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Meio Ambiente

Start up faz compostagem de fraldas usadas de bebês na França

Áudio 05:10
Marcas de fraldas disponíveis no mercado possuem plástico, que dificulta a reciclagem e a compostagem.
Marcas de fraldas disponíveis no mercado possuem plástico, que dificulta a reciclagem e a compostagem. RFI

Sabe aquela história de que nada melhor do que cocô para adubar o solo? Uma start up francesa levou a premissa ao pé da letra e realiza um projeto experimental de compostagem de fraldas usadas de bebê. O setor representa uma fonte importante da poluição doméstica: a cada ano, mais de 3,5 milhões de fraldas são descartadas no país.

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O projeto Les Couches Fertiles (“fraldas férteis”, em tradução livre) se instalou em uma antiga zona degradada de Epinay-sur-Seine, na periferia norte de Paris. O local onde caminhões despejavam entulhos de construções deu lugar a iniciativas ecológicas como uma fazenda urbana e as instalações dos Alchimistes, especializados em compostagem de lixo orgânico. Agora, o grupo experimenta transformar as fezes e a urina dos bebês de quatro creches parisienses, num total de 265 crianças.

As mais de mil fraldas semanais são colocadas em um protótipo no qual são pressionadas intensamente, de modo a extrair toda a matéria orgânica – além dos dejetos humanos, também o algodão contido no produto. Esse material é misturado a serragem de madeira e a alguma outra matéria orgânica, como café, que aceleram o procedimento.

“Tudo isso é triturado e colocado num tanque, já na forma de compostagem, onde ela fica por 10 dias”, explica Maiwenn Mollet, cofundadora dos Alchimistes. “Ali dentro, têm grandes hélices que mexem o material devagar e assim fazem o ar circular. O oxigênio ajuda as bactérias e os fungos fazerem o trabalho deles e decomporem a matéria orgânica.”

Start up Leq Alchimistes tem projeto experimental de compostagem de resíduos orgânicos de fraldas de bebê usadas.
Start up Leq Alchimistes tem projeto experimental de compostagem de resíduos orgânicos de fraldas de bebê usadas. RFI

Uso na agricultura urbana

Depois, são mais quatro a seis semanas de repouso, até que tudo esteja transformado em adubo. “Podemos vender para profissionais da agricultura urbana, para favorecer o circuito curto de produção. Queremos que a compostagem seja utilizada o mais perto possível daqui”, sublinha. “Mas os parisienses também podem comprar em lojas orgânicas que vendem compostagem.”

Desafio da compostagem de fraldas usadas é eliminar completamente os traços de plástico.
Desafio da compostagem de fraldas usadas é eliminar completamente os traços de plástico. RFI

O projeto é promissor, mas ainda esbarra em dois desafios importantes. O primeiro é técnico: o protótipo não consegue retirar completamente o plástico das fraldas, já que todas as descartáveis ainda são fabricadas com componentes industriais. A segunda barreira é sanitária: garantir a segurança da compostagem, que não pode conter traços de medicamentos consumidos pelos bebês, nem de eventuais vírus ou bactérias.

“As principais bactérias e vírus não resistem a temperaturas de 70 graus depois de um certo tempo. Esse processo higieniza a compostagem”, esclarece Maiwenn. “Por outro lado, temos a questão dos traços de medicamentos. A compostagem de fraldas usadas ainda precisa ser enquadrada. Assim que pudermos provar que sabemos fazer e é sanitariamente seguro, a regulamentação poderá evoluir.”

Um instituto de pesquisas de Lyon realiza testes em fraldas de uso adulto, que têm maior concentração de resquícios de remédios. Paralelamente, a pressão aumenta para que as fabricantes desenvolvam produtos com menos ou nenhum plástico, que atrapalha outros projetos de reciclagem, como os de produção de bioenergia a partir de fraldas usadas.

Maïwenn Mollet é uma das responsáveis pelo projeto Les Couches Fertiles (Fraldas Férteis, em tradução livre)
Maïwenn Mollet é uma das responsáveis pelo projeto Les Couches Fertiles (Fraldas Férteis, em tradução livre) RFI

Fraldas sem plástico

A engenheira Fernanda Bollinger participou de um desses projetos, na companhia Suez. Ela conheceu de perto a problemática, que acabou levando para casa. Mãe de dois filhos pequenos, teve muita dificuldade em encontrar produtos menos nocivos ao meio ambiente e à saúde dos bebês.

“Acabam sendo dois assuntos para mim: a questão de não estar em contato com a pele do bebê, portanto é muito importante ser de um material não-tóxico, e a questão ambiental. Os dois pontos estão ligados porque, se o material for biodegradável, é bom para o bebê e para o meio ambiente”, esclarece.

Vai ser cada vez mais difícil de a indústria de fraldas escapar desse desafio. A nova lei francesa de economia circular prevê que, a partir de 1º janeiro de 2024, as fabricantes de têxteis sanitários terão mais responsabilidades quanto ao destino desses dejetos usados.

Maiwenn já antecipa que os absorventes femininos também poderão ser compostados e usados na agricultura. “É uma boa questão, porque os absorventes são têxteis sanitários e, ainda por cima, o sangue é interessante para o solo. Muitos jardineiros gostam de usar sangue seco de gado, então por que não utilizarmos o material orgânico da higiene feminina?”

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