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Brasil-Mundo

Inspirada na obra de Guimarães Rosa, Bienal de Arte de Coimbra destaca artistas brasileiros

Áudio 03:27
Obra da artista brasileira Marilá Dardot no convento de Santa Clara, em Coimbra.
Obra da artista brasileira Marilá Dardot no convento de Santa Clara, em Coimbra. Caroline Ribeiro/RFI

A histórica cidade de Coimbra, na região central de Portugal, recebe a terceira Bienal de Arte Contemporânea Anozero. O programa desta edição tem como inspiração a obra do escritor brasileiro Guimarães Rosa.

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Caroline Ribeiro, de Coimbra, Portugal

Para o curador, Agnaldo Farias, a exuberância de Coimbra, que fica às margens do imponente rio Mondego, completa a ligação entre as palavras de Guimarães Rosa e o simbolismo da bienal. “É uma cidade notável pelo patrimônio, por uma arquitetura antiga, extraordinária. E aí veio-me à cabeça a ideia do conto de Guimarães Rosa 'A Outra Margem do Rio', onde a figura do pai constrói um barco, que é um espécie de parênteses, de caixão, e vai para o meio do rio e lá fica para nunca mais voltar. Isso pareceu-me muito instigante para estabelecer até uma analogia com o que acontece no campo da arte”, explica o curador à RFI.

Agnaldo Farias traz um outro toque brasileiro para a Bienal de Coimbra. Natural de Minas Gerais, o curador soma ao evento experiências anteriores na curadoria da Bienal de São Paulo. Na cidade portuguesa, apresenta uma mistura entre artistas do Brasil e de outras partes do mundo. “Nós trouxemos 39 artistas que representam algumas das diretrizes mais interessantes do nosso tempo”, diz Agnaldo.

Instalação do artista brasileiro Cadu, utilizando uma antiga cisterna do convento de Santa Clara, em Coimbra.
Instalação do artista brasileiro Cadu, utilizando uma antiga cisterna do convento de Santa Clara, em Coimbra. Caroline Ribeiro/RFI

Entre os nomes brasileiros, estão o pintor Daniel Senise, a escultora Laura Vinci, os artistas plásticos José Bechara, Érika Verzutti e Cadu, e a artista visual Marilá Dardot, cuja obra parte do conto de Guimarães Rosa para uma provocar questionamentos em quem lê. A artista colou perguntas e respostas em uma das paredes externas do convento de Santa Clara, prédio histórico que é o coração da Bienal.

“Reli esse conto através da ótica de um relato da estrutura patriarcal. Depois fui pesquisar o trabalho de algumas autoras portuguesas que foram censuradas durante a ditadura de Salazar. Encontrei um poema de Natália Correia, que foi uma das mais censuradas. Esse poema, que se chama ‘Ricochete’, é um poema todo com perguntas. Uma das perguntas que ela se faz é ‘que margem tem o rio para além de suas margens?’. Achei que encaixava muito bem, então o que está escrito na fachada é um diálogo entre o personagem de Guimarães Rosa e esse poema de Natália Correia”, conta a artista à RFI.

Obra "Entre", do artista português Tomás Cunha Ferreira.
Obra "Entre", do artista português Tomás Cunha Ferreira. Caroline Ribeiro/RFI

Espaços renascem com a Bienal

Os trabalhos podem ser vistos em dez espaços de Coimbra. Existem instalações dentro de museus, galerias de arte e prédios históricos. O emblemático convento de Santa Clara tem renascido, depois de alguns anos de abandono, com as montagens da Bienal. “É um edifício maneirista do século XVIII. É um dos maiores conventos de Portugal. Foi ocupado até 1910 pelas religiosas, as Clarissas, que saíram daqui e os militares vieram. Em 2006 saíram daqui, mas vão zelando na medida do possível pelo espaço. E propusemos que a Bienal fizesse deste edifício o seu quartel general”, explica Carlos Antunes, diretor do evento, à RFI.

O aspecto degradado de algumas áreas do convento traz um ar de mistério para o ambiente e torna as peças ainda mais curiosas. Alguns artistas, como a dupla portuguesa Caló e Queimadela, usam jogo de luzes e cores para aumentar o impacto visual na parte interna. Do lado de fora, as antigas garagens ganham vida, literalmente, e até um jardim brota em meio à destruição, com a intervenção Hortus Conclusos, do Atelier do Corvo.

Carlos Antunes, diretor da Bienal de Arte Contemporânea Anozero, na instalação "Hortus Conclusos", do Atelier do Corvo.
Carlos Antunes, diretor da Bienal de Arte Contemporânea Anozero, na instalação "Hortus Conclusos", do Atelier do Corvo. Caroline Ribeiro/RFI

“Em um lugar como esse não tem sentido você maquiar como se fosse um espaço museográfico. Estamos lidando com um prédio nas condições em que ele está. Foi um convento das Clarissas, que eram reclusas, então fala um pouco também desse silêncio, dessas mulheres que estavam lá enclausuradas, e acho que o estado do prédio entra também dentro dos trabalhos”, diz a artista Marilá Dardot.

A Bienal nasceu da vontade de valorizar ainda mais o patrimônio histórico da cidade, especialmente depois que a Universidade de Coimbra se tornou Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco. O objetivo, de acordo com o diretor, é fazer com que a população se envolva com as peças e fortaleça a cultura local. “A Bienal, na verdade, é um programa de ação para uma cidade. E é isso que pretende ser. Ser um programa que pode de fato ajudar, contribuir para que a cidade se fortaleça e que ganhe dimensão universal”, diz Carlos Antunes.

A Bienal de Arte Contemporânea Anozero fica aberta ao público até o dia 29 de dezembro. Toda a programação é gratuita.

Vista de Coimbra do alto do convento de Santa Clara.
Vista de Coimbra do alto do convento de Santa Clara. Caroline Ribeiro/RFI

*** A repórter Caroline Ribeiro viajou a Coimbra à convite da organização da Bienal de Arte Contemporânea Anozero

 

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