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Cultura/ Totalitarismo

“Os artistas têm o dever de intervir neste momento; o conceito de intelectual engajado não está morto”, diz dramaturgo Matéi Visniec sobre o Brasil

Matéi Visniec é poeta e dramaturgo romeno radicado na França. Tem pelo menos 30 peças publicadas no Brasil, dezenas delas montadas em palcos de todo o país.
Matéi Visniec é poeta e dramaturgo romeno radicado na França. Tem pelo menos 30 peças publicadas no Brasil, dezenas delas montadas em palcos de todo o país. RFI

Nascido na Romênia em 1956 a e radicado na França, o dramaturgo e poeta Matéi Visniec, é bastante conhecido no Brasil. Dezenas de suas peças foram montadas nos palcos brasileiros e pelo menos 30 de seus textos também foram publicados em português.

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Após ter se tornado um autor proibido sob o regime de Ceausescu, em setembro de 1987, ele deixou a Romênia e chegou à França, onde solicitou asilo político. Ele escreveu, na Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais, uma tese sobre resistência cultural nos países da Europa Oriental durante a era comunista, além de dezenas de peças que foram traduzidas em diversas línguas.

Nesta entrevista à RFI Brasil, ele comenta sobre a situação da cultura no Brasil durante o governo Bolsonaro e sobre a repercussão de suas peças - que denunciam o silêncio face ao totalitarismo - no país. Fala também sobre a possível nomeação de Regina Duarte, atriz que montou uma de suas peças - "A Volta para Casa" (2014) - ao cargo de secretária da Cultura.

RFI – Dezenas de suas peças foram produzidas no Brasil, onde você é um autor apreciado. Você sabe que o Brasil vive um momento de grande polarização política e você deve ter visto o vídeo chocante do ex-secretário da Cultura, Roberto Alvim, que plagiou Goebbels, o ministro da propaganda nazista de Hitler, falando de uma “arte nacionalista”. Ele foi demitido e tudo isso provocou uma polêmica no Brasil. O que você pensa sobre o vídeo?

Matéi Visniec – É inadmissível, é indefensável para um país democrático como é o Brasil. Quando eu era estudante na Romênia, por exemplo, na época da ditadura – uma outra forma de ditadura, outra forma de totalitarismo nos países do Leste Europeu –, todos os dias, no rádio e na TV, o Ceausescu nos impelia a adotar uma arte nacional e patriótica. Então é o mesmo discurso que, por meio das “grandes ideias”, quer impor uma linguagem única e o controle dos cérebros e da consciência. Quer dizer, se somos patriotas, devemos nos submeter a isso [suspiro]. A gente pode ser patriota no debate, na discussão, na defesa de opiniões diferentes, na democracia e podemos amar nosso país e ao mesmo tempo defender a diversidade, a multiculturalismo e o direito à diferença.

RFI – Neste caso, Roberto Alvim foi mais longe, pois não era apenas a forma, havia a teatralização. Havia a música de Wagner ao fundo e trechos exatos do discurso de Goebbels. Você acha que esta teatralização contribuiu para criar o choque?

MV – É muito bom que o choque tenha sido provocado, porque mostra que a memória não foi completamente apagada. Porque nós sabemos bem o que significa o discurso de Goebbels, o discurso da época do nazismo. Depois de milhões de mortes, tínhamos uma arte efetivamente submissa à ideologia nazista. Milhares de artistas foram mortos, milhares de livros foram jogados na fogueira, bibliotecas foram dizimadas, a censura era aterrorizante e havia uma forma de destruição da cultura sem precedentes na Europa. Então, felizmente que as pessoas não esqueceram, e tudo isso voltou aos espíritos das pessoas depois deste discurso. A gente não pode enganar as pessoas, a gente não pode inflamar as pessoas hoje em dia com as ideias nazistas. Toda alusão a esta época obscura é inadmissível. O Brasil tem a experiência da democracia há mais de 30 anos e isso é inadmissível. A reação dos brasileiros me encheu de alegria, porque eu adoro o Brasil, onde eu fui três vezes, eu tenho amigos lá. Me alegra ver a mobilização em torno deste episódio horroroso e inadmissível.

RFI – Um articulista da Folha de S. Paulo, Thiago Amparo, faz um paralelo entre uma de suas peças, “O Espectador Condenado à Morte”, de 1992, onde o público é julgado. Existe um paralelo possível entre esta peça e os brasileiros, como se fossem espectadores cínicos num teatro do absurdo?

MV – Sim, eu fiquei muito contente que minha peça tenha sido citada. Eu preciso precisar que em 1992 ela foi traduzida para o francês, mas a peça foi escrita na época do totalitarismo na Romênia em 1984. Eu denunciava, com esta peça, o silêncio. Porque na peça tem um espectador que é escolhido por acaso e julgado. E a gente descobre, finalmente, que ele é culpado e deve ser executado. O silêncio de todos – do público, da classe política – misturado com o medo, cria monstros. Minha peça era um grito contra o silêncio, contra a submissão voluntária, que é uma tragédia da civilização humana. Eu fico contente que esta peça ainda ressoe no Brasil, porque não houve um silêncio após este episódio; as pessoas falaram e reagiram a esta tendência que é nociva para a cultura. A cultura é a liberdade, é justamente pela cultura que forjamos o espírito crítico, o diálogo, a divergência, a diversidade. A cultura única é um contrassenso. 

