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Linha Direta

Crise italiana: presidente dá ultimato a partidos e quer novo governo até terça-feira

Áudio 07:08
O presidente da Itália, Sergio Mattarella, quer a composição de um novo governo até terça-feira (27).
O presidente da Itália, Sergio Mattarella, quer a composição de um novo governo até terça-feira (27). REUTERS/Remo Casilli

O Presidente da República italiano, Sergio Mattarella, pediu a formação de novo governo até a próxima terça-feira (27). Depois de consultar todos os líderes dos partidos, ele deu o prazo de cinco dias para que entrem em acordo, caso contrário deverá formar um Executivo composto por tecnocratas ou convocar eleições antecipadas.

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Gina Marques, correspondente da RFI em Roma

 

A maioria dos jornais italianos destaca a advertência do presidente Mattarella e a possibilidade de um acordo entre as duas maiores forças parlamentares - Movimento 5 Estrelas, frente antissistema, e o Partido Democrático, de centro-esquerda - para a formação de um novo governo.

O jornal Corriere della Sera intitula “Cinco dias para o acordo” explicando a repreensão do Presidente para que sejam rápidos e claros. O Movimento 5 Estrelas e o Partido Democrático negociam um eventual acordo em clima de tensão. O diário La Repubblica também ressalta a hipótese de acordo entre o Movimento 5 Estrelas e o Partido Democrático e optou pelo título do romance histórico do escritor do século XIX Alessandro Manzoni, “Os prometidos esposos”, livro que no Brasil foi traduzido como “Os Noivos”. La Stampa também evidencia na manchete “PD e 5 Estrelas, um caminho apertado para o governo”, explicando que o presidente Mattarella está irritado com a falta de acordo entre os partidos e que interpreta a crise de agosto como “ uma inaceitável irresponsabilidade” diante do dramático momento que vive a Itália no campo interno e internacional.

A situação atual

Em 8 de agosto o ministro do Interior e vice-premiê italiano, Matteo Salvini, do partido ultranacionalista e de extrema-direita Liga, deu uma rasteira no governo. Ele rompeu a coalizão com o Movimento 5 Estrelas (M5S) e pediu novas eleições. Na terça-feira (20), o primeiro-ministro, Giuseppe Conte, renunciou ao cargo.

O Movimento 5 Estrelas, partido com a maior bancada no Senado e na Câmara dos deputados, com o total de 32% de cadeiras no Parlamento, tem de encontrar um aliado, ou então, se unir de novo com a Liga e perdoar a punhalada. A hipótese de refazer essa aliança com a Liga não foi descartada, mas é vista como impopular, comparada a um casal que briga e em que um dos cônjuges gosta de apanhar.

Para evitar eleições antecipadas em outubro, o Movimento 5 Estrelas tem que fazer uma nova aliança. O Partido Democrático, forte rival nas eleições de 2018, que obteve 20% dos votos, demonstrou disponibilidade de se aliar, mas com certas condições, entre elas a revogação do “Decreto Segurança Bis”, com medidas extremistas impostas por Salvini contra as ONGs que salvam imigrantes.

O decreto foi recentemente aprovado pelo parlamento. Por sua vez, o M5E não quer mostrar fragilidade e também impõe suas condições para uma eventual coalizão. O líder do 5 Estrelas, Luigi Di Maio, enumerou pontos de um possível programa de governo e incluiu itens sobre defesa do meio ambiente e uma série de reformas na justiça, no trabalho e no Parlamento, como a redução do número de senadores e deputados.

Trata-se de uma reforma constitucional que reduziria o número de deputados de 630 para 400 e o número de senadores de 315 para 200.

O antissistema

Fundando em 2009 pelo comediante Beppe Grillo, O Movimento 5 Estrelas surgiu da insatisfação com a "velha política" e com uma bandeira anticorrupção, conta com várias correntes de tendências diferentes, de esquerda e de direita, incluindo uma forte contrária à União Europeia.

O jornal La Repubblica publicou nesta sexta-feira uma analise do jornalista Massimo Recalcati que compara o Movimento 5 Estrelas a uma fase de puberdade, rebelde com os mais velhos.

