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Linha Direta: A cidade de Veneza tem nova maré alta; Pisa e Florença estão em alerta

Áudio 06:00
A cidade de Veneza tem nova maré alta; Pisa e Florença estão em alerta
A cidade de Veneza tem nova maré alta; Pisa e Florença estão em alerta REUTERS/Manuel Silvestri

As inundações em Veneza provocam grande preocupação na Itália e no mundo. O governo italiano já decretou estado de emergência na cidade, declarada pela Unesco como patrimônio da humanidade. Igrejas, lojas e residências foram fortemente afetadas pelas enchentes, de intensidade bem maior do que as que normalmente ocorrem. No entanto, crescem as polêmicas contra a política nacional e a administração local.

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Por Gina Marques, correspondente da RFI na Itália.

As previsões do tempo indicam mais alertas até a próxima quarta-feira com a possibilidade de a inundação atingir 1,10 metro. Mas a tendência do nível da água é diminuir. A partir de agora Veneza vai contar seus prejuízos. Ainda não foi possível fazer um cálculo preciso dos danos que as recentes inundações causaram ao patrimônio histórico e artístico da cidade.

Segundo o prefeito Luigi Brugnaro, as estimativas superam € 1 bilhão, mais de R$ 4,6 bilhões. O ministro da Cultura, Dario Fransceschini, afirmou que mais de 50 igrejas foram atingidas. A infraestrutura da cidade também foi danificada. O governo aprovou um financiamento de € 20 milhões, sendo que € 5.000 para cada família residente e € 20.000 para cada loja. O problema é que a água salobra pode comprometer seriamente as construções da antiga cidade.

O prestigioso Teatro La Fenice, considerado o templo da lírica em Veneza, teve que interromper sua temporada operística por causa das inundações. A água invadiu o subsolo onde encontram-se as caixas de eletricidade. Chamado como o pássaro fênix, que na mitologia grega quando morria entrava em autocombustão ressurgia das próprias cinzas, o teatro sofreu um incêndio doloso em 1996. A reconstrução demorou quase oito anos e manteve seu estilo clássico do século XIX. Só não se entende porque em Veneza, cidade com perenes riscos de enchentes, as caixas de eletricidade foram colocadas no subsolo.

O controverso projeto Mose

Diversas autoridades pedem a conclusão o mais rápido possível do projeto de comportas Mose, barragens que poderiam impedir a maré alta. O Mose – Moisés, em italiano, e acrônimo de Módulo Experimental Eletromecânico –, é uma faraônica obra de engenharia que está 93% pronta, mas nunca foi usada. O projeto foi apresentado 35 anos atrás e começou a ser construído em 2003 mas foi adiado por escândalos de corrupção.

O Mose consiste em 78 barragens que sobem e bloqueiam o acesso à laguna em caso de maré alta de até três metros de altura. O primeiro-ministro Giuseppe Conte afirmou que o projeto, que já custou mais de € 6 bilhões, será concluído até 2021.

Em 2014, o Consorzio Venezia Nuova, concessionária para a realização das obras, foi até comissionado pelo Estado, uma vez que vários de seus membros haviam recebido fundos ilícitos.

Desde então, diversos escândalos seguiram. Em 2018, houve outras investigações sobre lavagem de dinheiro internacional e atividade financeira ilegal, nas quais o ex-governador da região de Veneto, Giancarlo Galan que já havia cumprido uma sentença, estava novamente envolvido.

As investigações revelaram um esquema de corrupção que envolvia mais de 35 pessoas, entre empresários, administradores e políticos como o ex-ministro do Meio Ambiente Altero Matteoli, condenado a quatro anos de prisão.

Além de desvio de dinheiro, erros técnicos e conflitos de interesses na realização das obras paralisaram o projeto. Durante esta paralisação os portões metálicos do Mose começaram a enferrujar. Depois de alguns anos, eles puderam ser movidos novamente. Esta obra precisa de constante controle para conservação. Ainda não foi esclarecido como serão financiados os custos de manutenção, calculados entre € 20 milhões e € 100 milhões.

As polêmicas emergem das inundações

Os arqueólogos e cientistas acusam a política e a administração local pela negligência cometida nos últimos anos, por priorizar o lucro imediato e submeter a cidade ao risco de uma morte lenta e agonizante. Eles se baseiam em números. Por exemplo, nos últimos 1.200 anos a Basílica de São Marcos foi invadida pela água seis vezes, das quais três ocorreram em ritmo acelerado nos últimos 20 anos.

Veneza é construída sobre milhares de estacas de madeira fincadas em solo pantanoso que está afundando lentamente. Desde o século XX consta que afundou quase 30 centímetros.

A cidade é frágil e convive com ecossistema particular que depende das marés e é vulnerável a mudanças climáticas. O imenso fluxo de turistas agrava o equilíbrio. Veneza recebe 36 milhões de turistas por ano, dos quais 90% são estrangeiros.

Isso significa que aproximadamente 100 mil pessoas visitam diariamente a cidade, quase o dobro da população local. Estas pessoas entram em uma cadeia de consumo de alimentos, precisam de banheiros e outros serviços de infraestrutura que a cidade tem que suportar. Lembramos que em Veneza não circulam caminhões para fornecer a cidade ou recolher o lixo, tudo é transportado por barcos.

Outro fator importante é a circulação de navios gigantes na região. Nas últimas décadas foram cavados até 20 metros no subsolo da laguna para permitir a passagem de petroleiros e cruzeiros, sem levar em conta os efeitos que isso teria na dinâmica das marés.

Os venezianos e o turismo predatório

Salvatore Settis, arqueólogo e historiador do arte, autor do livro “Se Veneza morre” (Se Venezia Muore – editora Einaudi), critica o abandono da cidade pelos moradores.

“Em 1955 Veneza contava com 176 mil habitantes, hoje são apenas 51 mil. Uma cidade que perde habitantes é condenada a morte” disse Settis ao site italiano Lettera43.

Em Veneza existem centenas de apartamentos vazios, mas a maioria deles é alugado para turistas. Os moradores capitalizaram suas propriedades. Nos últimos 20 anos a quantidade de hotéis e hospedarias aumentou quase 300%.

De um lado, os venezianos se lamentam, do outro os comerciantes dão pulos de alegria. Os turistas geram entradas de mais de € 1,5 bilhões por ano, quase R$ 7 bilhões, mas provocam uma especulação imobiliária e hoteleira insustentável.

Muitos proprietários de apartamentos vivem de turismo e não precisam ter outro trabalho. Segundo estatísticas, o aluguel de um apartamento em Veneza que faz serviço de hospedagem hoteleira, rende ao proprietário cerca de € 10 mil por mês, aproximadamente de R$ 46 mil. Assim, Veneza se confronta com duas faces da mesma moeda: ou o proprietário escolhe o amor pela cidade ou seu apego pela própria conta bancária.

 

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