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Suécia/ Bolsonaro

Festival na Suécia ataca Bolsonaro: “inimigo número 1 do cinema”

Capa da programação brasileira do festival de Gotemburgo traz uma foto de Bolsonaro com a frase: "Inimigo Número Um do Cinema”.
Capa da programação brasileira do festival de Gotemburgo traz uma foto de Bolsonaro com a frase: "Inimigo Número Um do Cinema”. Divulgação/Festival de Cinema de Gotemburgo

Pela primeira vez na história do Festival de Cinema de Gotemburgo, a 43ª edição da mostra sueca, inaugurada nesta sexta-feira (24), dará um destaque especial ao Brasil. “Há uma guerra cultural em curso no Brasil, com (o presidente) Jair Bolsonaro como protagonista e a indústria cinematográfica brasileira como a arena principal. O foco do Festival de Gotemburgo no cinema brasileiro é um ato de solidariedade aos cineastas brasileiros, e também um tributo a uma das mais fascinantes culturas cinematográficas”, dizem os organizadores do festival - que é a maior mostra de cinema da região nórdica.

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Claudia Wallin, correspondente da RFI na Suécia

A capa da programação brasileira do festival traz uma foto do presidente Jair Bolsonaro com o título “Filmens Fiende Nummer Ett” (“Inimigo Número Um do Cinema”).

“O intuito do festival é demonstrar solidariedade à indústria cinematográfica do Brasil, e ao mesmo tempo oferecer ao público escandinavo a oportunidade de conhecer ‘Brasis’ que muitas vezes não chegam às telas aqui na Escandinávia”, disse à RFI a brasileira Clarice Goulart, que integra a curadoria do festival.

“A indústria cinematográfica brasileira nunca esteve tão bem, produtiva, sólida, e isso devido às políticas públicas dos últimos anos. Infelizmente, na atual situação, estamos vivenciando a possibilidade de um desmonte total da cultura, e especialmente do cinema brasileiro, devido às políticas do atual governo. Isto é muito grave, e o festival foi muito corajoso ao decidir demonstrar essa solidariedade ao cinema brasileiro, aos diretores e a todos os trabalhadores da indústria cinematográfica do Brasil”, acrescentou a curadora brasileira.

Risco de destruição

Na mensagem oficial do evento, o diretor artístico do festival alerta para o risco da destruição do cinema brasileiro:

“Talvez o cinema brasileiro nunca tenha sido melhor do que é agora. Ainda assim, ele corre o risco de ser destruído. Esta contradição é o ponto de partida para o foco do Festival de Cinema de Gotemburgo no cinema brasileiro, tanto como uma homenagem à arte cinematográfica brasileira e também como uma manifestação de solidariedade aos cineastas do Brasil, que atualmente enfrentam uma enorme pressão política”, diz Jonas Holmberg no site oficial do evento.

“Em janeiro [de 2019], Jair Bolsonaro tomou posse como presidente do Brasil. O ex-militar de direita vê os cineastas brasileiros como inimigos armados com câmeras, e tem deixado muito claro que quer mudar radicalmente o cinema brasileiro. Ou mudá-lo, ou destruí-lo”, afirma Holmberg, diretor artístico do evento e também crítico de cinema.

O texto de Jonas Holmberg destaca um discurso feito por Bolsonaro em julho passado, que “caiu como uma bomba no mundo do cinema”:

“Ele (Bolsonaro) afirmou que o Estado não mais financiaria ‘pornografia’, e que os cineastas brasileiros deveriam passar a ‘defender os valores da família’ e ‘prestar homenagem aos heróis brasileiros’. Ele anunciou que a sede do instituto do filme brasileiro, a Ancine, seria transferida do Rio de Janeiro para Brasília, mais perto do controle político. E, a menos que a Ancine concorde em introduzir ‘filtros’, a instituição será completamente fechada”, escreve o diretor sueco, para acrescentar que ‘as exigências sobre filtros e a retórica irracional’ fizeram com que grande parte da indústria cinematográfica tenha ficado aterrorizada, paranoica e incapaz de elaborar planos de longo prazo’.

Jonas Holmberg, diretor artístico do festival, alerta para o risco da destruição do cinema brasileiro.
Jonas Holmberg, diretor artístico do festival, alerta para o risco da destruição do cinema brasileiro. Divulgação/Festival de Cinema de Gotemburgo

Boom do cinema brasileiro

O diretor artístico do festival destaca ainda que ‘os ataques de Bolsonaro à liberdade da arte cinematográfica’ acontecem em meio a um ‘boom’ do cinema brasileiro. Desde o cinema novo dos anos 60, diz Holmberg, o cinema brasileiro nunca teve tanto êxito como agora. Nos últimos anos, diversos filmes brasileiros têm sido premiados em festivais internacionais de cinema.

“As bases da nova época de ouro do cinema brasileiro foram criadas no início dos anos 2000. Foi a época em que a Ancine foi criada e em que o presidente do Partido dos Trabalhadores, Lula da Silva, e seu ministro da Cultura, Gilberto Gil, formularam uma estratégia para a política cultural. Entre outras iniciativas, a introdução de taxas para os canais de televisão e a telefonia móvel possibilitaram o financiamento de um significativo apoio ao cinema e à regionalização das políticas para a indústria cinematográfica, o que permitiu a criação de filmes fora do eixo cultural Rio-São Paulo”, diz Holmberg.

