Acessar o conteúdo principal
Brasil-Mundo

Jovem mineiro cria projeto para ensinar línguas em escolas públicas e autofinancia estudos em Paris

Áudio 05:56
O brasileiro Luis Othavio Nunes estuda Ciências Politicas na Paris 8 e é militante LGBTQI+.
O brasileiro Luis Othavio Nunes estuda Ciências Politicas na Paris 8 e é militante LGBTQI+. Caroline Coutinho

Antes mesmo de completar 20 anos de idade, Luis Othavio Nunes saiu na capa de uma grande revista brasileira, dedicada a 20 jovens com futuros promissores. O motivo? Quando tinha 17 anos, ele inventou seu próprio método de aprender idiomas. Pouco depois, virou professor voluntario de inglês para alunos de escolas públicas. Já em 2019, o jovem de Heliodora, Minas Gerais, autofinanciou seus estudos em Paris.

Publicidade

Por Caroline Amaral Coutinho, especial para a RFI

Tudo começou quando seu professor sugeriu aplicativos para aprender idiomas e Luis começou a os utilizar diariamente. Rapidamente, o jovem entendeu o método usado nos sites e estruturou uma maneira própria de aprendizagem. Depois de um tempo, já era fluente na língua inglesa.

Paixão por aprender idiomas

“Depois que aprendi o inglês, eu percebi que já entendia como posso aprender uma língua, começando pelo pronome, depois o verbo ser e estar. Depois só apliquei o mesmo plano para o espanhol e francês”, explica.

Nesse mesmo período, Luis mudou de uma escola particular, onde tinha uma bolsa, para uma pública. Ele percebeu que podia ajudar suas colegas de classe dando cursos de reforço, principalmente de inglês. Foi quando nasceu seu projeto Voz Para Todos, que busca dar aulas de línguas gratuitas para jovens carentes.

“Eu vi que meus amigos não sabiam quase nada do que eu sabia, porque eu fui muito privilegiado de conseguir a bolsa”, conta. “Eu comecei a dar aula, aí eu percebi que eu já podia mudar as coisas com o conhecimento que eu já tinha”.

Engajamento politico

No ano da eleição presidencial de 2018, o jovem mineiro começou a se interessar pela política e fundou, junto com outros amigos, o grupo ativista LGBT Contra Bolsonaro, hoje renomeado LGBTQI+ Resistência pela Democracia, onde ele trabalha na comunicação.

Em outubro daquele ano, Luis estava em uma estação do metrô de São Paulo após sair de uma manifestação, e presenciou uma torcida cantando rimas homofóbicas. Ele decidiu então filmar a cena e compartilhá-la nas redes sociais. O vídeo viralizou, recebendo mais de quatro milhões de visualizações em páginas políticas no Facebook.

Mas a popularidade do vídeo também trouxe dezenas de mensagens de ódio e ameaças, que, no final, levaram Luis a querer se distanciar do país. Já interessado em estudar ciências políticas, a França se tornou um sonho.

“Vários jornais vieram fazer entrevistas comigo, então meu rosto ficou estampado no momento mais polarizado que o país estava”, conta. “Logo, eu comecei a receber ameaças e pensei: ‘não posso mais continuar no Brasil nesse momento’, porque naquela hora eu achava que eu estava em perigo”.
 

Para estudarr, Luis gosta de organizar seus cadernos com adesivos, glitter e pompons. Para ele, esse método o ajuda a memorizar termos importantes.
Para estudarr, Luis gosta de organizar seus cadernos com adesivos, glitter e pompons. Para ele, esse método o ajuda a memorizar termos importantes. Caroline Coutinho

A chegada na capital francesa

Começou então uma fase de aprender a escrever currículos, fazer testes de línguas e se candidatar para diferentes universidades. Para se financiar, o jovem recolheu R$ 30.000 fazendo vaquinhas online, dando aulas particulares, e até mesmo pedindo dinheiro pelas ruas. Porém, para ele, o maior desafio foi a falta de informação.

“Cada esforço que você faz para conseguir validar todo o processo da candidatura, é realmente complicado”, diz. “O jovem brasileiro não tem noção, antes de entrar numa faculdade nacional, de que é possível morar fora. Tem muitas pessoas que têm potencial para conseguir, mas não têm a informação”.

Aceito na Universidade Paris VIII, Luis chegou em Paris em setembro de 2019. Hoje, ele mora em um apartamento de um único cômodo no centro da capital francesa, que ainda divide com uma amiga. Luis tem poucas coisas: algumas roupas, seus cadernos e livros coloridos e decorados e um colchão inflável, onde dorme todas as noites.

“Nem tudo é perfeito quando se sai do Brasil e vem para a França”, explica, indicando que a adaptação não foi fácil. “Eu tive que mudar várias vezes de casa. Realmente, foi muito difícil administrar a burocracia exigida no país, não ter um lugar para morar e ainda mais fazer todos os meus deveres de casa”.

Porém, o estudante tem orgulho de suas escolhas e afirma estar feliz de poder inspirar outros jovens de cidades pequenas a se dedicarem ao estudo e correrem atrás de condições melhores.

“É muito importante (para mim) levar a minha história que mostra que a gente já consegue fazer o básico. A gente pode fazer tudo que a gente quer com o que a gente tem”, conta.

No futuro, Luis Othavio Nunes quer ser político, professor ou artista. Ainda não sabe, mas o importante agora, segundo ele, é conseguir uma boa base para ter sucesso no que escolher.

NewsletterReceba a newsletter diária RFI: noticiários, reportagens, entrevistas, análises, perfis, emissões, programas.

Página não encontrada

O conteúdo ao qual você tenta acessar não existe ou não está mais disponível.