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França/Brasil

Visão da França como inimiga do Brasil não reflete parceria entre os dois países, dizem especialistas

França aparece como ameaça constante em minuta sigilosa elaborada por militares brasileiros, visão que ganhou força após as turbulências entre os presidentes Jair Bolsonaro e Emmanuel Macron.
França aparece como ameaça constante em minuta sigilosa elaborada por militares brasileiros, visão que ganhou força após as turbulências entre os presidentes Jair Bolsonaro e Emmanuel Macron. AFP Photos/POOL/Jacques Witt

É um exercício de futurologia, comum no trabalho dos militares. Para preparar a defesa do país, é preciso pensar em tudo: até mesmo na hipótese de amigos virarem inimigos. Porém, na opinião de consultores internacionais ouvidos pela RFI, o contexto descrito na minuta sigilosa “Cenários da Defesa 2040”, do Ministério da Defesa brasileiro, expõe uma visão limitada, sem ponderar parcerias estratégicas da relação franco-brasileira.  

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Numa das “quatro hipóteses de futuro plausíveis”, em 2035 a França formaliza “um pedido de intervenção das Nações Unidas na Região Ianomâmi, anunciando o seu irrestrito apoio ao movimento de emancipação daquele povo indígena”. Como medida de apoio às suas intenções, o governo francês mobiliza um grande efetivo de suas Forças Armadas para a Guiana Francesa. 

Nesse mesmo ano, um submarino nuclear brasileiro já estaria em operação. E o Itamaraty agiria como mediador de guerras entre Bolívia e Chile e entre Colômbia e Venezuela, cuja instabilidade política possibilitaria a instalação de uma base de treinamento militar russa em solo venezuelano.

Esses são alguns dos cenários imaginados pelas Forças Armadas brasileiras, a partir de entrevistas colhidas em 11 reuniões regionais, das quais participaram mais de 500 pessoas, entre civis e militares, no segundo semestre de 2019.

“Eu entendo esse trabalho como uma fotografia do que está na cabeça de centenas de oficiais brasileiros que participaram do exercício e que mostra uma visão limitada por parte dos militares”, lamenta Sophie Jouineau, que trabalhou no Ministério da Defesa da França entre 2007 e 2014. “Mas se isso for o que pensa o governo ou o Estado brasileiro, é muito grave para o Brasil”, completa a consultora em segurança.

Algumas considerações geopolíticas do trabalho podem soar mais realistas do que outras, como mostrou uma reportagem do jornal “Folha de S. Paulo”, que teve acesso ao documento em primeira mão.

O texto de 45 páginas, ao qual a RFI também teve acesso, visa a embasar revisões na estratégia de defesa do Brasil.   

Coronavírus, Antrax e atentado terrorista

Num dos cenários mais inusitados, um ultranacionalista do Sudeste Asiático espalha um “coronavírus causador da SARS-CoV (Síndrome Aguda Severa Respiratória)” numa das edições do Rock in Rio, daqui há 19 anos.

Em 2037, uma carta anônima contaminada por Antrax é enviada ao Gabinete do Ministro da Defesa brasileiro.

Ainda segundo a minuta militar, o patrulhamento costeiro da OTAN no Hemisfério Sul torna-se “uma constante desde o afundamento do navio de turistas da empresa Costa C, em 2034, após o atentado terrorista perpetrado pelo grupo Boko Haram”.   

Questões ligadas ao tráfico internacional de drogas e assuntos de fronteiras tradicionalmente figuram nessas discussões hipotéticas. O temor da perda de soberania da Amazônia é recorrente.

Embate Macron X Bolsonaro

Segundo a minuta dos militares brasileiros, a França aparece como uma ameaça constante, visão que ganhou força após as turbulências entre os presidentes Jair Bolsonaro e Emmanuel Macron.

No texto de estudos das Forças Armadas brasileiras, “a França, em sua política de defesa, amplia, de acordo com seus interesses, papel de guardiã dos princípios universais de defesa dos direitos humanos e da proteção do meio ambiente. Essa circunstância a colocou em rota de colisão com os interesses brasileiros, em especial no questionamento da nova política indigenista brasileira e da estratégia de integração viária da região amazônica com o restante do país”.

“É uma pena porque isso reflete uma visão em relação aos indígenas e ao meio ambiente de exploração dos recursos que é preocupante, pois são pessoas que continuam a ter uma visão predatória sobre a natureza, enquanto estamos numa época em que devemos revisar nossa forma de explorar os recursos naturais para que a Terra continue sendo habitável para os homens”, observa Sophie Jouineau.

