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Brasil/Economia/Paris

Brasileiros em Paris encontram na gastronomia uma boa fonte de renda

A jornalista Rafaela Sabbá comanda o restaurante Do Brasil, em Paris.
A jornalista Rafaela Sabbá comanda o restaurante Do Brasil, em Paris. Sâmar Razzak/RFI

Os brasileiros que moram em Paris não podem reclamar de ficar com vontade de comer os pratos típicos da pátria-mãe. Mesmo que feijoada, coxinha ou brigadeiro passem longe da gastronomia francesa, muitos que escolheram a capital francesa como novo lar acabaram por encontrar uma boa fonte de renda graças à saudade dos conterrâneos.

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A maior parte dos que se aventuram na cozinha em Paris tinha outras ocupações quando vivia no Brasil. Trocar de profissão na França, para alguns, foi sinônimo de abraçar uma oportunidade que apareceu. Para outros, foi antecipar um projeto antigo de se dedicar ao que realmente ama: a culinária.

A paulistana Mariana Strohibri foi um desses casos. Formada em relações internacionais, ela só se deu conta de que era mesmo a cozinha sua paixão quando percebeu que mais da metade dos livros de sua biblioteca eram relacionados à gastronomia. Há 11 anos em Paris, ela veio trabalhar em sua área de atuação, relações internacionais. “Mas tempos depois eu percebi que não era aquilo que eu queria. Um dia eu sonhei que tinha aberto uma brigaderia e fui amadurecendo a ideia. De sonho, virou hipótese, até virar um projeto de verdade”, conta.

Depois de fazer muitos testes - e distribuir brigadeiros pela vizinhança para descobrir se o doce agradava ao paladar dos franceses - Marina conseguiu chegar à receita certa. Hoje, a Brigaderie de Paris já está estabelecida, com uma e-shop e realizando muitos eventos privados. E, diferentemente do que muita gente imagina, a maior parte da clientela é formada por franceses.

Os brigadeiros que produz são gourmets: Marina não utiliza chocolate em pó e propõe o doce em 22 sabores diferentes, do tradicional meio amargo ao brigadeiro de creme brulé, de cachaça ou calvados.

Paralelamente à brigaderia, Marina ainda trabalha como chef a domicílio - sempre fazendo pratos brasileiros - e promove sessões de integração para profissionais que vão se mudar para o Brasil por motivos de trabalho. “Promovemos essa integração cultural através da culinária, apresentando as nossas diferenças e riquezas gastronômicas”, conta.

Chef mistura gastronomia brasileira e especiarias internacionais

A antropóloga Joana Carvalho também encontrou na gastronomia sua verdadeira paixão. Em Paris há seis anos, ela exerce diferentes atividades ligadas à cozinha: chef a domicílio, participação de vendas de menus em sites de gastronomia, realização de eventos, além de fotografar cozinheiros e seus pratos. A diferença do trabalho desenvolvido por Joana é que, além de manter a cozinha brasileira na base, ela brinca com ingredientes e a culinária internacional, construindo a fusion food brasileira.

“Claro que há ingredientes que vou sempre usar e sempre farão parte do meu arsenal básico de referências. Mas eu não tenho vontade de ficar só fazendo a cozinha brasileira clássica, tradicional. Tenho vontade de misturar nossa farofa com as especiarias indianas, por exemplo. Fazer releituras”, explica.

Entre seus clientes, Joana lista os brasileiros saudosistas da comida de casa mas também muitos estrangeiros interessados em experimentar uma proposta gastronômica diferenciada. “Tenho muitos clientes estrangeiros, não apenas franceses, que querem experimentar uma cozinha criativa, com um sotaque brasileiro mas que misture ingredientes de várias partes do mundo.”

Tapioca cai no gosto dos franceses

Nunca passou pela cabeça do artista plástico pernambucano Becco Cabral se aventurar pelo mundo da gastronomia. “Sempre gostei de cozinhar, mas não me imaginava fazendo isso como um negócio”, conta. Há dois anos surgiu a Cantine Tapioca, um serviço especializado em vender massa para fazer tapioca 100% artesanal e sem aditivos químicos. “A Patrícia Gonçalves, minha sócia, sempre reunia amigos na casa dela e servia tapioca. Todo mundo enlouquecia. Até que um dia resolvemos fazer disso um negócio”, relembra.

Eles produzem a farinha como os índios brasileiros: a mandioca é ralada, depois espremida para chegar a um produto totalmente natural. “Nossa farinha não tem nada a ver com essas industrializadas, que são lavadas a exaustão e que, dali, não sobra quase nenhuma fibra. A nossa é mandioca pura”, diAlém da venda de farinha - que é feita pelo Facebook - os sócios realizam eventos onde servem as tapiocas prontas e já recheadas. O próximo passo é abrir uma cantina e vender o produto já finalizado para os clientes.