“ O jogo do Movimento 5 Estrelas é aquilo que acontece sempre na passagem psicológica entre a puberdade e a idade adulta. Conhecemos a crítica cega e obstinada que o mundo dos adolescentes dirige aos adultos. O Movimento assumiu esta postura desde a sua origem: a política em quanto tal é sempre corrupta, e os políticos, como no olhar idealista da puberdade dos filhos adolescentes, são sempre viciosos, podres, embebidos pelo cinismo e egoismo. O insulto descarado, a crítica virulenta, o desprezo pelas instituições e seus símbolos caracterizaram este Movimento desde seu surgimento ”.

Segundo Racalcati, agora o M5E deve crescer, encarar responsabilidade de governar, e estar no lugar dos adultos que eles até então agrediram.

Partido Democrático dividido

O Partido Democrático, que tradicionalmente defende severamente as instituições em antagonismo como o M5E, também está dividido entre várias correntes. Assim que Salvini anunciou a ruptura do governo, Matteo Renzi, ex-premiê com caráter exuberante, se pronunciou a favor de uma aliança com os “ex-inimigos” do Movimento 5 Estrelas. A decisão de Renzi, que comanda a maioria dos parlamentares PD, acabou atropelando o Secretário do partido Nicola Zingaretti que antes era a favor de eleições antecipadas junto com a ala de esquerda do grupo. Diante desta enrascada, prevaleceu a linha de Renzi.

Este impasse parece um jogo de xadrez, mas para formar uma aliança entre PD e M5E, ambos terão que ceder em algumas concessões.

O que provocou a crise

A Itália já passou por diversas crises de governo. Desde 1946 o país mudou 65 vezes de Executivo, em uma democracia parlamentarista. No entanto, é a primeira vez que uma crise de governo acontece em pleno verão de agosto, quando o parlamento estava em recesso.

A crise foi provocada por Matteo Salvini, líder da Liga, partido ultranacionalista de extrema-direita e populista. Para entender a situação atual e a formação no parlamento é preciso recordar que nas eleições legislativas em 4 de março de 2018, o M5E foi o partido que mais conquistou votos, cerca de 32%. Porém, precisava de um aliado para governar conforme impõe a lei. Na época o único partido que aceitou a aliança foi a Liga, que havia somente 17% da preferência. Não foi fácil conciliar os interesses entre ambos, o governo demorou quase três meses para ser formado e tomar posse em 1° de junho.

A Liga e o M5E tem coisas em comum, ambos são populistas e dispostos a combater o sistema. No entanto, em pouco mais de um ano a Liga engoliu o aliado. Nas eleições parlamentares europeias em maio de 2019 obteve cerca de 34% dos votos e o M5E despencou nas pleito europeu com apenas 17%, perdendo em um ano cerca de 6 milhões de votos. Convencido pelas pesquisas de intenção de votos que mostravam a Liga disparada na frente, Salvini quis dar uma rasteira no aliado e derrubar o governo pedindo eleições antecipadas. Mas o golpe de Salvini acabou se transformando em um bumerangue.

Porque foi um bumerangue

A possibilidade de antecipar as eleições para outubro provocaria consequências econômicas desastrosas para a Itália. Apesar de ser a terceira maior economia da zona euro, o país tem uma dívida pública de aproximadamente 2,4 trilhões de euros.

O governo deve aprovar seu orçamento importante para 2020 e submetê-lo as regras da União Europeia.

Sem dinheiro nos cofres públicos, a Itália também deve cobrir um buraco de 23 bilhões de euros e tomar medidas imperativas para evitar o aumento automático do imposto agregado sobre produtos (IVA) no ano que vem.

Segundo as estimativas, este aumento de 22% para 25% acarretaria em quase 1.200 euros anuais por família, cerca de 6 mil reais por ano. Isso significaria contração do consumo e recessão.

A crise pegou de surpresa os italianos que estavam desfrutando as férias de verão. Tocar no bolso da população representa um perigo para qualquer líder político. Diante da preocupação com o aumento dos impostos, a popularidade de Salvini sofreu um abalo.

O líder de extrema-direita também não esperava que para evitar as urnas antecipadas, o Partido Democrático despertasse e oferecesse uma possível aliança ao rival Movimento 5 Estrelas. Diante desta situação, Salvini parece ter sido deixado de lado e pode começar o seu declínio na corda bamba das sondagens de preferência popular.

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