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Brasil-Mundo

Socióloga auxilia brasileiros em situação de vulnerabilidade na Itália

Áudio 05:21
Maria Izabel Mazini do Carmo é chamada para atuar como intérprete cultural
Maria Izabel Mazini do Carmo é chamada para atuar como intérprete cultural Rafael Belincanta

Hospitais, tribunais, penitenciárias. Esses são alguns dos lugares de trabalho para a paulista Maria Izabel Mazini do Carmo, carioca de adoção. Desde 2016 ela trabalha como mediadora cultural na Itália, onde colabora com a Comissão Territorial para o Reconhecimento da Proteção Internacional do Ministério do Interior italiano, mais conhecida como Comissão de Asilo Político.

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Sempre que o governo italiano encontra dificuldades para compreender cidadãos brasileiros em situação de vulnerabilidade, Maria Izabel é chamada para atuar como intérprete cultural.

Com mais de três anos de experiência na área, Maria Izabel já percorreu boa parte da Itália para ajudar brasileiros e brasileiras em apuros. Uma das últimas mediações foi feita no leito de um hospital em Roma.

Prostituição

“Era uma vítima de um atropelamento que estava com dificuldades em se comunicar, porque teve inclusive um dano cerebral e, mesmo vivendo na Itália há muito tempo, não falava bem nem português nem italiano. Isso acontece muito com brasileiros que vivem aqui há muitos anos, quase sempre numa situação de marginalidade, na qual acabam desenvolvendo uma língua híbrida. Às vezes, eu também tenho dificuldades em entendê-los”, revela Maria Izabel.

As autoridades queriam saber a dinâmica do acidente, uma vez que após atropelar o brasileiro em uma conhecida área de prostituição, o autor fugiu sem prestar socorro. “A mediação foi solicitada para saber não só como o paciente estava se sentindo física e psicologicamente, mas também para descobrir se o acidente havia sido doloso ou não”, conta.

Tráfico de drogas

Maria Izabel também atua em penitenciárias como a de Rebibbia, a maior da capital italiana, onde muitas brasileiras e brasileiros descontam penas por tráfico de drogas e outros crimes.

“O psicólogo solicitou a mediadora porque as meninas não falam italiano, se comunicavam muito mal. Ele queria entender como elas estavam psicologicamente e saber o que leva – além da situação de pobreza em si no Brasil – a aceitar vir à Itália carregando drogas dentro do próprio corpo”, explica a socióloga.

Dentre as histórias marcantes, Maria Izabel recorda uma em especial, a de uma brasileira vítima de violência de gênero que estava prestes a ser mandada de volta ao Brasil.

“A mediação aconteceu no centro de expulsão. Tempos depois, em um evento no consulado brasileiro, a encontrei entre o público. Corri e nos abraçamos e ela me disse: ‘muito obrigado, você me ajudou muito e meu êxito foi positivo’. Fiquei com vontade de chorar porque você vê que com seu trabalho, ainda que de forma limitada, é possível ajudar uma pessoa em situação de dificuldade”, afirma.

Fim da proteção humanitária na Itália

Uma das heranças de Matteo Salvini, líder da Liga, partido de extrema-direita que esteve no governo italiano até meados de agosto, é o decreto de segurança para “reduzir os índices de imigração à Itália”. Dentre as mudanças estabelecidas pela nova lei está o fim da concessão da proteção humanitária por parte do Estado italiano, à qual recorriam muitas brasileiras em situação de fragilidade, sobretudo transexuais.

Formada em História na Universidade Federal Fluminense (UFF), Maria Izabel está prestes a concluir um Mestrado em Sociologia. O foco do estudo é a imigração de transexuais brasileiras à Itália, tema que deverá ser aprofundado em um futuro doutorado. “É uma coisa muito escondida no Brasil. Os brasileiros deveriam ter mais sensibilidade para compreender o porquê dessa dificuldade em aceitar o que é diferente dele, acho que essa é uma reflexão que tem que ser feita no Brasil”, conclui Maria Izabel.

 

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