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"Dúvidas sobre Trump são muitas", diz Hollande em entrevista exclusiva

Presidente François Hollande e jornalistas durante entrevista exclusiva em Marrakech, no Marrocos, durante a COP 22
Presidente François Hollande e jornalistas durante entrevista exclusiva em Marrakech, no Marrocos, durante a COP 22 RFI

Uma semana depois da vitória do republicano Donald Trump na eleição presidencial americana, o chefe de Estado francês, François Hollande, concedeu sua primeira entrevista, com exclusividade, para jornalistas da RFI, TV France 24 e TV5MONDE.  

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Foi em Marrakech, durante a 22ª Conferência da ONU sobre o Clima (COP 22), que François Hollande conversou com os jornalistas Christophe Boisbouvier (RFI), Roselyne Febvre(France 24) e Patrick Simonin (TV5MONDE). Sem fazer nenhuma declaração impactante, o presidente respondeu a todas as perguntas com segurança e um discurso moderado. Diversos temas foram abordados, desde Trump e Rússia à tendência protecionista no mundo, passando pelos grandes conflitos internacionais e a política interna.

"Quando temos uma economia fraca, não podemos ter uma diplomacia forte"

O momento de maior convicção durante a entrevista, que durou 34 minutos, foi ao abordar a tendência protecionista atual, quando indagado se a vitória de Trump não seria uma demonstração da ascensão do populismo, e se essa onda não poderia afetar a França.

"É preciso tentar entender o que aconteceu nos Estados Unidos, como o que também aconteceu no Reino Unido com o Brexit. Há uma tentação protecionista e de isolamento em alguns países. Mas, nesse caso, não se trata de um país qualquer, estamos falando dos Estados Unidos, a primeira potência econômica mundial, no continente que mais lucra com a globalização, o que mostra o paradoxo da situação. Mesma coisa no Reino Unido, que nos diziam ter uma economia dinâmica, com um mercado financeiro resplandecente, e que também escolheu, de uma certa maneira, se isolar, ao decidir deixar a União Europeia. Então, essa tendência existem em todos os países europeus e desenvolvidos", disse Hollande.

O presidente confirma que a França não escapa dessa tendência: "Eu sei disso e eu vejo que há algumas famílias políticas, como a Frente Nacional, de extrema direita, que querem que os franceses se fechem para o mundo".

Deixando claro que não está dizendo que as fronteiras não devem ser controladas, Hollande pensa que não se deve ter um olhar inocente diante da globalização, o que colocaria a França em uma posição de irresponsabilidade e impotência.

Ele defende para o país um futuro que não seja o do isolamento, mas o da abertura, a partir da conquista de mercados e da divulgação da cultura francesa pelo mundo. "Eu acho que nós devemos nos colocar numa ótica de reforçar nossa excelência produtiva, pois isso é o essencial. Eu não quero uma economia fraca. Quando temos uma economia fraca, não podemos ter uma diplomacia forte".

Trump: a grande interrogação

No dia seguinte à vitória de Donald Trump, o presidente francês declarou que se abria uma era de incerteza. Os dois homens se falaram pelo telefone pouco depois, e a jornalista Roselyne Febvre perguntou a Hollande o que ele sentiu quando desligou.

Lembrando que Trump foi eleito e isso é um fato, fruto de uma votação democrática, Hollande confirmou que as posições do magnata durante sua campanha eleitoral foram perturbadoras, inclusive sobre a questão do clima. Mas lembrou que França e Estados Unidos são aliados de longa data e querem continuar sua cooperação em muitas áreas, o que será decidido quando Trump assumir suas funções.

"Um ponto ficou claro entre nós: que a luta contra o terrorismo deve ser o objetivo comum. Sob esse aspecto, os americanos sempre foram parceiros e isso vai continuar", disse Hollande, ressaltando que o Acordo de Paris é irreversível sob o ponto de vista jurídico e que foi ratificado pelos Estados Unidos. "Se eles quiserem voltar atrás vai ser muito longo, mas eles também podem decidir não respeitar", observou, lembrando que é o futuro do planeta que está em jogo. "Seria desfavorável para o planeta, e muito ruim para os Estados Unidos. Quando se trata de clima, todo mundo está envolvido. Quero crer que Donald Trump vai tomar as decisões que não são exatamente as que ele anunciou durante sua campanha. Sei que ele é protecionista, mas se não pode intercambiar com o resto do mundo, as primeiras vítimas serão as empresas americanas", afirmou o presidente.

