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Brasil-Mundo

“Morro da Favela”: romance gráfico de André Diniz ganha exposição em Lisboa

Áudio 04:42
O fotógrafo Maurício Hora (esquerda) e o ilustrador André Diniz.
O fotógrafo Maurício Hora (esquerda) e o ilustrador André Diniz. Foto: Luciana Quaresma

“Morro da Favela” é um dos trabalhos mais expressivos do argumentista e ilustrador carioca André Diniz. O romance gráfico conta a história de Maurício Hora, o fotógrafo que nasceu e cresceu no Morro da Providência, no Rio de Janeiro. A comunidade, que começou a se formar em 1897, é considerada a primeira favela do Brasil.

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Da correspondente da RFI em Lisboa

Para André Diniz, contar a vida do fotógrafo Maurício Hora em quadrinhos foi e tem sido uma grande experiência:

“Foi um desafio novo. Em um primeiro momento fiquei até travado, justamente pela responsabilidade que era colocar expressões e palavras de pessoas que viveram e que vivem no local, é algo delicado principalmente por serem histórias de vida complicadas. Foi um desafio enorme. Eu nunca tinha feito nada parecido e até passei a usar software para escrever o roteiro, organizar as cenas, pois a minha ideia era mesmo contar uma história com começo, meio e fim."

Diniz fez questão de fugir da ficção e ser fiel à biografia de Hora como ponto de partida para a obra:

“Desde o começo, eu não queria ir nesta corrente da ficção que busca a favela como um pretexto para mostrar cenas de violência, de tiroteio, para fazer um 'western' brasileiro. Eu queria justamente ir contra isso. Comecei a ficar interessado pela figura humana do Maurício, pela história de vida, pelo trabalho dele com a fotografia, transformando a favela em arte.”

As fotografias de Hora também ilustram as páginas do quadrinho e algumas delas estão na exposição. Um olhar orgânico de um morador do Morro que, através da fotografia, buscou a sua identidade e mostrou ao mundo a realidade da favela.

Fotografia de Maurício Hora na exposição "Morro da Favela", em cartaz em Lisboa.
Fotografia de Maurício Hora na exposição "Morro da Favela", em cartaz em Lisboa. Foto: Luciana Qauresma/RFI/Maurício Hora

Hora explica que esta foi a ferramenta que encontrou para conseguir ser ouvido:

“A minha fotografia não tem muito a ver com a história do livro. Ela fala sobre a favela, ela mostra a favela mas ela é uma ferramenta de transformação. Tem a ver com o livro porque sou eu, claro, mas ela é uma fotografia de alguém que precisava gritar, só isso! Ela quer revelar, ela quer transformar. A minha fotografia não é tão agressiva, mas é muito real. A ideia é não chocar muito, não ser tão dramática, mas mostrar a realidade. Também tem coisas muito bonitas, como a paisagem da favela. Antes, ninguém via essa paisagem”.

A exposição promovida pela Embaixada do Brasil em Lisboa faz parte do programa Brasil em Quadrinhos, realizado em parceria com a Bienal de Quadrinhos de Curitiba.

Luciana Falcon, que realizou o projeto, teve como inspiração o cenário da história trazendo um pouco da favela carioca para Lisboa:

"Adaptar uma obra como a do André Diniz junto com as fotografias do Maurício Hora, que expõem juntos pela primeira vez e nessa casa espectacular, é um puro deleite. A gente tentou adaptar e reproduzir – dentro das possibilidades de cronograma e financeiras – um pouco dos elementos que remetem à obra: desde a cor, que tem a ver com a que foi escolhida para a capa do quadrinho, até elementos da favela, como o tijolo, o andaime, e reproduzir em tamanho muito ampliado os detalhes do André Diniz.”

Segundo o ilustrador, é muito gratificante poder levar a Portugal a realidade difícil da favela e a poesia do brasileiro, no contexto de uma troca cultural que é cada vez mais forte.

Marco no quadrinho brasileiro

Para Igor Trabuco, do Setor Cultural da Embaixada do Brasil em Lisboa, esta exposição ainda é mais especial pelo fato de ser inédita:

“Nunca foi feita uma exposição das fotos com os quadrinhos. A junção das duas linguagens, que neste projeto se fundem em uma única narrativa, cria uma curiosidade extra. O olhar de delicadeza do André soube traduzir em desenhos uma realidade complexa, que comporta muitas camadas sociais, gerando uma reflexão. Ele conseguiu trazer isso com um traço de leveza. É, sem dúvida, uma obra-prima, um marco no quadrinho brasileiro como um todo.”

Para Carlos Alberto Simas Magalhães, embaixador do Brasil em Lisboa, a produção de quadrinhos no Brasil vive um momento de grande dinamismo e a obra emblemática de Diniz traz um novo olhar:

”A exposição convida o visitante para uma reflexão acerca da temática urbana, desenvolvida com grande sensibilidade numa e noutra forma de expressão, mas principalmente sobre a intertextualidade que orientou a concepção do projeto”, destaca o embaixador.

A nova edição de “Morro da Favela” tem doze páginas a mais do que a versão anterior e, segundo a dupla, continua em transformação.

"As páginas vão sendo adicionadas por coisas novas que aconteceram na minha vida e da própria cidade do Rio, como a Fundação da Casa Amarela, por exemplo, a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, que mudaram a cara da cidade e principalmente na área do Morro”, explica Hora.

“É um processo que está em constante transformação e isso se reflete no livro. Vou acrescentando aquilo que considero que enriquece essa narrativa, do ponto de vista de conteúdo e relevância para o leitor, mas sempre tentando traduzir os acontecimentos da vida do Maurício”, destaca Diniz.

A exposição fica na Casa Pau-Brasil, no bairro Príncipe Real, em Lisboa, até 31 de março próximo. A entrada é livre.

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