Atualmente, a clientela dos sócios é dividida entre brasileiros e franceses. “Temos muitos casais franco-brasileiros como clientes. Eles acabam fazendo propaganda para os amigos e a clientela de franceses tem crescido”, explica.

Para ele, o fato de utilizar produtos orgânicos e os benefícios para a saúde da tapioca têm feito com que o produto caia no gosto dos franceses. “Trata-se de um produto 100% natural, orgânico, artesanal e sem glúten. Quando eles descobrem isso, adoram”, diz.

Brigadeiro para o paladar francês

As amigas Tatiana Nunes Gregório e Andrea Gomes Ferrão estão em Paris há pouco mais de um ano e queriam encontrar uma atividade que gerasse renda e fosse gratificante. Ambas são administradoras de empresas e amam cozinhar. Elas usaram os conhecimentos administrativos que tinham nas respetivas áreas de atuação e abriram, há seis meses, a Petite Brigaderie.

O trabalho começou a partir de pesquisas, para adaptar o doce ao gosto francês. “Nosso brigadeiro tradicional é muito doce para os franceses. Então adaptamos nossa receita para um brigadeiro feito com chocolate meio amargo e hoje ele agrada franceses e os brasileiros que vivem aqui, que já mudaram um pouco o paladar”, conta Andrea.Elas oferecem seis tipos de brigadeiro, que variam de acordo com a cobertura: pistache, paçoca, crisps, coco e castanha de caju, além do tradicional, com chocolate granulado. As vendas são feitas por encomendas, a partir de uma página que elas criaram no Facebook. “Mas nosso sonho é, em breve, poder abrir uma pequena butique”, afirma Tatiana.

Pastel com caldo de cana em Paris

Cristiane Ribeiro dos Santos chegou em Paris há 12 anos. Em Londrina, ela trabalhava como caixa e garçonete em restaurantes e resolveu fazer a mesma coisa na França. Por anos ela trabalhou em bares e restaurantes e a ideia de fazer comida surgiu por acaso. “Quando minha mãe vinha me visitar, ela queria aproveitar o tempo livre que tinha para fazer alguma coisa. Daí pensamos que ela poderia fazer coxinhas. Criei uma página no Facebook para ela e as encomendas começaram a parecer. Ela fazia e eu entregava depois do trabalho”, relembra.

Mas, depois que a mãe voltava para o Brasil, o projeto adormecia. No entanto, como a aceitação era boa, Cristiane decidiu levar adiante a atividade. “Percebi que já havia muita gente que fazia coxinha. Foi aí que pensei no pastel, que não tinha em lugar nenhum”, conta.

Hoje, ela tem uma barraca na feira de Alforville (região metropolitana de Paris) onde vende pastel, coxinha, caldo de cana e guaraná. A barraca fica lotada toda semana, principalmente de brasileiros saudosos do típico café da manhã de feira que muitos costumavam a ter aos domingos. É o caso de Keila Batista, que vai todos os domingos comer pastel na barraca de Cristiane. “É nosso ponto de encontro. Todo domingo estamos aqui para comer pastel e matar a saudade do Brasil”, conta.

Além do pastel, Cristiane também vende a massa para quem quiser preparar o produto em casa. Falar com ela durante a feira é quase impossível. Ela coordena o trabalho de duas funcionárias e uma das filhas, que também ajuda nos negócios. “É uma correria, mas eu adoro. Ali me sinto em casa e consigo esquecer um pouco do estresse de viver fora do país da gente”, diz.

Moqueca e feijoada são os pratos brasileiros prediletos dos franceses

A jornalista paraense Rafaela Maia Sabbá veio para Paris por amor. Ela conheceu o marido ainda no Brasil e, cansada de manter um relacionamento a distância, optou por vir para a França e mudar completamente de vida. Depois de ter sua primeira filha, ela queria voltar a trabalhar e acabou encontrando uma oportunidade num restaurante brasileiro na capital. “Algum tempo depois, surgiu a oportunidade de comprar o lugar e eu resolvi encarar o desafio”, relembra.

Hoje, o Do Brasil vende produtos brasileiros e propõe pratos diferentes para cada dia da semana: picanha, moqueca, feijoada... “O prato predileto dos franceses é a moqueca. A feijoada já é mais exótica, mas também tem uma boa aceitação”, conta. A maioria dos clientes são franceses. “Os brasileiros vêm mais para comprar os produtos brasileiros”, afirma.

E os planos da empreendedora não param por ai. A partir de julho, na parte da tarde, o restaurante vai virar uma tapiocaria, com opções doces e salgadas. “Aposto que as tapiocas farão sucesso entre os franceses, como o açaí, que é muito apreciado”, afirma
 

 

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