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Meio Ambiente

França tenta melhorar índice de apenas 15% dos celulares reciclados

Áudio 05:30
Muitos telefones hoje não são desmontáveis ou têm o conserto difícil, uma prática que o Senado francês quer impedir.
Muitos telefones hoje não são desmontáveis ou têm o conserto difícil, uma prática que o Senado francês quer impedir. REUTERS/Eduardo Munoz/Files

Anfitriã do histórico Acordo de Paris sobre as mudanças climáticas, a França tenta melhorar a performance da reciclagem do lixo, um campo em que o país ainda faz feio na comparação com os vizinhos do norte da Europa. Uma comissão do Senado investigou toda a trajetória dos telefones celulares no país e concluiu que apenas 15% dos aparelhos são reciclados corretamente.

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Os maus hábitos influenciam toda a cadeia de fabricação: como os metais usados nos telefones não são recuperados e reutilizados, as minas de produção são exploradas à exaustão. Elas se encontram principalmente em países em desenvolvimento e costumam operar em condições ambientais e sociais distantes do recomendado.

“Em um telefone, há 40 tipos de metais e minerais, dos quais alguns são altamente tóxicos e outros são extremamente preciosos”, afirma a senadora Marie-Christine Blandin, que coordenou a apuração. “E entramos em outro problema: eles não são muito fáceis de serem retirados. São necessárias tecnologias de ponta, com instalações metalúrgicas pesadas.”

A senadora constata que a França não investiu o suficiente em usinas de reciclagem capazes de extrair os metais. Por isso, os celulares vão parar no mesmo lugar que eletrodomésticos comuns, como secadores de cabelo, embora tenham uma composição completamente diferente, mais sofisticada. Além de dar um fim menos poluente para o material, a cadeia poderia estimular uma nova atuação industrial: uma placa eletrônica contém ouro, platina, prata e cobre, entre outros metais, enquanto a bateria é rica em lítio e cobalto.

Falta de informação prejudica a reciclagem

Blandin afirma que até em um país desenvolvido como a França, ainda falta muita informação sobre o que o consumidor deve fazer com o celular velho. O relatório estima que 100 milhões de telefones estão guardados no fundo da gaveta dos franceses.

“Algumas pessoas pensam que elas poderão voltar a usar esses celulares um dia, mas a rede mudou, passou de 2G para 3G e assim por diante. Os conectores não são mais os mesmos, as baterias estão gastas”, indica a senadora. “Além disso, as pessoas têm dúvidas sobre os seus dados pessoais, as fotos, mensagens e contatos guardados no aparelho. Poucos sabem que existem programas muito eficientes para deletar todos esses dados, garantindo a confidencialidade.”

Prioridade: forçar mudanças na fabricação e no modo de consumo

Além de combater o desperdício e a poluição, o relatório também recomenda a adoção de regras mais rígidas para a importação de telefones. A sugestão é apertar o cerco contra os aparelhos que não sejam desmontáveis e tenham a bateria colada, uma estratégia das marcas para estimular cada vez mais o consumo.

Outra medida proposta é passar de dois para quatro anos o período de garantia dos celulares, para que eles sejam usados por mais tempo.

Reciclagem ajuda desempregados e crianças doentes

A mudança dos costumes também pode ter um efeito inesperado: ajudar a quem precisa. A organização Eco-Systèmes tem uma rede de 4 mil pontos de coleta de celulares em toda a França. Os aparelhos são consertados por trabalhadores desempregados e revendidos no mercado. Os fundos são reinvestidos em projetos sociais.

“Muito poucos telefones vão para o lixo: o que acontece é que eles ficam guardados num canto. O celular virou o queridinho dos franceses”, explica o diretor Guillaume Duparay. “É uma relação muito forte com o objeto, ao ponto que quando eles compram um telefone novo, eles não jogam o velho fora por causa dos dados e com medo de um dia o novo dar algum problema.”

Outra iniciativa é a associação Pour la Vie (“Para a Vida”). Há 11 anos, a entidade recolhe telefones antigos e, com o dinheiro, financia “o sonho” de uma criança portadora de uma rara doença degenerativa, distrofia de Duchenne. Quarenta crianças já foram beneficiadas com viagens, presentes e tantos outros desejos.

“Alguns telefones vão diretamente para a destruição e a reciclagem, porque são muito antigos e obsoletos. Esses não nos rendem nada. Mas outros podem ser revendidos e terão uma segunda vida”, relata o presidente da entidade, Pascal Laurie. “O desafio é motivar as pessoas a fazer esse gesto que é não somente ecológico, como solidário, ao permitir a uma criança realizar um sonho. Isso não tem preço.”

 

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