ouvida no interior. Em outubro de 2016, eles compraram e depois fecharam o Népszabadság, que era o maior jornal húngaro independente. Também compraram sites de informação e uma das duas maiores emissoras de televisão do país.

RFI – Quais as consequências dessa centralização?

RFI – O governo supervisiona agências estatais de notícias e aliados de Orbán controlam a maioria das mídias privadas, criando uma bolha onde só se ouve a narrativa anti-imigração. É assim em 80% da mídia no país. Houve um esforço sutil para transformar a mídia independente em líder da torcida a favor do governo. Eles ocupam o espaço midiático com a imprensa oficial, lembrando o que acontecia na Hungria nos anos 1960 e 1970, ainda no período soviético. Com isso, eles criaram uma presença desproporcional na audiência e tentam reduzir ao máximo o impacto da imprensa independente.

RFI – Deve ser frustrante trabalhar nessas condições…

GH – Nossa maior ameaça não é a lei. O problema é que não importa a reportagem que façamos para denunciar uma irregularidade: não há nenhuma consequência para os políticos. A gente pode provar 100 vezes um caso de corrupção no alto escalão do poder, na família do primeiro-ministro ou no círculo de amigos dele que nada acontece. É isso que arruína a vida de um jornalista: quando você tenta fazer bem o seu trabalho, denunciando esquemas importantes no país, e nada acontece.

RFI – Os repórteres conseguem ter acesso a informações do governo e de empresas?

GH – Essa é a pior parte. Claro que tentamos obter informações do governo, mas eles levam tempo para responder, adiam a resposta, às vezes pedem dinheiro, o que pode parecer maluco. É a maneira deles de fazer nossa vida impossível. Tomemos o exemplo da Deutsche Telekom [maior empresa europeia de telecomunicações], que pertence parcialmente ao governo alemão. Ela controla a Magyar Telekom, a maior companhia de telecomunicações da Hungria, que por sua vez possui o maior site de informação do país, o Origo. Por € 1 bilhão, para introduzir a 4G na Hungria, o Origo passou a divulgar a propaganda oficial. O site repete os ataques do governo aos imigrantes e ao George Soros [bilionário americano de origem húngara que Orbán acusa de querer inundar a Hungria e a Europa com imigrantes, por meio das ONGs que sua fundação Open Society financia]. O governo alemão não é alheio a esse tipo de negócio. Só o grupo RTL, de Luxemburgo, ficou na Hungria.

RFI – Como vocês imaginam o futuro trabalhando nessas condições difíceis?

GH – O Népszava tem 146 anos de existência, viu duas guerras, teve dois ex-jornalistas assassinados, um nos anos 1920, outro, o então redator-chefe, em 1998 no centro de Budapeste. O financiamento atual é suíço, mas procuramos outros sócios. Vimos muita coisa acontecer na Hungria. A gente sabe que o governo vai continuar sufocando a imprensa livre pelo poder econômico. Não deveria ser assim, mas vai continuar acontecendo. Um pequeno número de veículos vai sobreviver, como pequenas ilhas de liberdade. O problema é que a gente depende de um esforço consciente das pessoas para buscarem notícia qualificada e não temos poder sobre as pessoas. Quem assiste futebol hoje na Hungria é bombardeado no intervalo com propaganda anti-imigração. O governo passa seu tempo elogiando a Rússia e a China, enquanto critica Bruxelas e Macron [o presidente francês], porque o projeto de Europa forte da Comissão Europeia contraria o da Hungria, de mais nacionalismo e soberania. É um jogo de sobrevivência que será mais determinado por questões econômicas do que de legalidade. Se o jornal sobreviver a isso, será a liberdade que terá sobrevivido na Hungria.

 

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