“O Brasil faz parte dos países bem posicionados para propor um novo modo de exploração dos recursos, para garantir a sobrevivência da espécie humana, mas não aproveita isso”, completa.

Internacionalização da Amazônia

O assunto da internacionalização da Amazônia voltou a ganhar destaque quando o presidente francês, Emmanuel Macron, apareceu no cenário político tomando a frente em questões climáticas, reafirmando publicamente sua visão de que a Terra é uma só e que a solução para o aquecimento do planeta é conjunta, e passa pela Amazônia.

A minuta elaborada pelos militares brasileiros destaca que, “a partir da terceira década do século em curso, começam a surgir conflitos de interesses envolvendo o Brasil e alguns países da União Europeia”, podendo-se identificar “como causa remota o histórico de interesse de alguns países em relação às riquezas minerais, à preservação ambiental e à biodiversidade da região amazônica”.

“Esse medo dos militares do Exército brasileiro sobre a Amazônia ser fonte de interesse colonialista é uma visão muito antiga, que voltou à moda com a visão do novo presidente Bolsonaro sobre a melhor maneira de valorizar os recursos do Brasil”, explica Jouineau.

Já o professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), Antônio Jorge Ramalho, vê com naturalidade essa preocupação com a integralidade territorial. “A capacidade do Exército na Amazônia está aquém do que poderia ser e a defesa faz a sua parte: integrar para não entregar”, diz. “Não é uma visão oficial do governo, mas isso pode ter ficado na cabeça de alguns militares”, acrescenta o professor, lembrando que outros governos brasileiros já se dedicaram a estratégias de integração do país aos seus vizinhos latino-americanos através da Amazônia, seja no que diz respeito à infraestrutura, telecomunicações, energia ou transportes.

Ramalho ainda lembra que o temor de alguns militares, especialmente do Exército brasileiro, sobre a soberania da Amazônia data do governo de François Mitterrand. Em 1989, o político francês disse que o Brasil precisava “aceitar uma soberania relativa sobre a Amazônia".

“Existe um temor desde o pronunciamento do Mitterrand e a atual troca de mensagens entre Macron e Bolsonaro não ajudou em nada”, observa Ramalho. “O fato de Macron ter postado imagens incorretas, de outro tempo, foi percebido por alguns não como um erro, mas como um recado”, analisa.

No texto elaborado pelos militares, os entrevistados imaginam um cenário em que “as relações diplomáticas entre a França e o Brasil ainda continuam estremecidas, desde os incidentes ocorridos em 2019, quando aquele país propôs uma internacionalização da região amazônica, motivada pela preservação do meio ambiente”.

A tensão se elevou durante encontro do G7, em Biarritz, em agosto de 2019, quando o presidente Emmanuel Macron colocou a floresta no centro dos debates da cúpula dos países ricos.

Na época, a gravidade das queimadas no Brasil provocou indignação internacional. O mundo perguntava sobre a sobrevivência da maior floresta tropical do planeta.

Ao sugerir a internacionalização da Amazônia, levantando a possibilidade de um estudo para protegê-la, Emmanuel Macron foi acusado de ter “mentalidade colonialista”, conforme refutou o presidente Jair Bolsonaro, à época.

Diante dessa hipótese, o governo brasileiro rejeitou uma ajuda de US$ 20 milhões (R$ 83 milhões) do clube do G7. O dinheiro seria usado para o combate aos incêndios e investimentos em reflorestamento.

Em nota, o Itamaraty dizia esperar que a França se engajasse com seriedade em discussões climáticas no âmbito da UNFCCC (Convenção Quadro das Nações Unidas Sobre Mudança do Clima).

Para alguns observadores, Macron age para o público interno, enquanto tem que lidar com protestos e o movimento dos coletes-amarelos, ao mesmo tempo em que busca angariar votos de eleitores ligados ao meio ambiente.

Na mesma oportunidade, Macron ainda lembrou que as queimadas na Amazônia afetavam diretamente nove países, inclusive a França, uma vez que a Guiana Francesa é um departamento ultramarino do país europeu. Segundo o chefe de Estado francês, nenhum governo deveria responder sozinho à tal emergência, “ainda que seja preciso respeitar a soberania nacional”, reiterou.

“Uma coisa é um presidente de fora da região pensar que há uma forma de internacionalização que pudesse ser benéfica para solucionar os problemas da Amazônia e conservar a estabilização do clima mundial. Outra coisa é pensar que essa internacionalização deverá passar por uma intervenção que violará a soberania do Brasil,” esclarece Sophia Jouineau.

