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7 dias de greve

Jovens franceses consideram reforma da Previdência necessária, mas criticam projeto

Cartaz diz "Aposentadoria antes de morte", durante a manifestação contra reforma da Previdência no dia 10 de dezembro
Cartaz diz "Aposentadoria antes de morte", durante a manifestação contra reforma da Previdência no dia 10 de dezembro /Benoit Tessier/Reuters

Logo após o discurso do primeiro-ministro francês, Edouard Philippe, sobre a reforma da Previdência na França, a RFI saiu às ruas de Paris nesta quarta-feira (11) para saber o que pensam os jovens, os principais afetados pelo novo plano do governo. As reações se dividem entre a oposição a um projeto que afetará os mais jovens e a necessidade de revisar um sistema que julgam antigo e inadaptado.

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A maioria dos jovens entrevistados reconhece que não acompanha todos os detalhes sobre a reforma que incendeia a França. Nesta manhã, Edouard Philippe explicou em coletiva de imprensa os principais pontos do projeto do governo Macron sobre a questão.

Várias gerações de jovens franceses estão no centro desta reforma. Ela se aplicará a pessoas nascidas a partir de 1975 e apenas a partir de 2025. Além disso, a geração de 2004 será a primeira a entrar integralmente no novo sistema, em 2022, aos 18 anos de idade. Será essa parcela da população a responsável por trabalhar mais para cobrir as aposentadorias das gerações antecedentes.

Na Praça da República, centro de Paris, as estudantes Sirine e Anastasia, ambas de 15 anos, aproveitam a pausa no meio do dia na escola para almoçar e conversar. Elas terão 18 anos em 2022 e fazem parte da primeira geração que integrará o novo sistema de aposentadorias.

Enquanto Sirine diz acompanhar a greve e os acontecimentos em torno da reforma da Previdência, para Anastasia, o assunto ainda parece distante de suas preocupações. "A gente não se dá conta de como tudo isso é importante, porque ainda somos muito jovens. Mas é verdade que mais tarde essa reforma terá um impacto direto sobre nós", afirma.

Sirine diz ter o cotidiano afetado pela greve dos transportes públicos e está a par de alguns dos principais pontos do projeto apresentado nesta quarta-feira, embora não tenha acompanhado o anúncio do primeiro-ministro. A adolescente também tem uma opinião formada sobre as manifestações que sacodem o país há uma semana. "O povo está expressando o que acredita ser uma injustiça diante deste governo que tenta instaurar leis de forma um tanto autoritária", diz.

De fato, o Executivo prometeu não recuar sobre a aplicação da reforma da Previdência, uma promessa de campanha do presidente francês, Emmanuel Macron. Por outro lado, amenizou o projeto anunciando bônus para algumas categorias, prometendo manter direitos adquiridos para outras e destacando vantagens da nova reforma a mulheres e famílias com filhos.

O diretor de loja Raphael, de 42 anos (1° da esquerda para a direita), ao lado do enfermeiro Hubert, de 30 anos
O diretor de loja Raphael, de 42 anos (1° da esquerda para a direita), ao lado do enfermeiro Hubert, de 30 anos RFI/Daniella Franco

"O problema é que estamos vivendo cada vez mais"

Nos arredores do Canal Saint Martin, 11° distrito de Paris, um grupo aproveita a pausa na chuva para bater papo no lado de fora de um bar. A reforma da Previdência não faz parte dos assuntos discutidos por eles, que reconhecem achar complexo o sistema proposto. Também confessam viver um certo cansaço com os protestos que começaram no ano passado com os coletes amarelos e continuam neste ano liderados pelos trabalhadores do setor ferroviário.

Apesar de não participar ativamente dos debates sobre a questão, Raphael, diretor de loja de 42 anos, afirma que uma reforma da Previdência é necessária na França, já que julga o sistema atual como antigo e inapto.

"O problema é que estamos vivendo cada vez mais. Isso não é novo, faz 25 anos que estamos falando e protestando sobre essa questão. Em 1995, a França ficou paralisada também por protestos contra um projeto de reforma da Previdência. É verdade que uma hora é preciso encontrar dinheiro suficiente para pagar as aposentadorias de todo mundo", ressalta.

Na mesma mesa, Hubert, enfermeiro de 30 anos, critica o fato de que o atual sistema permitiu que seus avós se aposentassem cedo o suficiente para receber pensões durante 35 anos.

"É claro que esse tipo de sistema não pode funcionar para sempre. Não podemos trabalhar a metade das nossas vidas e a outra metade vivermos de aposentadorias. Especialmente quando envelhecemos, porque é a época que dependemos da saúde pública e do dinheiro do Estado para nos tratarmos", observa Hubert.

As estudantes de arquitetura Valentine, de 24 anos (à esquerda), e Mélissa, de 20 anos
As estudantes de arquitetura Valentine, de 24 anos (à esquerda), e Mélissa, de 20 anos RFI/Daniella Franco

Greve dos transportes desviou atenção dos jovens

Em um café do 10° distrito de Paris, as estudantes de arquitetura Valentine, de 24 anos, e Mélissa, de 20 anos, expressam sua revolta sobre o fato da reforma da Previdência recair sobre os ombros dos jovens. "Eles poderiam nos facilitar a vida. Querem que sacrifiquemos nossos futuros por eles, mas por que não se mexem e se implicam eles mesmos neste momento?", questiona.

Mélissa também expressa sua indignação com a situação em geral, acredita que muitos pontos da reforma são complicados de compreender. Ela reclama também dos efeitos da queda de braço entre o governo e os sindicatos em seu cotidiano. "É interessante poder manifestar e reivindicar seus direitos, mas se é para incomodar todo mundo, não estou de acordo", afirma.

Já Valentine lembra o quanto a situação é paradoxal. "A justificativa é que fazem isso por nosso futuro, mas ninguém está realmente pensando nos jovens e isso é o que mais me incomoda. Que restabeleçam os transportes, que nos deixem circular e principalmente: nos deixem trabalhar, porque nós, sim, estamos batalhando pela aposentadoria de vocês", conclui a universitária.

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