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França/Atentados

Terroristas dos atentados de Paris usavam tática de dissimulação religiosa

Abdelhamid Abaaoud e Salah Abdeslam
Abdelhamid Abaaoud e Salah Abdeslam Reuters

Os terroristas Abdelhamid Abaaoud, suposto mentor dos atentados de Paris, morto em uma operação na quarta-feira (18) em Saint-Denis, e os irmãos Salah e Brahim Abdeslam, utilizavam a estratégia da teologia da dissimulação, conhecida como "taqiya" em árabe, para enganar os serviços de segurança e de inteligência. Essa é a opinião de vários especialistas em terrorismo.

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De acordo com a tática, ensinada em manuais do grupo Estado Islâmico, "um aspirante a mártir pode consumir haxixe ou blasfemar para enganar a vigilância das autoridades", explica Mathieu Guidère, professor da Universidade de Toulouse. Os membros da família dos irmãos insistem em dizer que não perceberam nenhum sinal de radicalização. Nem os serviços de inteligência. Eles também foram pegos de surpresa pelos atentados de Paris. Brahim, de 31 anos, detonou os explosivos presos ao corpo no Boulevard Voltaire, e Salah, de 26 anos, permanece foragido.

No bar Les Béguines, de propriedade de Brahim, no bairro Molenbeek, em Bruxelas, os irmãos Abdeslam bebiam Jupiler, cerveja popular belga, longe das regras salafistas de não consumir álcool. Antes deles, os irmãos Kouachi, que atacaram o jornal Charlie Hebdo, Amedy Coulibaly, autor do atentado a um supermercado judeu, e os terroristas Mehdi Nemmouche e Mohamed Merah também conseguiram despistar o serviço de inteligência francês.

"Estamos diante de indivíduos adeptos da taqiya, que emitem sinais muito sutis, quase imperceptíveis pelo serviço de inteligência", afirmou já em maio passado o procurador da República de Paris, François Molins. Em seu livro Terroristas, o ex-juiz antiterrorista Marc Trévidic compartilha esse ponto de vista. "A arte da dissimulação é uma realidade. É uma estratégia. E, no exercício dessa arte, alguns são grandes estrategistas, grandes artistas", diz ele.

História da taqiya

A taqiya existe desde o surgimento do Islã. "Na época, Maomé e seus discípulos eram perseguidos pela população. Para proteger a fé muçulmana e os muçulmanos, o profeta admitiu que os fiéis pudessem esconder a sua fé para não ser martirizados", explicou Mathieu Guidère ao jornal francês Le Figaro.

Essa teologia da dissimulação foi, depois, repetida e codificada pelos califas que o sucederam, antes de cair em desuso na época moderna. Ela foi ressuscitada no início do século 20 pelos xiitas até o estabelecimento da República islâmica no Irã. "A taqiya, reformada por Sayyid Qotb e Maulana Maududi, dois ideólogos inspiradores do movimento jihadista, vai se deslocar então ao mundo sunita", segundo Guidère.

A taqiya obedece a regras estritas. "É necessária a autorização de uma autoridade religiosa, um sheik, um imã ou um emir, para praticá-la", continua o professor. O aprendiz de mártir não pode, no entanto, se apresentar como ateu. Ele pode beber, mas sem ficar bêbado. Longe dos preceitos salafistas, os irmãos Abdeslam puderam assim manter a aparência de pequenos delinquentes da periferia de Bruxelas sem levantar suspeitas.

Mas, em meados de agosto, agentes policiais compareceram ao bar Les Béguines e encontraram em vários cinzeiros baseados parcialmente consumidos. O estabelecimento foi fechado no dia 5 de novembro. Desde então, os vizinhos não ouviram mais falar dos irmãos - até os ataques de Paris.

Depoimentos de moradores

O morador do bairro belga Youssef, de 30 anos, roupas esportivas e um boné virado para trás, observa o bar e revela estar em choque. "Eram meus amigos", conta. "Grandes bebedores, grandes fumantes, mas não radicais", acrescenta. "No bar muitas pessoas fumavam drogas, muitas", completa Abdel, de 34 anos, que frequentava o local desde a adolescência. "Com o gerente anterior, o ambiente era mais festivo, nós jogávamos Playstation", recorda. "Com certeza havia haxixe, como em muitos bares daqui, mas era mais discreto. Com Brahim, você entrava, e ele já tentava lhe vender algo."

Ao que parece, os negócios falaram mais alto que as convicções religiosas. "Nas sextas-feiras, sempre ficava para fumar no terraço. Nunca o vi na mesquita", afirma Karim, de 27 anos, cujo apartamento fica em cima do bar. "Não eram praticantes nem devotos. Não tinham barba grande, usavam jeans e tênis e bebiam Jupiler como todo mundo", revela Jamal, professor e amigo dos irmãos Abdeslam.  "Viviam como todos os jovens: gostavam de futebol, de frequentar boates, voltavam com garotas."

O mais jovem, Salah, tinha o costume de comprar "perfume e enxaguante bucal no mercado da praça da prefeitura, a dois passos daqui", disse.  "Era muito vaidoso, gostava de cuidar da aparência", completa Pharred, administrador do mercado.

Detido na fronteira turca

Em janeiro de 2015, Brahim Abdeslam tentou entrar na Síria, mas foi interceptado na fronteira turca. Ao retornar, a polícia belga o interrogou, ao lado do irmão Salah. Já extremistas, os dois irmãos voltaram a ser liberados.

"Sabíamos que haviam se radicalizado e que poderiam tentar viajar à Síria, mas não deram sinais de representar uma possível ameaça. Mesmo que tivéssemos informado à França, duvido que pudessem detê-los", disse na quarta-feira o porta-voz da procuradoria federal belga. "Salah era um jovem normal", disse o outro irmão Abdeslam, Mohamed.

Mohamed Abdeslam foi detido no sábado em Molenbeek, mas, depois de um interrogatório com um juiz, as autoridades decidiram libertá-lo na segunda-feira (16) sem acusações.  Na quarta-feira à noite, durante uma manifestação em solidariedade às vítimas dos atentados organizada no bairro belga, Mohamed colocou discretamente velas na residência da família.

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