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Itália/ maré alta

Veneza “afunda” enquanto projeto de barragens atrasa por corrupção

Turistas posam para fotos na Praça São Marco, inundada neste sábado (16/11/2019)
Turistas posam para fotos na Praça São Marco, inundada neste sábado (16/11/2019) REUTERS/Manuel Silvestri

Veneza vive neste sábado (16) mais um dia de alerta meteorológico, em meio a um pico de maré alta que causa graves transtornos e já provocou uma morte na cidade italiana desde o início da semana. Enquanto mais uma inundação avança sobre a cidade, moradores se revoltam com os atrasos de um megaprojeto que deveria proteger Veneza das águas.

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Diversas autoridades pedem a conclusão o mais rápido possível do projeto de comportas MOSE. Este plano de engenharia, apresentado em 2003 mas adiado por escândalos de corrupção, consiste em 78 barragens que sobem e bloqueiam o acesso à lagoa em caso de maré alta de até três metros de altura.

O primeiro-ministro Giuseppe Conte afirmou que o projeto, que já custou mais de € 8 bilhões, está pronto "em 93% e será concluído na primavera de 2021". Além de desvio de dinheiro, erros técnicos e conflitos de interesses na realização das obras paralisaram o projeto.

“Não sei se este sistema vai funcionar um dia. Faz 20 anos que ele está em construção. Aliás, todo mundo sabe onde foi parar o dinheiro”, afirma a moradora Martina Zennaro, à RFI. “Nós estamos indignados com os dirigentes da região, com o governo italiano e com todos que autorizaram a construção dessa barragem flutuante.”

Tempo não deve melhorar

Os serviços de proteção civil italianos emitiram um "alerta vermelho" meteorológico para toda a região de Veneza e advertiram para o risco de fortes ventos nas próximas horas. Nesta quinta-feira (14), um novo pico de 1,54m levou as autoridades a decretar o estado de emergência.

Na sexta (15), o prefeito Luigi Brugnaro foi obrigado a fechar a emblemática praça de São Marcos durante várias horas, até a redução do nível da água. Museus como o Guggenheim cogitaram abrir as portas, mas mudaram de ideia quando observaram as previsões do tempo.

Ruas de Veneza sob as águas (15/11/2019).
Ruas de Veneza sob as águas (15/11/2019). REUTERS/Manuel Silvestri

O pior registro foi na terça-feira (12), quando a água atingiu 1,87m, a medida mais alta em 53 anos. Lojas, hotéis, museus e igrejas sofrem com o fenômeno. Mais de 50 igrejas já foram danificadas pela água. "Perdemos tudo que estava no porão", lamentou Luciano, funcionário de uma loja na praça de São Marcos.

Veneza recebe 36 milhões de turistas por ano, dos quais 90% são estrangeiros. Os hotéis já têm pedidos de cancelamento de reservas para as próximas semanas e o fim do ano, um dos períodos de maior frequentação na cidade. 

O ministro italiano da Cultura, Dario Franceschini, que visitou Veneza para observar os danos, afirmou que as obras de reconstrução serão consideráveis. O prefeito anunciou a abertura de uma conta bancária para doações, na Itália ou no exterior, que ajudarão nas obras de reconstrução. O governo já liberou € 20 milhões para as intervenções mais urgentes.

Impacto das mudanças climáticas em um contexto delicado

Muitos visitantes parecem não perceber o risco de afundamento na cidade, construída sobre 118 ilhas e ilhotas majoritariamente artificiais e sobre pilares. Em um século, a cidade afundou 30 centímetros no mar Adriático.

Para o ministro do Meio Ambiente, Sergio Costa, a fragilidade de Veneza aumentou em consequência do que ele chamou de "tropicalização" do clima, com chuvas intensas e rajadas de vento, vinculadas ao aquecimento global.

Os ecologistas apontam ainda a expansão do grande porto industrial de Marghera, perto da cidade, e às viagens de cruzeiros gigantes na região.

  Com informações da AFP

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