“Se considerarmos que toda a internacionalização é um atentado à soberania e nunca medirmos a possibilidade de que traga elementos de solução úteis, nesse caso toda a internacionalização seria uma agressão. Há várias formas possíveis de intervenção e nem todas são armadas, então esse cenário é um pouco ridículo, pois eles só consideram uma intervenção armada, o que é bem pouco realista”, acrescenta.

“Quer dizer que esses militares não enxergam como funciona o multilateralismo, as Nações Unidas e como a ONU garante o respeito à soberania dos estados”, completa.

Parceria estratégica militar

Para a consultora do Ministério da Defesa francês, o relatório que veio à público também ignora o fato de que a França é a principal parceira militar do Brasil.

“Essa parceria na área da defesa é de característica industrial. A França ajuda o Brasil a melhorar seus equipamentos de defesa. Os dois principais pilares dessa parceria dizem respeito à implantação de uma fábrica de helicópteros de ataque, na região de São José dos Campos, com um pedido inicial de 50 aeronaves. De outro lado, há um projeto naval em que a França acompanha a Marinha brasileira na construção de submarinos que possam usar propulsão nuclear”, explica Sophie Jouineau.

“Há uma grande distância entre a visão dos militares brasileiros que participaram do exercício sobre esses cenários possíveis e a realidade de cooperação bilateral. Na verdade, a França ajuda o Brasil a dotar-se de uma defesa mais moderna com mais capacidade operacional”, completa.

Mercosul

A minuta sobre os cenários possíveis de defesa ainda destaca que “a França tem colocado diversos obstáculos na aproximação comercial do Mercosul com a União Europeia, na medida em que interesses de produtores agrícolas franceses se veem ameaçados pela oferta do mercado nacional”.

Em resposta à informação confidencial de que o Brasil considera o país europeu como sendo a sua principal ameaça nos próximos 20 anos, a Embaixada da França mencionou a "imaginação sem limites" dos autores da minuta do Ministério da Defesa brasileiro.

"Forças Armadas de todos os países realizam frequentemente esse tipo de exercício de análise de cenários. Entretanto, nós saudamos a imaginação sem limites dos autores desse relatório", indicou a Embaixada Francesa em sua conta no Twitter.

A Embaixada do Brasil na França não se pronunciou sobre o artigo publicado na imprensa brasileira.

“O que se tira desse processo é que as embaixadas do Brasil e da França terão que levar isso a sério e trabalhar para construir um diálogo mais aprofundado que marca a relação amigável e positiva dos dois países”, propõe Antônio Ramalho, da UnB.  

Em nota oficial, o Ministério da Defesa brasileiro informa que o documento mencionado pela “Folha” não reflete a sua posição ou da Escola Superior de Guerra. “Trata-se de trabalho acadêmico, desenvolvido no âmbito de uma escola, que reflete a primeira fase de um estudo preparatório, sendo importante destacar que cenários prospectivos são ferramentas empregadas por qualquer corporação ou país de sucesso e que a liberdade acadêmica é um dos requisitos fundamentais para a excelência de qualquer instituição de ensino de nível superior, como a ESG”, afirma.

Cooperação Argentina-China

Para especialistas ouvidos pela RFI, a visão reportada sobre a Argentina também merece destaque na minuta do Ministério da Defesa.

“A partir da década de 2020, a Argentina desenvolveu processo de aproximação com a República Popular da China”, diz o texto. “A base espacial chinesa, estabelecida na província de Neuquén, Patagônia argentina, ampliou seu efetivo e foi o gatilho para o estabelecimento do Programa Espacial Conjunto China-Argentina para a construção de satélites. A instalação de uma base militar chinesa no complexo, em 2034, foi imediatamente contestada diplomaticamente pelo Brasil”.

“Na cabeça dos oficiais brasileiros é possível imaginar que a Argentina se prestaria a esse tipo de situação facilmente sem fazer resistência, de maneira que a Argentina se transformasse numa colônia militar para outra potência. Isso é muito preocupante”, alerta Sophie Jouineau.

“A Argentina é a primeira aliada do Brasil, ambos têm um acordo de desnuclearização e são membros de uma aliança comercial, e acabam de assinar um acordo com a União Europeia. Se for essa a visão da realidade que têm os militares do Brasil, e de cenário provável para 2040, ela não reflete nem o estado atual de integração do Brasil regional e internacionalmente e nem uma capacidade de se projetar para os desafios do mundo no futuro”, conclui a estrategista.   

 

 

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