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Caminhoneiros franceses ameaçam parar por falta de proteção contra novo coronavírus

Nem todos os caminhoneiros têm a chance de trabalhar todos os dias de máscara, como este motorista fotografado no centro de logística da Amazon em Lauwin-Planque, no norte da França, em 19 de março de 2020.
Nem todos os caminhoneiros têm a chance de trabalhar todos os dias de máscara, como este motorista fotografado no centro de logística da Amazon em Lauwin-Planque, no norte da França, em 19 de março de 2020. REUTERS/Pascal Rossignol

Três sindicatos franceses do setor de transporte rodoviário – CFDT, FO e CFTC – convocaram os caminhoneiros a cessar o trabalho a partir desta segunda-feira (30). Muitos motoristas consideram que os empregadores estão colocando a vida deles em risco ao não fornecer máscaras, desinfetantes e outros equipamentos de proteção pessoal para que eles possam se proteger do contágio do novo coronavírus. Além disso, eles reclamam do fechamento de banheiros e restaurantes nas estradas.

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Em um comunicado conjunto, as três centrais sindicais afirmam que os caminhoneiros "recebem desinfetantes e luvas a conta-gotas e trabalham sem máscaras". Quando fazem as entregas nos supermercados e outros estabelecimentos, raramente veem respeitada a distância preventiva de um metro em relação aos interlocutores que recebem as mercadorias.

"Os caminhoneiros vão trabalhar com medo", relata Patrick Blaise, da CFDT, sindicato majoritário no setor. Em entrevista ao Le Parisien, ele explica a angústia dos colegas. "Querem nos enviar à guerra, mas nos tratam como soldados de segunda categoria. Devemos garantir o abastecimento no país, mas não nos oferecem as armas necessárias ao combate", critica o líder sindical da CFDT. O colega Patrice Clos, da FO, conta que 1.500 motoristas da área de transporte rodoviário e logística contraíram o vírus da Covid-19. "Quatro trabalhadores já morreram da doença, incluindo um motorista da Fedex do Aeroporto Internacional Charles de Gaulle", lamenta.

Desde o início do confinamento na França, no dia 17 de março, os caminhoneiros acumulam dificuldades. A maioria dos estacionamentos nas rodovias, com áreas para descanso e equipados com duchas e sanitários, fechou; o mesmo acontece com os restaurantes. Alertado, o governo ordenou a reabertura de algumas áreas de serviços. Mas a própria Federação Nacional do Transporte Rodoviário, entidade patronal, reconhece que o funcionamento é parcial e díspare no território.

Segundo os caminhoneiros, os raros banheiros que permanecem abertos estão imundos, porque as equipes de limpeza não são mais enviadas para garantir a higiene dos locais. Nos postos de gasolina, os motoristas só encontram as bombas de combustível para abastecer.

"Faz 14 dias que estamos alertando o governo sobre essa pressão adicional", diz Thierry Douine, presidente da Federação CFTC Transportes. Se nada for feito, vamos parar na semana que vem, adverte o sindicalista.

Reposição de estoques é lenta

O alerta dos sindicatos ocorre num contexto de tensão no abastecimento. O confinamento levou os franceses a fazer estoques de produtos de primeira necessidade em casa. As mercadorias partem rapidamente das prateleiras dos supermercados e algumas centrais de distribuição já reconhecem dificuldades em relação a produtos não perecíveis, como massas, papel higiênico e outros. A reposição dos estoques está lenta.

A interrupção do trabalho recomendada pelos três sindicatos dos caminhoneiros é uma ação diferente da greve coletiva. Trata-se de exercer um direito individual descrito no Cógigo do Trabalho. A legislação francesa prevê a interrupção das atividades ("droit de retrait"), caso o profissional estime que seu trabalho represente "um perigo grave e iminente para sua vida ou saúde" e que seu empregador não tenha adotado as medidas preventivas adequadas. Equipamentos não conformes, instalações não aquecidas, risco de ataques e ausência de equipamentos de proteção coletiva ou individual são situações suscetíveis de justificar o "direito de retirada" dos funcionários. E esta é a ameaça feita pelos sindicatos.

As centrais também estão furiosas com uma declaração da ministra do Trabalho, Muriel Pénicaud. Ela afirmou que cabe aos donos das transportadoras oferecer aos empregados equipamentos individuais de proteção contra o novo coronavírus. Essa interpretação é válida tanto para caminhoneiros quanto para entregadores de empresas como a Amazon, afirma a ministra. Diante do acirramento dos ânimos, o sindicato CGT da função pública territorial enviou à Justiça do Trabalho uma convocação de greve para todo o mês de abril.

A delegada-geral da Federação Nacional das Transportadoras, Florence Berthelot, afirma compreender a preocupação dos motoristas e entregadores ante a epidemia da Covid-19, mas descarta o risco de desabastecimento no país. "Enviamos recomendações aos clientes, mas é verdade que nem todos respeitam as medidas sanitárias no momento de descarregar as mercadorias", disse Berthelot à rádio France Info. "Mas quero deixar claro aos franceses que somos uma profissão responsável e não haverá problemas de abastecimento no país", garantiu.

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