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Covid-19: países europeus mudam discurso e consideram obrigatoriedade de máscaras à população

Um homem com máscara passa diante um cartaz com a mensagem: "Salve vidas, fique em casa", na cidade de Fontenay-sous-Bois, no leste de Paris, . 01/04/ 2020.
Um homem com máscara passa diante um cartaz com a mensagem: "Salve vidas, fique em casa", na cidade de Fontenay-sous-Bois, no leste de Paris, . 01/04/ 2020. REUTERS/ - CHARLES PLATIAU

A mudança de estratégia foi rápida. Há algumas semanas, a utilização de máscaras pela população era vista como desnecessária pela maioria dos governos europeus. Nos últimos dias, o acessório vem sendo considerado tão essencial para a proteção contra o coronavírus que alguns países já o tornaram obrigatório.

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Na França, desde o início da epidemia, o governo se mostrou cético quanto à generalização do uso de máscaras, utilizando o mesmo discurso da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre a necessidade de reservar o material de proteção contra a Covid-19 para os profissionais do setor médico. No entanto, até mesmo as recomendações da OMS mudaram nos últimos dias: na última sexta-feira (3), a organização afirmou que "o uso de máscaras para cobrir as vias respiratórias e a boca para impedir que a tosse ou o espirro espalhe o vírus não é uma má ideia".

No mesmo dia, a Academia Francesa de Medicina afirmou que o uso generalizado de máscaras pela população "constituiria um aumento lógico às medidas atualmente em vigor", aconselhando que o método "seja tornado obrigatório para as saídas necessárias neste período de confinamento". A recomendação foi reiterada pelo diretor-geral da Saúde da França, Jérôme Salomon, que declarou que os cidadãos podem usar "máscaras alternativas" às reservadas aos profissionais do setor médico.

Oposição reage à mudança de discurso

A questão é levada para o campo político na França. A oposição, tanto de direita quanto de esquerda, critica a mudança de posicionamento por parte do governo.

"Atualmente vemos essa reviravolta no discurso, mas, durante uma crise, é preciso de transparência", declarou o deputado Eric Ciotti, do partido Os Republicanos, de direita. Em entrevista ao canal francês CNews, ele afirmou que "o governo deveria ter dito que não havia máscaras ao invés de propagar mensagens confusas, afirmando que as máscaras eram inúteis e até perigosas para quem não soubesse usá-las corretamente".

O secretário nacional do Partido Comunista Francês, Fabien Roussel, reconhece que a situação é "difícil de gerenciar", mas acredita que faltou sinceridade da parte do Executivo e que a mudança de posicionamento pode "confundir a população". "No início do confinamento, o governo repetia que os franceses não deveriam comprar máscaras e que elas eram reservadas aos profissionais da saúde. Na verdade, simplesmente não havia máscaras. Agora que bilhões de máscaras foram encomendadas, houve uma mudança de discurso e dizem que todo mundo deve utilizá-las", afirmou o comunista à Sud Radio.

O governo se defende, explicando que "aprendemos a cada dia como lidar com o vírus". "Estamos muito atentos às evoluções que trarão as declarações da OMS", diz um comunicado divulgado pelo Executivo francês. "Tudo isso está em discussão com o conselho científico, especialistas em biologia e a agência de Saúde da França", reitera o documento.

Mudança de hábitos culturais

Usar máscaras para proteger as pessoas de doenças contagiosas faz parte da cultura asiática. Desde o início da epidemia, chineses, japoneses e sul-coreanos utilizaram a técnica para tentar frear a propagação da Covid-19.

Na Ásia, a resistência dos países ocidentais em recorrer ao método surpreendeu as autoridades sanitárias. "O grande erro de Estados Unidos e Europa, para mim, é as pessoas não usarem máscaras", disse recentemente o chefe do Centro chinês de Controle e Prevenção de Doenças, Gao Fu, em entrevista à revista Science.

Com novas pesquisas surgindo e apontando para a possibilidade de transmissão da doença através do ar expirado por doentes, o posicionamento dos governos começou a mudar. Nos Estados Unidos, desde a última sexta-feira, as autoridades recomendam à população cobrir o rosto quando saírem.

"Houve uma inflexão nos Estados Unidos, e a OMS está revisando suas recomendações", indicou o professor KK Cheng, especialista em saúde pública da Universidade de Birmingham (Reino Unido), favorável ao uso generalizado da máscara. "Muitas pessoas acham que usar máscara as protege do contágio, mas, na verdade, permite reduzir as fontes de transmissão", explicou. "Funciona se todo mundo usar, pois, neste caso, uma máscara muito básica é suficiente, já que um pedaço de tecido pode bloquear as projeções emitidas por um doente. Não é perfeito, mas é melhor do que nada."

Máscaras artesanais

Para que não se esgotem os equipamentos médicos, máscaras artesanais podem ser utilizadas. Segundo cientistas, elas servem para evitar que outras pessoas se contaminem, mas não para se proteger da doença. Nas redes sociais, tutoriais vêm sendo divulgados.

Na Alemanha, o instituto Robert Koch, responsável pela luta contra a pandemia, incentiva os cidadãos a fabricarem o acessório em casa. "Ainda não há provas científicas de que limitam a propagação do vírus, mas parece plausível", estimou seu presidente, Lothar Wieler.

Na França, a Academia de Medicina também considerou no domingo (5) que o uso generalizado de máscaras nas ruas deveria ser obrigatório durante e mesmo após o confinamento. Já a Lombardia, no norte da Itália, região mais castigada pela Covid-19, instituiu no fim de semana a obrigatoriedade de cobrir as vias respiratórias à população.

No Leste Europeu, esta proteção também ganha espaço. É obrigatória na República Tcheca e Eslovênia, e, na Áustria, para entrar em supermercados.

Segundo um estudo publicado pela revista Nature recentemente, o uso da máscara cirúrgica reduz a quantidade de coronavírus no ar exalado pelos doentes. O relatório foi feito a partir de outros coronavírus, mas não o atual, Sars-CoV-2.

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