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Alemanha/Muro de Berlim

Como os alemães orientais burlaram o regime, semanas antes da queda do Muro de Berlim

Fugitivos da Alemanha Oriental após deixarem o tribunal da Embaixada da República Federal da Alemanha em Praga, em 1989.
Fugitivos da Alemanha Oriental após deixarem o tribunal da Embaixada da República Federal da Alemanha em Praga, em 1989. AFP/Pascal George

Nas semanas que antecederam a queda do muro de Berlim, em 9 de novembro de 1989, a cortina de ferro que separava os países comunistas do resto da Europa se tornou surpreendentemente porosa. O processo de liberalização na Hungria levou à abertura da fronteira com a Áustria. Os alemães orientais, que cada vez mais rejeitavam o regime em que viviam, correram para alcançar essa brecha. Muitos conseguiram.

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Pascal Thibaut, correspondente da RFI em Berlim

Esta é a frase inacabada mais famosa da história alemã. Na noite de 30 de setembro de 1989, o ministro das Relações Exteriores da República Federal da Alemanha (RFA), Hans-Dietrich Genscher, estava na embaixada de seu país em Praga, capital da Tchecoslováquia. Cerca de 5.000 alemães orientais que haviam fugido de seu país, a RDA comunista, acampavam nas condições mais precárias possíveis, no jardim da embaixada. A única esperança deles era chegar ao Ocidente e não serem mandados de volta a seu país.

Hans-Dietrich Genscher discursava na varanda da Embaixada. Apesar dos holofotes instalados, dificilmente se pode ver o perfil do ministro que declarou: "Meus queridos compatriotas, vim informar que seu pedido foi hoje ..."

O final da frase era inaudível. Os gritos de alegria ecoaram, os refugiados da Alemanha Oriental choravam. Segundo testemunhas dessa cena histórica, as mulheres desmaiaram. Trens especiais levaram então os refugiados para o Ocidente, através da RDA.

Era Gorbachev

Este episódio histórico é apenas o mais conhecido de uma grande onda de emigração durante o verão de 1989. O regime da Alemanha Oriental rejeitava então qualquer reforma, apesar da chegada, quatro anos antes, de Mikhail Gorbachev no poder em Moscou, um fato que liberalizou o regime na antiga URSS.

Os movimentos de oposição estavam ganhando força na RDA. Mais e mais alemães orientais se candidatavam para deixar seu país. Quem escolhia atravessar o muro deveria, no entanto, temer as mesmas consequências terríveis que durante as horas mais sombrias da guerra fria.

Em fevereiro de 1989, um jovem de 20 anos foi morto enquanto tentava atravessar a fronteira entre os dois lados de Berlim. Diante dos protestos internacionais, a RDA decide que, no futuro, os guardas de fronteira não atirarão mais em fugitivos.

Diante dessa situação, os alemães orientais correram para a brecha aberta pelo novo governo reformista húngaro. A partir de maio, a Cortina de Ferro que separa o país da Áustria desaparece em diferentes lugares. Em julho e agosto, 50.000 alemães orientais deixam seu país e chegam à Hungria.

No final de agosto, as autoridades de Budapeste se reúnem com o chanceler Helmut Kohl e o chanceler Hans-Dietrich Genscher em bons termos. Os comunistas reformistas anunciam sua intenção de abrir sua fronteira com a Áustria. Miklos Nemeth, o primeiro-ministro húngaro, falaria mais tarde sobre as lágrimas nos olhos de Helmut Kohl. Em 10 de setembro, a fronteira austro-húngara é aberta.

Nesse processo, o regime da antiga Tchecoslováquia, tão irreformável quanto em Berlim Oriental, fechou sua fronteira com a Hungria, que se tornou inacessível para os alemães orientais que procuravam refúgio, por exemplo, na embaixada alemã em Praga.

Efeito dominó

A liberalização em vários países do bloco comunista, primeiro na União Soviética, depois na Polônia e na Hungria, abalou os demais países ortodoxos como a RDA. Esta sofreu uma hemorragia de suas forças, sangramento que havia tentado interromper 28 anos antes, com a construção do Muro de Berlim.

O líder do país, Erich Honecker, estava doente e desapareceu durante a maior parte do verão [no Hemisfério Norte]. Em Leipzig, na Saxônia, manifestações contra o regime ocorriam toda segunda-feira desde o início de setembro. Os participantes cantavam um slogan que ficaria na história: "Wir sind das Volk" ("nós somos o povo").

A oposição no controle da contagem das eleições municipais de maio havia demonstrado, na Alemanha do leste, números mostrando que os resultados de divulgados pelo poder constituíam uma mentira, desmascarando um regime cada vez mais rejeitado.

Mas o poder permanecia cego. Em janeiro, Erich Honecker declarou que o Muro de Berlim continuaria existindo por 100 anos, enquanto, ao mesmo tempo, o Ministro das Relações Exteriores soviético questionava a função do mesmo muro.

Berlim Oriental parece cada vez mais uma grande enganação. O regime, completava isolado, ocupava-se preparando grandes celebrações para o 40° aniversário da RDA, a ser realizado com grande alarde no dia 7 de outubro. Um ano depois, a República Democrática Alemã havia completamente desaparecido.

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