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6000 sardine/Itália

'6000 sardinhas': movimento 'antifascista' criado por 4 jovens desconhecidos na Itália ganha o mundo

"Eu não abdico": movimento antifascista dos "Sardinhas" chegou neste sábado a Paris, 14 de dezembro de 2019.
"Eu não abdico": movimento antifascista dos "Sardinhas" chegou neste sábado a Paris, 14 de dezembro de 2019. REUTERS/Eric Gaillard

"Caros populistas, vocês entenderam. A festa acabou". Assim começa o manifesto original criado por quatro jovens desconhecidos italianos, na faixa dos 30 anos, sem ligação com partidos políticos. O movimento criado por eles, o #6000sardine, se prolifera desde 15 de novembro em dezenas de praças de toda a Itália, com um público que soma centenas de milhares de pessoas contra a extrema direita de Matteo Salvini. Neste sábado (14), o movimento ganhou as ruas do planeta, com eventos em mais de 24 metrópoles e capitais estrangeiras, no Global Sardine Day.

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Eles são em sua maioria jovens, querem mudar o mundo, e parece que andam com o GPS bem sintonizado: neste sábado (14), os sardinhas, que se consideram "antifascistas", realizaram um feito digno de grandes lideranças: eles extrapolaram o solo italiano pela primeira vez desde que o movimento eclodiu, há exatamente um mês, "invadindo", com o Global Sardine Day, cerca de 24 metrópoles estrangeiras como Berlim, Paris, Londres, Dublin, Amsterdam, Madri, Copenhague, São Francisco e Nova York. Na última sexta-feira (13), durante um show na Itália, até a icônica roqueira Patti Smith convocou os italianos a participarem dos protestos deste sábado

Dezenas de milhares de pessoas do novo movimento anti-Salvini e anti-populista invadiram uma das maiores praças de Roma neste sábado, em frente à Basílica de São João, para protestar. Desde sua criação, o movimento organizou dezenas de eventos, reunindo um total de 300.000 pessoas em Milão, Florença, Nápoles, Veneza e Palermo.

Nas praças públicas, o canto é sempre o mesmo, da tradicional Praça São Marco, em Veneza, à prefeitura de Copenhague, capital da Dinamarca, onde, sim, os sardinhas estiveram neste sábado: canta-se num coro de milhares de vozes Bella Ciao, música emblemática da Resistência Italiana contra o fascismo na década de 1940, que, revisitada, virou símbolo planetário de resistência e justiça social em 2019, presente em manifestações populares de Beirute a Buenos Aires.

Tudo começou com uma chamada nas redes sociais, cujo resultado não surpreendeu apenas Mattia Santori, Roberto Morotti, Giulia Trappoloni e Andrea Garreffa, os quatro jovens idealizadores do movimento #6000sardine (6000 sardinhas, em português), mas todo o mundo. Mais de 15.000 pessoas ocuparam uma praça de Bolonha, ali no alto da "bota" italiana, como reação ao líder da extrema-direita, Matteo Salvini, que fazia um pronunciamento em um estádio da cidade. Trata-se de um verdadeiro fenômeno que, com o nome de um peixe pequeno, que se movimenta em grupos apertados, a sardinha, que se espalhou por todo o país e parece encarar sem medo um dos "tubarões" da política italiana.

O "Quarteto Fantástico", como são conhecidos os jovens criadores do #6000sardine: Mattia Santori, Roberto Morotti, Giulia Trappoloni e Andrea Garreffa. Na foto, durante a primeira noite, em Bolonha, em 15 de novembro de 2019.
O "Quarteto Fantástico", como são conhecidos os jovens criadores do #6000sardine: Mattia Santori, Roberto Morotti, Giulia Trappoloni e Andrea Garreffa. Na foto, durante a primeira noite, em Bolonha, em 15 de novembro de 2019. Reprodução Facebook

"Quarteto Fantástico"

Giulia vem de San Sepolcro, vive em Bolonha há alguns anos, é fisioterapeuta e faz 30 anos em fevereiro de 2020, além de ser a caçula dos "quatro mosqueteiros". Roberto é engenheiro, e em seu tempo livre realiza oficinas criativas sobre reciclagem de plásticos. Andrea, que chegou de Savona aos seis anos de idade, é mestre em ciências da comunicação pública e social. Tendo defendido uma tese em comunicação ambiental, agora ele é guia turístico de ciclistas em toda a Europa.

São "jovens de olho nos outros e no mundo", saúda com alegria a imprensa italiana. Mattia, formado em Ciência Política e Economia, educador no Ultimate Frisbee, criou a associação "La ricotta": todos os anos ele organiza o torneio de basquete "Gallo da tre" para financiar a reconstrução de playgrounds suburbanos em memória do amigo Davide Galletti, que morreu de leucemia.

Aos 32 anos, Santori se divide entre quatro empregos e agora frequenta também diversos programas de televisão na Itália, como convidado especial. Numa dessas aparições, ele deu ao vivo um recado para Matteo Salvini, líder da extrema direita no país: "Esta é a Itália real, é por isso que as pessoas se emocionam", disse.

“Corremos um risco, acreditando que os sardinhas sejam a solução para todos os males. Mas os saridnhas não existem, são apenas pessoas que enchem os lugares com suas ideias e designam um inimigo, que é o pensamento simplista do populismo", declarou Mattia Santori para a multidão neste sábado em Roma.

Os sardinhas durante manifestação do Global Sardine Day em Roma, na Itália, em 14 de dezembro de 2019.
Os sardinhas durante manifestação do Global Sardine Day em Roma, na Itália, em 14 de dezembro de 2019. REUTERS/Yara Nardi

Ideia nasceu de um post no Facebook

Como nasceu a invasão das praças inventada pelos "sardinhas"? Via Facebook. Mattia não conseguia dormir naquela noite: "Por que [Matteo] Salvini pode dizer que ele vai tomar [o estado de] Emilia Romagna [cuja capital é Bolonha] e todos nós ficamos em silêncio?"

Foi com uma mensagem para os amigos que tudo começou: "vamos nos encontrar". Na cozinha da casa que os quatro compartilharam durante anos, nasceu a idéia: "Salvini chega ao [estádio de] PalaDozza: há 5.570 lugares. Precisamos ser mais gente do que isso". Daí para a multidão instantânea dos #6000sardine na praça deMaggiore, na Bolonha, bastou uma convocação nas redes sociais, que vem respaldada por um manifesto, escrito pelos amigos: "Ainda acreditamos na política e nos políticos com um P maiúsculo", diz uma de suas frases.

Naquela noite, em Bolonha, eles escolheram o símbolo do movimento: a sardinha, um peixe silencioso, que não "grita como os escandalosos das redes sociais e dos comícios", mas que traz um símbolo de coletividade. "Juntos e muitos: aqui está a mensagem".

Depois do lançamento nas redes sociais, os quatro amigos começaram a distribuir panfletos do evento em bares, universidades, cafés,  restaurantes e comércios do centro de Bolonha. Foram depois de porta em porta, deram telefonemas, registra em detalhes a imprensa italiana

Métodos analógicos, que deram resultados concretos: eles esperavam seis mil pessoas na praça, e tinham medo de não conseguirem. Naquela noite, na Praça Maggiore, eles trouxeram o dobro, e bateram Matteo Salvini. "Bem-vindos ao mar aberto", diz a frase no post do facebook que criou os #6000sardine .

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