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Economia

“Não é crise financeira como 2008, mas choque econômico”, diz economista da OCDE sobre impacto do coronavírus

Áudio 06:31
Um operário chinês usa máscara em indústria automobilística em Xangai. Em 24 de fevereiro de 2020.
Um operário chinês usa máscara em indústria automobilística em Xangai. Em 24 de fevereiro de 2020. Noel Celis / AFP

A epidemia de Covid-19 causa impacto em diversos setores da indústria, do turismo, derruba os mercados de ações e o preço do petróleo, exigindo atitudes imediatas de governos e bancos. As soluções, na opinião de especialistas, são respostas orçamentárias que devem ser combinadas.

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Diante das incertezas, o Federal Reserve - o banco central dos Estados Unidos - reduziu os juros em 0,5 ponto percentual devido aos riscos impostos pelo coronavírus sobre a economia.

Os países do G7, os mais ricos do mundo, estão prontos para tomar medidas orçamentárias, enquanto Pequim já oferece um extenso plano de suporte de crédito para pequenas e médias empresas.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) pede uma resposta global coordenada. O Banco Central Europeu poderá implantar uma série de medidas de apoio na zona do euro a partir da próxima quinta-feira (12).

O mundo enfrenta um abalo macroeconômico que não vem apenas da China, e se espalha por outros países. Na raiz do problema estão uma queda na produção por causa das medidas de contenção do vírus e um choque de demanda devido à perda de confiança de consumidores e empresas.

Porém, diferentemente da crise financeira de 2008, dessa vez não é uma questão de restrição de crédito ou dificuldade de financiamento de projetos.

“Não é uma crise financeira, é mais um choque econômico. Então, não é exatamente uma resposta de bancos centrais que nós precisamos, como a queda dos juros, mas uma ação da parte dos governos”, explica Laurence Boone, economista-chefe da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), com sede em Paris.

“Os governos precisam se certificar de que as empresas não terão problemas de orçamento enquanto atravessam essa fase difícil. Devemos pensar nas empresas de turismo, por exemplo, e assegurar que os trabalhadores desse setor não fiquem desempregados e que possam atravessar essa fase, em que temos problemas de confinamento”, acrescenta.

Crescimento menor

A OCDE foi uma das primeiras organizações a estimar as consequências do coronavírus para o crescimento da economia mundial, que pode sofrer um impacto entre 0,5% e 1,5%, de acordo com a amplitude da epidemia. 

Segundo os dados disponíveis, não é tanto a letalidade do vírus que afeta a economia, mas sim as medidas de contenção usadas para retardar sua propagação.

“Nós enfrentamos um choque temporário, mas que pode ser expressivo sobre alguns setores. Por enquanto, falamos do turismo e das viagens de negócios, mas se impedirmos as pessoas de se reunirem, haverá um impacto também sobre restaurantes, cinemas, além de um impacto sobre a cadeia de produção mundial de computadores, produtos farmacêuticos, etc.”, afirma Laurence Boone.

Para a economista, entre as medidas a serem adotadas estão: “garantir que os profissionais de saúde sejam bem remunerados nesse período. Há países que baixam os impostos sobre as horas suplementares destes profissionais”, cita. “A segunda coisa é garantir que as empresas possam enfrentar dificuldades financeiras e de liquidez, para que não tenham problema de caixa. Para isso, o Estado poderia suspender ou adiar pagamentos de taxas e impostos, para que as empresas possam continuar a funcionar e a manter seus empregados para quando a economia retomar”, analisa.

Medidas anunciadas

Na França, cerca de 900 empresas já pediram para se beneficiar de medidas parciais de auxílio desemprego para cerca de 15 mil funcionários, principalmente nos setores de turismo, eventos e alimentação. De acordo com a ministra do Trabalho, Muriel Pénicaud, esse número mais do que dobrou em alguns dias.

O governo alemão também anunciou um pacote de medidas para combater o impacto econômico da epidemia. O país vai colocar em prática um plano de € 12,8 bilhões, em quatro anos, para investimentos em infraestrutura, além de apoiar empresas em dificuldades.

Dependência da China e realocação de fornecedores

A contração da produção na China tem efeitos em todo o mundo, prova da importância crescente do país asiático nas cadeias de abastecimento mundiais e nos mercados de matérias-primas. A epidemia obriga empresários a repensarem o modelo de suas cadeias de fornecedores.

O papel da China triplicou na economia mundial. O país contribui com um terço da economia mundial”, observa Boone. “Se você levar em consideração a produção de computadores e materiais eletrônicos, os chineses são responsáveis por 27% da produção mundial. Quando os Estados Unidos produzem computadores, um quarto dos componentes vem da China”, completa.

A crise fez soar o alerta, também, na indústria farmacêutica, já que 80% dos princípios ativos dos medicamentos são provenientes da China. O alerta foi feito pelo ministro da Economia francês, Bruno Le Maire. Em entrevista à imprensa francesa, ele disse que a epidemia pode ser "um divisor de águas na economia global".

“Esses efeitos em cadeia podem servir como um alerta sobre a nossa vulnerabilidade. A globalização da economia foi acompanhada por uma divisão extrema do trabalho entre os países. Isso significa, por exemplo, que um carro é fabricado, em média, em mais de 30 países diferentes”, cita Jean-Marc Four, analista internacional.

“Em outras palavras, somos dependentes do excesso de cadeias de fabricação espalhadas pelo planeta. A distância entre o local de produção de um objeto e o local de venda nunca foi tão grande. O coronavírus poderia reforçar um processo já iniciado por certos setores industriais de realocação. Produzir mais perto dos locais de consumo, para limitar os riscos de fornecimento”, completa.

Petróleo em baixa

A desaceleração da economia chinesa também é responsável, em parte, pela queda na demanda e, consequentemente, no preço internacional do barril de petróleo.

“A queda do preço do petróleo reflete essa inquietação geral da atividade econômica em baixa, que se traduz numa queda na demanda por petróleo, de produção e de consumo dos produtos mais importantes”, explica Jean-Pierre Favennec, da escola de Engenharia da França.  

Nesta segunda-feira (9), o preço do petróleo teve a sua maior queda desde a Guerra do Golfo, em 1991, caindo mais de 30% na Ásia. "Mas essa é uma crise passageira", acredita o especialista.

“Nós não estamos numa crise de longa duração. Quando a crise de coronavírus passar, e eu acredito que não vai durar mais do que alguns meses, nós vamos voltar a uma atividade normal. No caso do petróleo, vamos voltar aos preços anteriores, US$ 60 a US$ 65 o barril. E quando retomarmos a atividade normal, não há porque as Bolsas continuarem em baixa”, conclui.

 

 

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