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Reforma da Previdência

Em greve, bailarinas protestam dançando "O Lago do Cisnes" na calçada da Ópera de Paris

Para protestar contra o projeto de reforma da Previdência do governo francês, bailarinas interpretaram trechos do espetáculo "O Lago dos Cisnes", diante da Ópera Garnier, em Paris.
Para protestar contra o projeto de reforma da Previdência do governo francês, bailarinas interpretaram trechos do espetáculo "O Lago dos Cisnes", diante da Ópera Garnier, em Paris. ludovic MARIN / AFP

Eles já participaram das manifestações contra o projeto de reforma da Previdência do governo francês e estão em greve há 15 dias. Na véspera do Natal, nesta terça-feira (24), o corpo de dança, a orquestra e técnicos da Ópera de Paris resolveram protestar mostrando o que fazem de melhor: oferecendo um espetáculo, em plena rua.

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Sob o céu nublado e temperatura inferior a 10°C, cerca de quarenta bailarinas se apresentaram na calçada diante do Palácio Garnier, no centro de Paris. Entre duas "Marselhesas" - o hino nacional francês - executado pela orquestra sinfônica, o corpo de dança da Ópera de Paris interpretou um ato do balé "O Lago dos Cisnes", de autoria do compositor russo Piotr Ilitch Tchaïkovski. Como pano de fundo, cartazes exibiam as mensagens: "Ópera de Paris em greve" e "A cultura em perigo".

"Embora estejamos em greve, quisemos oferecer um momento de graça neste 24 de dezembro", declarou à imprensa o bailarino Alexandre Carniato, de 41 anos. "Apesar do frio, as meninas quiseram se dar esse desafio e os músicos quiseram acompanhá-las", acrescentou.

Como várias categorias na França, a Ópera de Paris está em greve há 15 dias - uma paralisação que resultou em uma perda de € 8 milhões para a instituição. A mobilização dos bailarinos é inédita e levou ao cancelamento de 45 espetáculos desde 5 de dezembro, quando começaram os protestos contra o projeto de reforma da Previdência na França.

Por que bailarinos aderiram à greve?

A Ópera e a Comédie Française são as únicas instituições culturais afetadas pelos planos do Executivo francês de reformar o sistema de Previdência do país. O projeto, que paralisa os transportes públicos franceses e revolta as centrais sindicais, prevê uniformizar a situação de todos os trabalhadores, acabando com os 42 regimes especiais e passando de 62 anos para 64 anos a idade mínima para a aposentadoria.

Graças ao atual sistema, membros do corpo de dança da Ópera de Paris podem se aposentar aos 42 anos. O regime é um dos mais antigos da França, data de 1658, sob o reinado de Luís XIV. No entanto, os artistas lembram que, apesar do tabu em torno da idade considerada precoce para a aposentadoria, a carreira começa muito cedo e exige anos de sacrifícios.

"Nos martelam desde os 8 anos de idade que temos uma missão importante ao dançar na Ópera de Paris, que é um símbolo da França", afirma Alexandre Carniato. "O que as bailarinas mostraram hoje são 15 anos de sacrifícios, de trabalho constante. Para chegar a esse nível há um limite. Se quisermos continuar vendo belas dançarinas e belos dançarinos em cena, não podemos continuar até os 64 anos, não é possível", ressaltou.

A arte em perigo

Uma das participantes do protesto desta terça-feira, a bailarina Eloïse Jocqueviel, de 23 anos, afirma que todo o conjunto de trabalhadores da Ópera pode ser prejudicado pelo projeto de reforma da Previdência. "É nossa arte que está em perigo", salienta.

A jovem conta um pouco da rigorosa rotina que segue desde criança para chegar ao nível exigido pela instituição. "Comecei a escola de dança aos oito anos. Deixei minha família e tive que adaptar meu percurso escolar. Com cinco horas de dança por dia, aos 17, 18 anos, enfrentamos lesões crônicas, tendinites, fraturas devido ao cansaço, dores... Somos vários a não conseguir nem mesmo terminar o Ensino Médio", diz.

A jovem explica que as bailarinas escolheram dançar nesta terça-feira o ato 4 do "Lago dos Cisnes", "um dos balés mais difíceis", interpretado "na calçada, sob o frio", para sensibilizar o público sobre a situação dos bailarinos. "A eliminação de nosso sistema de aposentadorias para nos fazer entrar à força em um regime que não nos corresponde em nada, pode destruir o equilíbrio de nosso coletivo de trabalho", sublinha o corpo de dança Ópera de Paris em comunicado.

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