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Pedofilia: "Papa sabe que tem responsabilidade em relação a vítimas argentinas"

Agustina Mercau, 26 anos, que acusou o padre italiano Nicola Corradi e outros dois sacerdotes de abuso sexual enquanto frequentou o Instituto Provolo de Mendoza.
Agustina Mercau, 26 anos, que acusou o padre italiano Nicola Corradi e outros dois sacerdotes de abuso sexual enquanto frequentou o Instituto Provolo de Mendoza. Andres Larrovere / AFP

Três surdos que foram vítimas de abusos sexuais durante a infância em instituições católicas na Argentina lançaram um grito de dor e revolta nesta quinta-feira (20) na praça São Pedro, no Vaticano. Eles pediram uma audiência com o papa Francisco para exigir reparação da Igreja, mas não foram recebidos pelo pontífice argentino. O advogado Lucas Lecour, que acompanha uma das vítimas, manifestou sua decepção com o papa argentino, em entrevista à redação em espanhol da RFI.

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"O papa Francisco sabe que tem responsabilidade em relação às vítimas argentinas. Em 2014, ele recebeu informações sobre os abusos cometidos pelo padre Nicola Corradi no Instituto Provolo [especializado no atendimento de surdos-mudos] de Verona [Itália], antes dele ser transferido para a Argentina, inicialmente para La Plata e, depois, para Mendoza. Mas o papa não tomou nenhuma medida naquele momento", relata o advogado. "Francisco só pediu para investigarem o que estava acontecendo em Mendoza em 2016, quando também vieram à tona casos de abuso sexual no Provolo da Argentina", conta Lecour.

Em novembro passado, dois padres foram condenados a mais de 40 anos de prisão por estuprar essas crianças durante anos no instituto religioso mantido pelo Vaticano em Mendoza. Nicola Corradi, pároco italiano que mora na Argentina desde 1970, foi condenado a 42 anos de prisão e o argentino Horacio Corbacho a 45 anos.

Segundo a organização não governamental ECA ("Alto a los abusos del clero"), o padre Corradi havia sido denunciado no Vaticano por vítimas surdas-mudas italianas do Instituto de Verona antes de sua transferência para a Argentina.

"Em 2016, Francisco pediu aos vigários para se apresentarem à Justiça, mas eles não colaboraram na investigação argentina. Precisamos da lista de todos os estudantes que passaram pelo Provolo; falta identificar 199 pessoas. Sabemos que havia outros padres no instituto na mesma época, mas não sabemos quem são. Temos apenas dois padres condenados. Queremos que a Santa Sé entregue as provas de que dispõe, que diga quem são os sacerdotes que estavam no Provolo e os nomes dos surdos que frequentavam o instituto, para podermos verificar se foram vítimas de assédio sexual. A Igreja deve reparar essas vítimas. Elas vivem dificuldades extremas, precisam ser indenizadas para fazer tratamento psicológico", argumentou o advogado.

O grupo de surdos esteve no início da semana em Genebra, onde denunciaram seus agressores no Comitê contra a Tortura, das Nações Unidas, e no Comitê do Direito da Infância. "No mundo, há muitos países onde estas coisas continuam acontecendo e ainda reina o silêncio", lamentou Daniel Sgardelis, de 45 anos, falando em libras durante sua visita à sede europeia da ONU.

"Papa tem poder para agir"

Nesta quinta-feira, enquanto aguardava para ser recebido pelo papa – um encontro que não houve – Sgardelis voltou a se manifestar. "Sofremos muito. Precisamos de uma lei que force o Vaticano a parar de encobrir esses casos. Nós sofremos abusos de padres e precisamos que isso mude", disse a vítima.

"Por que viemos a Roma? Para acabar com os abusos em todos os lugares", disse Ezequiel Villalonga, 19 anos, o caçula, que carregava um pôster com o retrato de seu agressor.

As vítimas ficam em Roma até dia 22 de fevereiro. Apesar de terem solicitado audiência com o chefe da Igreja, o grupo não teve resposta pública ou privada, o que causou indignação e decepção.

"Estamos muito decepcionados", reconheceu Erica Labeguerie, que narrou com a voz embargada a trajetória de sua família para entender o drama ocorrido com sua irmã de 26 anos, que foi violentada no período em que frequentou uma das unidades da Igreja na Argentina. "Essa luta é para que outros quebrem o silêncio, para impedir que as provas sejam ocultadas", insistiu Labeguerie. "O papa tem o poder de agir para evitar que isso se reproduza. Não estamos falando do passado, mas do presente que muitos ainda enfrentam", afirmou a jovem.

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