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França

Nova geração de pais franceses quer mais igualdade na criação dos filhos

Segundo a União Francesa das Associações Familiares (Unaf), políticas públicas devem incentivar que a relação dos homens com seus filhos seja tão valorizada quanto a das mulheres.
Segundo a União Francesa das Associações Familiares (Unaf), políticas públicas devem incentivar que a relação dos homens com seus filhos seja tão valorizada quanto a das mulheres. LIONEL BONAVENTURE / AFP

Um estudo da União Francesa das Associações Familiares (Unaf) surpreendeu o país a alguns dias do Dia dos Pais, que será comemorado neste domingo (19) na França. Mais de oito entre cada dez entrevistados se dizem mais envolvidos que seus próprios pais na criação dos filhos. Um a cada dois pais participantes da pesquisa se sente desvalorizado em relação às mães.

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De acordo com a Unaf, a questão do papel dos pais nas famílias "se tornou uma reflexão importante na sociedade atual". Segundo a organização, os novos pais franceses são mais atentos à criação dos filhos. Segundo o estudo, políticas públicas devem incentivar que a relação dos homens com seus filhos seja tão valorizada quanto a das mulheres.

A Unaf ressalta que a noção de "novos pais" surgiu a partir dos anos 1980, a partir de quando o modelo do pai "amoroso, afetuoso e presente" começou progressivamente a se impor na sociedade. Os movimentos que reivindicam a igualdade entre os sexos e a entrada massiva das mulheres no mercado de trabalho contribuíram para a legitimação dessa nova figura paternal.

No entanto, uma sociedade ainda regida por um sistema datado impede que essa divisão das tarefas em relação aos filhos possa evoluir. Na França, um homem pode tirar apenas 11 dias de licença-paternidade (18 dias, em caso de nascimentos múltiplos). A mulher pode se beneficiar de até seis semanas antes do parto e dez semanas após o nascimento do bebê. Em muitos países europeus, sobretudo os nórdicos, o próprio governo estimula os homens a aproveitarem a licença, que dura, geralmente, cerca de dois meses. No Brasil, no último mês de março, a presidente Dilma Rousseff sancionou uma lei estendendo a licença-paternidade de cinco para 20 dias.

"Uma questão de geração"

O engenheiro de pesquisa e desenvolvimento Benoit Gadreau é pai de Mia, de 1 ano e 4 meses, e a mulher espera mais um bebê. Para ele, a mudança na criação dos filhos "é uma questão de geração". "Talvez estejamos mais disponíveis e sejamos mais abertos para educar os filhos do que eram nossos pais", avalia.

Além disso, Gadreau nota que a sociedade, como um todo, mudou. "As mulheres trabalham mais hoje, o espaço da mulher no mercado de trabalho é mais importante atualmente. Minha mãe, por exemplo, trabalhava em horários mais flexíveis que meu pai. E ela tinha também mais vontade de passar tempo com os filhos. Afinal, o papel do homem dentro da vida do casal também era diferente", nota.

Isso não quer dizer que a divisão de tarefas seja igual hoje entre homens e mulheres na França. Gadreau admite que sua esposa faz "sempre um pouquinho mais" que ele dentro de casa. "Não que seja uma iniciativa dela ter mais responsabilidades em casa ou minha vontade de ter menos. Mas acho que isso ainda faz parte do fenômeno social em que a mulher desempenha mais tarefas em casa. Entretanto, posso dizer que repartimos bem as obrigações e esse sistema funciona bem entre nós", ressalta.

Mais tempo com a família

O engenheiro Adrien Bernhardt é pai de Tjio, de 10 meses. Para poder passar mais tempo com a família, ele resolveu começar seu turno às 7h, três horas antes do horário padrão de trabalho dos franceses.

Bernhardt não vê uma grande diferença atualmente na importância dada ao papel da mãe e do pai nas famílias, mas acredita que a Justiça da França ainda tende a tomar decisões em prol das mulheres quando a questão é a guarda dos filhos. O assunto também é avaliado no estudo da Unaf: 54% dos pais entrevistados acreditam que são desfavorecidos pelo sistema judiciário francês, em caso de ruptura conjugal. Bernhardt se questiona se esse medo de perder a guarda do filho não é um sinal de que hoje os pais franceses têm uma relação mais forte com seus filhos.

Para ele, não há dúvidas: "quero me envolver mais na educação de Tjio do que meu pai se envolveu comigo. Eu e meu pai nunca fizemos esporte ou qualquer outra atividades juntos", sublinha, lembrando que a geração anterior, de fato, passava menos tempo com os filhos.

A psicóloga franco-brasileira Natália Alves de Souza explica que é natural nas famílias que os filhos queiram "guardar o que é bom e modificar o que não os agrada". Para ela, essa é uma questão de "reconstrução pessoal", que revela a necessidade de não reproduzir um esquema pré-estabelecido e da vontade de investir de forma mais pessoal na paternidade. "Aquele filho cujo pai não ajudava nos deveres vai restabelecer um equilíbrio pessoal fazendo justamente o inverso. Esse novo pai vai fazer os deveres com seu filho porque aquilo é algo que o completa e faz bem para ele", explica.

Evolução do papel da paternidade no Brasil depende da família

No Brasil, um maior envolvimento dos pais na criação dos filhos acontece um pouco mais lentamente que na França. Para o professor e pesquisador Lucas Mello Schnorr, pai de Sara, de 4 anos, a evolução da paternidade depende da família. "Minha percepção geral seria que há uma mudança, mas ainda tem resistência em algumas famílias, dependendo do histórico familiar, nível sócio-educacional, entre outros".

Para ele, tradicionalmente, no Brasil, ainda há um maior envolvimento das mães na criação dos filhos, uma tradição de responsabilidade tanto dos homens quanto das mulheres nos casais. "O pai tem que estar realmente determinado a mudar. Entre os meus amigos com filhos pequenos, uma boa parte põe a mão na massa na criação das crianças. Alguns, no entanto, ainda não trocam fraldas, por exemplo", diz.

Não é o caso de Schnorr, que tem a meta de participar ativamente da vida e da educação de Sara. "Sou eu que a levo à aula de ginástica olímpica e fico com ela o tempo todo", ressalta. Um papel que, segundo ele, "é completamente diferente daquele do meu pai", reitera.

Igualdade na educação dos filhos no Brasil ainda não é uma realidade

Segundo a psicóloga franco-brasileira Julia Thomé Bensoussan, a participação da educação dos filhos no Brasil tende cada vez mais a se igualar entre mulheres e homens, mas essa ainda não é uma realidade. "Ainda há a mentalidade de muito pai brasileiro que esse maior envolvimento demonstra uma ajuda à mãe. Como se ele estivesse fazendo um favor à esposa e como se educar seu próprio filho não fizesse parte da responsabilidades do homem", exemplifica.

No entanto, os pais brasileiros têm tradicionalmente uma relação mais forte com os filhos, ressalta. "O relacionamento entre pais e filhos franceses não é tão próximo e tão íntimo como os dos pais brasileiros. Tem uma questão cultural que separa a paternidade e a maternidade na França do Brasil. As mães e os pais franceses são, sem dúvidas, mais distantes de seus filhos do que observamos nas famílias brasileiras ", diz.

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