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França/drogas

Saiba como funciona a sala de consumo seguro de drogas em Paris

Recepção da sala de consumo seguro de drogas em Paris, situada no hospital Laboisière, no 10° distrito
Recepção da sala de consumo seguro de drogas em Paris, situada no hospital Laboisière, no 10° distrito (Foto: Taíssa Stivanin/RFI)

Espaço inaugurado no 10° distrito de Paris é o primeiro da França destinado ao consumo seguro de drogas injetáveis. Iniciativa

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O portão de ferro sem placa ao lado do hospital Laboisière, atrás da estação Gare Nord, no 10° distrito de Paris, passa desapercebido. Apenas os pedestres mais atentos vão notar nas janelas dos prédios da frente cartazes pendurados com os dizeres “Non à la salle de shoot” (Não às salas de consumo de drogas, em tradução livre).

Nesta terça-feira (11), depois de anos de protestos da vizinhança, que temia um aumento do tráfico de drogas na região, a prefeitura de Paris finalmente conseguiu inaugurar um centro dedicado aos usuários de drogas injetáveis em situação precária. Uma batalha do Partido Socialista que tem a oposição dos partidos franceses de direita: eles acusam o govenro municipal de não propor um tratamento para os toxicodependentes que queiram deixar o vício.

Material descartável para injeção
Material descartável para injeção (Taíssa Stivanin/RFI)

Falso. Nesse local de 450m2, que custará cerca de € 1,2 milhão por mês, os usuários de drogas injetáveis serão recebidos e orientados para realizarem suas injeções com segurança, mas também terão um psiquiatra à disposição, caso queiram abandonar o vício.

Sob a supervisão da associação Gaia, que desde 1989 percorre as ruas de Paris em uma van distribuindo seringas e informação, a sala deverá receber cerca de 150 pessoas entre 13h30 e 20h30. A meta é receber 150 usuários por dia. Um dos principais produtos utilizado em Paris e na França é a metadona, opiáceo de ação prolongada usada principalmente no tratamento contra a dependência química da heroína e outras substâncias.

Na sala, um protocolo foi instaurado para ajudar os dependentes: na entrada, eles não são obrigados a se identificar, mas, na primeira vez, respondem apenas a um questionário, que vai guiar a equipe em relação às suas necessidades. O atendimento é anônimo e aberto a todos, inclusive imigrantes clandestinos. Os usuários, autorizados a trazer sua própria droga, recebem então uma senha. Antes do consumo, lavam as mãos e injetam o produto com a inspeção de dois profissionais da área médica. Eles não interferem no ato em si, mas podem explicar ao dependente tecnicamente como executá-lo.

O objetivo: evitar infecções e overdoses. O centro trabalha diretamente em parceria com o hospital, explica o supervisor da sala, José Matos. No caso de uma emergência médica, o dependente terá pronto atendimento. Na sala também foi instalado um consultório, onde os usuários poderão consultar um médico e ter orientações sobre os riscos de contrair doenças como HIV ou hepatite C, comuns entre dependentes de drogas injetáveis.

Criar uma relação com o usuário

O serviço, que segue as regras das políticas públicas de redução de danos, vai além, especifica Matos. “Nosso objetivo é criar uma relação com as pessoas que atendemos e conhecer seus hábitos. Se ele estiver em risco de vida, a ideia é acompanhar o usuário e convencê-lo a protelar sua próxima injeção. Mas não impedir, senão ele fará fora do centro”, explica. Outro objetivo é convencer paulatinamente a substituição da injeção pela inalação, menos perigosa para a saúde.

Para criar essa relação de confiança, a estrutura também conta com uma sala de repouso e uma biblioteca, onde usuários e equipe, diz Matos, podem “tomar um café, conversar, trocar ideias”. Em um local contíguo, um ateliê também está à disposição dos dependentes que queiram se dedicar a atividades artísticas com materiais reciclados. “A maioria deles está desempregada e representa a parcela mais marginalizada da sociedade. É uma maneira de ocupá-los de forma produtiva”, explica Matos. Se houver uma demanda maior do que a esperada? “Não teremos outra solução a não ser ampliar o serviço”, explica.

Experiência de seis anos

A sala, que deve abrir na próxima semana, deve funcionar num primeiro momento durante seis anos. De acordo com o secretário da Saúde da prefeitura de Paris, Bernard Jomier, trata-se de uma etapa importante na política de saúde pública da prefeitura.

“Existe uma categoria de usuário muito precária, marginalizada, que se injeta na rua e não tem capacidade de seguir um tratamento de substituição”, diz. “Em um bairro onde está instalada uma sala de consumo seguro, a situação em geral melhora. Há mais de cem cidades no mundo que adotaram a iniciativa e isso foi provado: diminui o número de usuários na rua e de seringas encontradas no chão.”

Paris abre primeira sala de consumo de drogas na França
Paris abre primeira sala de consumo de drogas na França REUTERS/Patrick Kovarik/Pool

O projeto, que data de 1998, demorou para ser implantado por conta de uma “polêmica política desnecessária”, observa Jomier. “Não temos escolha: ou abandonamos as pessoas mais necessitadas e marginalizadas no meio do caminho, ou tomamos conta de todos, ajudando aqueles que estão em extrema dificuldade. Progressivamente os habitantes do bairro entenderam que era preciso dar uma chance à sala, que pode melhorar a situação dessas pessoas. São cidadãos de nossa cidade, que podem e devem ter direito a uma inserção”, declara.

Mesmo assim, nada garante a continuidade do projeto. Se nos próximos anos a direita toma o poder na prefeitura de Paris, nada garante que o centro continuará em funcionamento. Em nível regional, já houve o corte de diversos subsídios à política de redução de danos, que diminuiu comprovadamente os casos de contaminação por HIV. “Espero que haja bom senso, mas uma mudança de governo pode afetar o projeto”, declara. Um projeto similar está em andamento em Estrasburgo, que trabalhará em parceria com a prefeitura parisiense.
 

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