Trump, Putin e a Europa

Durante sua polêmica campanha eleitoral, marcada por uma avalanche de críticas a acordos e instituições, Trump afirmou que a Otan - a Organização do Tratado do Atlântico Norte - é um órgão ultrapassado. Sobre isso, Hollande foi enfático: "Os Estados Unidos são membros da Otan, eu não tenho nenhuma dúvida de que vão continuar nessa aliança e nessa segurança comum".

A eleição de Trump, que nunca escondeu sua simpatia pelo presidente russo Vladimir Putin, poderia criar uma tensão no seio da Europa? - perguntou o jornalista da RFI.

"Que Trump fale com Putin, não me choca, ao contrário, ele deve falar com Putin, eu devo falar com Putin, Angela Merkel [chanceler da Alemanha] deve falar com Putin. Quantos dias e até quantas noites passamos falando com ele sobre a Ucrânia, a Síria...Temos interesses comuns com a Rússia na busca de soluções para resolver o conflito na Síria, por exemplo, para que os Acordos de Minsk negociados com Putin, Merkel e o presidente ucraniano Porochenko possam ser aplicados, a luta contra o terrorismo... O erro seria achar que a França tem que ceder a Vladimir Putin. Por que? Em nome de que?" - se interroga Hollande.

"Há dúvidas sobre Trump, e elas devem ser esclarecidas"

François Hollande admite que é grande o questionamento sobre como o presidente eleito vai se comportar diante de tópicos relevantes da atualidade.

"Temos dúvidas sobre o acordo sobre o clima, o acordo com o Irã, a posição de Putin em relação à Ucrânia, a Síria, a luta contra o terrorismo, e também sobre os valores que devemos defender juntos", enumera o presidente.

Sobre a Síria, ele defende uma solução militar contra o grupo Estado Islâmico e uma solução política com o presidente Bachar al Assad. Sobre o Irã, Trump rejeita o acordo, que considera nulo. Assinado em julho do ano passado, o documento tem o objetivo de assegurar que o programa nuclear iraniano não tenha um caráter militar e seja exclusivamente pacífico, em troca da retirada das sanções internacionais que afetam a economia do país. O texto autoriza Teerã a prosseguir com o programa nuclear civil e, por consequência, abre o caminho para uma normalização da presença do Irã no cenário internacional.

Sobre o fato de Trump ter dito que rasgaria o acordo, Hollande é enfático: "A ausência de acordo seria mais grave".

A Defesa na Europa também foi questionada. François Hollande acha que o continente não faz o suficiente e é preciso garantir o essencial de sua segurança. "Não existe um continente que possa proteger seus cidadãos se ele não puder assumir a sua própria defesa".

"Estado de emergência continua na França"

A preocupação com os jihadistas franceses que podem voltar à França para preparar atentados também é grande. Eles são cerca de 600, que podem se infiltrar. O mesmo pode acontecer com os refugiados acolhidos no país. "Sim, eu quero prolongar o estado de emergência até a eleição presidencial de 2017", informou o chefe de Estado, enfatizando que a França está em guerra no Iraque, na Síria e no Mali.

Sobre a política interna, e a intenção do seu ex-ministro da Economia, Emmanuel Macron, de se candidatar para as eleições do ano que vem, François Hollande respondeu calmamente: "O desafio é a união, a coesão. Se a esquerda não se unir, não conseguirá chegar onde quer. Se a França se dividir, se fragmentar diante de tantas ameaças, ela vai declinar".

A entrevista finalizou com a pergunta sobre as investigações sobre o assassinato em novembro de 2013, no Mali, de Ghislaine Dupont et Claude Verlon, jornalistas da RFI. "Todas as informações que temos, entregamos à justiça. A cada vez que nossos cidadãos são atacados, procuramos os culpados e os neutralizamos", concluiu o presidente francês.

 

 

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