RFI - Houve uma indignação, é verdade, mas por outro lado houve uma banalização desta linguagem, foi o clímax de uma possibilidade de ir mais longe com uma linguagem fascista. Existe também uma espécie de inação diante de um teatro absurdo do governo.

MV – Cada vez que eu estive no Brasil, eu encontrei lá uma energia comparável à que eu sinto a cada vez que volto a Romênia. Tudo está a fazer ou a refazer nestes países que conheceram longas ditaduras. No Brasil, a democracia chegou um pouco antes da queda do Muro de Berlim. Eu acredito na energia dos intelectuais, dos brasileiros. Existe uma abertura no Brasil, nos últimos 30 anos, que não pode mais ser fechada. Ninguém pode fechar, nem com um discurso, como esse do qual falamos, nem com a reticência de uma certa classe política, nem com o silêncio de alguns intelectuais. Os artistas têm o dever de intervir neste momento; o conceito de intelectual engajado não está morto. Nestas situações, os intelectuais devem se engajar e preservar a liberdade da cultura.

RFI – Você disse numa entrevista que não se espanta que suas peças sejam tão populares no Brasil, onde, como na Romênia, tudo está a refazer...

MV – Sim, nas minhas peças eu falo deste problema ‘Como aprender ou reaprender a ser livre’, ‘Como denunciar as formas sutis de lavagem cerebral’. Eu falo sobre o indivíduo que é submetido à pressão do poder. As relações entre os indivíduos e o poder sempre me interessaram. A troca de papeis entre carrasco e vítima, porque houve esta forma de traição: a vítima vira carrasco a partir do momento em que lhe é oferecida a possibilidade de sair da posição de dominada. Então, tem problemas que me marcaram muito na juventude, que eu tratei nas minhas peças e eu acho que são os problemas dos países que constroem, neste momento, a democracia, a liberdade e, para isso, são necessárias décadas. Eu acho que são necessárias duas ou três gerações, então nós [romenos e brasileiros] estamos na mesma construção, de certa forma.

RFI – Você sabe que a pessoa indicada para a Secretaria da Cultura é Regina Duarte, uma atriz muito conhecida no Brasil, próxima do governo Bolsonaro, que você conhece muito bem. Ela montou e dirigiu em 2014 a sua peça “A Volta para Casa”.

MV – Eu fui convidado para ver esta peça montada pela Regina Duarte pelo meu editor no Brasil, Edson Filho, que publicou 30 peças minhas. É graças a ele e à sua editora [É Realizações] que minhas peças são montadas no Brasil. Ele fez estudos de teatro aqui na França, descobriu as minhas peças e começou a publicar sistematicamente. Eu vi, na época, como ela era popular. Eu andei com ela na rua e as pessoas paravam para fotografá-la. Tudo o que posso dizer é que eu lhe desejo - neste contexto complicado - sucesso. Eu acho que não é fácil; é frequente que bons artistas não sejam bons administradores.

Esta peça que ela montou denunciava justamente o totalitarismo e a manipulação da história. Na minha peça eu falo dos mortos da pátria que voltam pra casa descontentes. Ela [Regina Duarte] é engajada na política à direita, eu não estou em posição de intervir, interferir na vida política brasileira, mas eu acho que os artistas deveriam ter uma coisa em comum: a defesa da liberdade de expressão.

RFI – Regina Duarte defende o governo Bolsonaro e os cortes no orçamento da Cultura. Você já viu exemplos assim, de artistas cooptados pelo governo de Ceausescu?

MV – Na época de Ceausescu tudo era totalmente controlado. A verdadeira cultura era subversiva, que a gente fazia entre amigos, escondidos, com alusões, metáforas, espírito crítico que se infiltrava em textos aparentemente convencionais. A literatura era um instrumento de liberdade, sobretudo a poesia. Mais tarde, na Romênia, eu me envolvi na construção de uma nova cultura onde o dinheiro é necessário. Os países em competição cultural precisam de apoio político e de dinheiro para se impor e para construir sua própria cultura, educar e levar a cultura ao próprio povo. Não se pode levar a cultura para um povo se ela não estiver na mídia, nas instituições, sem subvencionar a cultura, a criação. Os políticos que não lutam por mais dinheiro para a cultura criam um efeito de menos cultura em seu país.

RFI – Você acha que o fato de uma grande dama da televisão, uma artista popular, pode, neste contexto tão polarizado, ela que se alinha claramente ao governo, estar numa posição de conciliar uma classe artística tão revoltada?

MV – Eu não conheço muito bem a situação, mas eu sei que ela [Regina Duarte] é popular. Talvez ela utilize esta popularidade para criar uma ponte entre apoiadores e opositores. A gente sempre precisa de mediadores entre duas forças que parecem irreconciliáveis, mas que devem coabitar em uma democracia.

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