O resultado dessas políticas, prossegue o diretor sueco, foi uma explosão na produção de filmes - em 1992, três filmes foram produzidos no Brasil; em 2019, o número passou para mais de 300 filmes. Novos grupos tiveram a oportunidade de fazer filmes, e com temáticas que retratam minorias sociais, étnicas e sexuais.

“Bolsonaro vai representar o fim de tudo isso?”, pergunta-se Holmberg.

“Talvez - se o “Trump dos Trópicos” tiver a energia e a habilidade de realmente cumprir o que prometeu. Então, falências, fuga de talentos e uma avalanche de de filmes de cunho evangélico provavelmente vão se tornar realidade”, diz o diretor artístico do festival.

“Mas Bolsonaro promete mais do que pode cumprir. Até agora, tudo é muito incerto, embora a autocensura seja sempre a primeira a se difundir. A maioria dos filmes que mostraremos agora foi financiada e gravada antes da ascensão do presidente ao poder, e estes são filmes que fornecem uma imagem crítica e multifacetada da nação brasileira, de seus sonhos, da repressão e dos movimentos de resistência”, conclui Holmberg.

Programação inclui filmes sobre minorias sociais

O Festival de Cinema de Gotemburgo vai exibir 18 filmes brasileiros lançados no ano passado. Entre os principais filmes da mostra estão “Bacurau”, dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, e “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão”, do diretor Karim Aïnouz, baseado na obra homônima da escritora pernambucana Martha Batalha. Os dois filmes foram premiados na última edição do Festival de Cannes, e os diretores Karim Aïnouz e Juliano Dornelles estarão presentes na mostra brasileira do festival.

“A mostra brasileira terá ainda diversos filmes e documentários que abordam temáticas como a vida de adolescentes na periferia do Rio de Janeiro, a questão indígena na Amazônia e temas relacionados às minorias LGBT, às mulheres e ao drama das pessoas viciadas em crack no centro de São Paulo”, diz Clarice Goulart. 

A programação inclui o documentário "Rainha da Lapa”, sobre a história de vida da transexual e ativista Luana Muniz, que também marcará presença no Festival de Gotemburgo. O filme, realizado pelo diretor e produtor americano Theodore Collatos e pela diretora e produtora Carolina Monnerat, foi premiado no Newfest, festival de cinema em Nova York. 

A mostra brasileira terá ainda “Espero tua (re)volta”, documentário que registra as manifestações dos estudantes secundaristas de São Paulo entre 2015 e 2018, e a brutal repressão da Polícia Militar. Dirigido por Eliza Capai, o filme recebeu no Festival de Cinema de Berlim (Berlinale) do ano passado a premiação do júri da Anistia Internacional (AI) e o Prêmio da Paz, concedido pela Fundação Heinrich Böll como “expoente do cinema comprometido com a coragem cívica”. 

Outro destaque da mostra será “A Febre”, longa da diretora carioca Maya Da-Rin e estrelado pelo indígena Regis Myrupu, que foi premiado nos festivais de Locarno e Biarritz e que foi o grande vencedor do 52º Festival de Brasília no final de 2019.

“Esperamos que o destaque para o Brasil nesta edição do Festival de Gotemburgo abra novas portas para o cinema brasileiro. É também uma forma de denunciar a atual política cultural do governo brasileiro, que é muito grave e que preocupa a indústria cinematográfica do Brasil”, destaca Clarice Goulart. 

A brasileira Clarice Goulart, que integra a curadoria do festival de Gotemburgo.
A brasileira Clarice Goulart, que integra a curadoria do festival de Gotemburgo. KATXERÊ MEDINA

Regina Duarte

Sobre a indicação de Regina Duarte para a secretaria de Cultura, a curadora brasileira diz ter dúvidas de que a possível nomeação da atriz para o cargo possa representar uma mudança positiva nas políticas para o setor.

“Não quero ser negativa nem pessimista, mas tenho muita dificuldade de acreditar que a indicação de Regina Duarte como nova secretária de Cultura desse governo vá dar certo”, disse Clarice Goulart. 

“Regina é obviamente uma excelente atriz, que tanto fez pelo Brasil, tanto na televisão como no cinema. No entanto, desconfio que ela não tenha nem capacidade técnica nem experiência para poder exercer esse tipo de cargo. Acho especialmente problemático que ela tenha se colocado à disposição deste governo, e dito que está passando por um tipo de ‘noivado’ com Bolsonaro. Estar ao lado deste governo, de certa forma, faz com que você compartilhe de tudo aquilo que ele representa. Então, não dá para dar muita credibilidade a uma pessoa que se coloca à disposição disso”, acrescentou a curadora. 

Com mais de 400 filmes de 80 países, o Festival de Cinema de Gotemburgo vai até o dia 3 de fevereiro. 

Em sua 43ª edição, Festival de Cinema de Gotemburgo acontece de 24 de janeiro a 3 de fevereiro de 2020.
Em sua 43ª edição, Festival de Cinema de Gotemburgo acontece de 24 de janeiro a 3 de fevereiro de 2020. Divulgação/Festival de Cinema de Gotemburgo

 

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