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“Médicos agem como no front de guerra”, conta prefeito de Bérgamo, novo epicentro da pandemia

O prefeito de Bérgamo Giorgio Gori organizou uma coletiva de imprensa via Facebook
O prefeito de Bérgamo Giorgio Gori organizou uma coletiva de imprensa via Facebook © Captura de vídeo

O prefeito de Bérgamo, Giorgio Gori, em entrevista coletiva nesta terça-feira (24), falou da emergência que vive a sua província na região italiana da Lombardia, epicentro da pandemia do coronavírus. A coletiva foi transmitida via facebook ao grupo de jornalistas estrangeiros da Associazione della Stampa Estera.

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Correspondente da RFI na Itália

Segundo o prefeito, a rapidez do contágio deixou as estruturas da região em situação de colapso. Dos 600 médicos de base – clínicos gerais chamados na Itália de médicos de família – que atendiam na província, 140 foram contaminados.

“O sistema hospitalar é forte, mas não é suficiente. Temos que atender muitos doentes em casa. Os nossos médicos de base agiram como se estivessem em front de guerra. Agora estão sendo construídas estruturas hospitalares em feiras, tendas e outros espaços que certamente vão aliviar a situação” explicou Gori.

A província bergamasca conta com 243 cidades que formam uma população de cerca de 1.115 milhão de habitantes. Bérgamo é a cidade principal, com aproximadamente 120 mil moradores.

De acordo com os dados fornecidos pela Defesa Civil nesta terça-feira (24), desde o começo da epidemia no fim de fevereiro, a Itália registrou 6.820 mortos, dos quais 4.178 na Lombardia. 

Dos 54.030 casos atualmente positivos no país, 30.703 estão na Lombardia. Nesta região do norte, a província de Bérgamo tem o maior número de contaminados: 6728.

Faltam caixões

Não há mais lugares nos necrotérios. Na semana passada as imagens de caminhões militares que levavam os caixões aos crematórios comoveram o mundo. Hoje faltam caixões.

O funcionário de uma funerária da província contou ao jornal “Eco di Bergamo” que está trabalhando “de 12 a 14 horas por dia, sem parar nem mesmo para comer”.

“Não é fácil encontrar caixões. Nos últimos dias, encomendamos uma quantidade, mas a empresa veneziana não conseguiu entregá-los. Então fomos buscá-los com uma van. Dos 60 caixões pedidos, nos deram apenas 30. Estamos em colapso”, disse o funcionário.

Não é permitido o translado dos corpos para outros países, como explicou o prefeito de Bérgamo. “A cremação é uma prática recomendada pelo médico legista, mas não é obrigatória. Deixamos que as famílias decidam se elas preferem enterrar ou cremar seus entes queridos. Permitimos que um número limitado de dez pessoas (10) participem do momento da cremação ou do enterro. Mas elas nunca podem se aproximar, porque devem respeitar a distância de segurança e de proteção. Nas próximas horas, enviaremos uma carta a todos os cidadãos de Bérgamo que perderam um parente querido, explicando onde ele será cremado e garantindo todo respeito e cuidados possíveis” detalhou Gori.

Ele ressaltou o trabalho das pessoas que levam alimentos nas casas dos mais velhos. “Os voluntários deixam os alimentos na porta da casa dos idosos, sem contato direto com eles. De um lado vivemos uma situação horrível, mas por outro lado esta tragédia despertou união e solidariedade entre as pessoas”, contou.

Várias causas da disseminação

O prefeito explicou também que a rápida disseminação do coronavírus na sua província ocorreu por vários fatores.

“No começo não se imaginava que os primeiros pacientes estivessem contaminados com o coronavírus. Considere também que estamos numa região industrial, com grande densidade demográfica, concentração urbana, intensa circulação de pessoas e mercadorias” disse.

Giorgio Gori ressaltou também que a partida do Atalanta – clube de futebol de Bérgamo – contra o adversário espanhol Valencia pode ter sido um detonador do vírus na Itália a na Espanha. Em 19 de fevereiro, o jogo da Champions League contou com a presença de cerca de 45 mil torcedores que lotaram o estádio de San Siro em Milão.

Prefeito traz de volta as filhas da Grã-Bretanha

Giorgio Gori completa 60 anos nesta terça-feira. Ele disse que não há motivos para comemorar e permanecerá com a família. Suas duas filhas, Benedetta e Angelica, retornaram há dois dias da Inglaterra onde estudam em Canterbury e Taunton, respectivamente.

“Quando o governo britânico explicou como estava pensando em lidar com a emergência ligada ao Covid-19, pensei que seria mais seguro aqui em Bérgamo, no centro da epidemia, do que na Inglaterra ", disse o prefeito, que criticou as hesitações na linha seguida pela equipe do premiê Boris Johnson. “Não entendo porque o governo britânico demorou tanto tempo para decidir proteger seus cidadãos", acrescentou Gori.

“Na Itália há menor contaminação africanos”

Ao ser interpelado sobre a contaminação entre imigrantes, Gori afirmou que nos centros de acolhimentos da sua província, que hospedam prioritariamente imigrantes de origem africana, a incidência do coronavírus é mínima. 

No entanto, ele pediu cautela com esta informação e esclareceu que ainda não existem estatísticas precisas. “Os infectologistas estão estudando a baixa incidência de contágio entre pessoas de etnia negra na Itália. Eu não sou especialista e não posso fornecer dados científicos”.

Paralelamente, o infeciologista Massimo Galli do hospital Sacco de Milão confirmou que especialistas italianos estão estudando a baixa contaminação entre negros na Itália. “Temos que ser muito cautelosos com esta notícia. No momento, não temos pessoas de origem africana hospitalizadas em nossas enfermarias. Isso poderia indicar que a 'porta de entrada' do vírus é diferente de acordo com a etnia. Por exemplo, para asiáticos e europeus existe uma 'porta aberta' ao vírus. A suposição é que os africanos poderiam ter essas 'portas' fechadas e meio fechadas”, disse o infeciologista à televisão pública italiana Rai3.

Galli ressaltou que essa é apenas uma hipótese, mas "se assim fosse, o desastre afetaria menos algumas áreas pobres do mundo".

Vários países da África já apresentaram diversos casos de contaminação do coronavírus. Na Itália, os dados fornecidos diariamente pela Defesa Civil sobre o número de mortos, contaminados e curados em todas as regiões do país não especificam a etnia dos pacientes.

Dados oficiais sobre a contaminação do coronavírus na Itália em 24 de março (fonte: Defesa Civil)

54.030 atualmente positivos (+ 3.612 em relação ao dia anterior)

25.333 pessoas no hospital

28.697 pessoas isoladas em casa

8.326 pessoas curadas (+894 em relação ao dia anterior)

6.820 mortos (+743 em relação a dia anterior)

63.927 casos totais até agora (+ 4.789)

 

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