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França

Como Paris enfrenta o pior pico de poluição dos últimos dez anos

Paris atingiu o pior pico de poluição dos dez últimos invernos nesta quarta-feira (7).
Paris atingiu o pior pico de poluição dos dez últimos invernos nesta quarta-feira (7). REUTERS/Philippe Wojazer

Como toda grande cidade, a capital francesa não é poupada da poluição. Nesta semana, o ar de Paris atingiu o pior índice de qualidade dos últimos dez invernos no hemisfério norte. Para lutar contra o problema, a prefeitura impôs um rodízio de veículos e limitou a velocidade nas principais ruas e rodovias na capital e em 22 municípios da região. Mas será que essa solução é eficaz? A RFI conversou com especialistas para avaliar o dispositivo.

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Na semana passada, organizações que monitoram a qualidade do ar na capital francesa lançaram o alerta: a poluição atingiu um nível alarmante na última sexta-feira (2). No início desta semana, a concentração de dióxido de nitrogênio e de partículas finas (superior a 80 microgramas/m3) piorou e tornou o ar da cidade irrespirável.

A origem do problema está no sistema utilizado para o aquecimento das residências no inverno - muitos parisenses ainda recorrem à queima de madeira em lareiras - e, principalmente, à circulação excessiva de veículos. A ausência de ventos nos últimos dias também contribuiu para impedir que as partículas poluentes circulem, piorando o problema.

Sistema de rodízio de veículos é criticado

Na terça-feira (6), a prefeitura de Paris decidiu recorrer ao sistema de rodízio de veículos - uma medida adotada pela quarta vez em vinte anos. Ontem, apenas carros com o último número ímpar puderam circular; nesta quarta-feira (7), é a vez dos números pares. A decisão foi estendida até, ao menos, quinta-feira (8), de acordo com as autoridades francesas.

Os transportes públicos e os estacionamentos nas ruas são gratuitos, assim como o serviço de aluguel de bicicletas e veículos elétricos. A velocidade está limitada a 20 km/h nas principais avenidas e rodovias na Île-de-France, a grande região parisiense.

Especialistas argumentam que o dispositivo não resolve o problema, já que a limitação da quantidade de veículos nas ruas implica em uma diminuição pouco significativa das emissões, de 15% a 20%. "A medida entrou em funcionamento muito tarde. Para que o sistema de rodízio traga resultados significativos, é preciso que ele seja adotado logo que o alto nível de poluição for detectado e não cinco dias depois, como foi o caso", diz o presidente da ONG francesa Écologie Sans Frontière, Franck Laval.

Muitos motoristas da capital francesa não gostaram da ideia de deixar seus carros em casa e ter que utilizar o transporte público para ir ao trabalho. Outros reclamam que o sistema de placas para limitar a circulação nem sempre atinge os veículos mais poluentes. Por isso, a partir de janeiro, um novo projeto entrará em funcionamento e proibirá automóveis anteriores a 1997 de circular de segunda-feira a sexta-feira durante o dia.

Poluição é um problema cotidiano

De acordo com Laval, o problema é frequente na capital francesa, mas as autoridades só se mobilizam quando a situação chega ao limite. "É preciso que a poluição cotidiana seja combatida. Para termos uma ideia, em 2014, o desrespeito das normas da qualidade do ar impostas pela Organização Mundial da Saúde foi registrado em 100 dos 365 dias, ou seja, em um a cada três dias. Necessitamos de políticas que melhorem nossos transportes e que tornem mais limpos os veículos particulares e públicos", preconiza.

A questão, no entanto, encontra resistência na própria administração. Na terça-feira, a prefeita de Paris, Anne Hidalgo, criticou o Conselho Regional, que gerencia a Île-de-France por adiar a data limite para que o óleo diesel não seja mais utilizado em ônibus. O prazo máximo era 2025, mas foi estendido para 2029. "Todos argumentam que as soluções devem ser tomadas a longo prazo, e elas continuam a ser adiadas porque não trazem resultados imediatos. Mas se não tratarmos neste momento a questão das emissões dos veículos de forma permanente, nunca resolveremos os picos de poluição", afirma Laval.

Charlotte Songeur, engenheira de pesquisa da Associação de Monitoramento da Qualidade do Ar em Île-de-France (Airparif), defende o sistema de circulação seletiva de veículos. Segundo ela, durante o pico de poluição registrado em 2014 na capital francesa, o rodízio diminuiu em 18% a concentração de partículas finas.

Songeur lembra que 1,6 milhão de habitantes da região metropolitana em Paris estão expostos a um ar de má qualidade. Portanto, para a Airparif, o dispositivo colocado em prática há dois dias não pode ter seus resultados minimizados. Entretanto, a engenheira concorda que os picos de poluição são tão perigosos para a saúde quanto a poluição cotidiana. "Vemos menos os efeitos da poluição crônica, que é mais fraca, mas que são mais fracos, mas aumentam com a exposição frequente. Por isso é preciso trabalhar para reduzir as emissões de forma contínua", diz.

Riscos para a saúde

Quatro poluentes atmosféricos são particularmente perigosos para a saúde: as partículas finas (PM10 e PM2,5), o dióxido de nitrogênio, o monóxido de carbono e o ozônio. A lista de doenças que essas emissões podem causar é longa: bronquite crônica, asma, câncer do pulmão, acidente vascular cerebral, enfarte do miocárdio ou ainda, nas mulheres grávidas, problemas na placenta. Calcula-se que a poluição resulte, a cada ano, em cerca de 42 mil mortes na França e 386 mil na Europa, de acordo com estudos da Comissão Europeia.

Segundo o pneumologista Gilles Dixsaut, da Fondation du Souffle, organização que combate doenças respiratórias, "os picos de poluição aumentam a ocorrência de doenças respiratórias e cardiovasculares de 24 horas a cinco dias após seu registro". Sobre este episódio em particular que vive a capital francesa, Dixsaut teme que o número de doentes se agrave devido ao frio e a uma onda de gastrointerite que atinge a França. O especialista também ressalta que as crianças são a população mais sensível à exposição aos poluentes, o que justifica a multiplicação de casos de bronquites agudas nos pequenos franceses.

Além disso, para o pneumologista Patrick Ruffin, as regiões metropolitanas vem apresentando uma nova problemática, que se tornou um desafio para os pesquisadores na questão. "Fazemos os estudos sobre os prejuízos dos poluentes separadamente. Mas o grande perigo da poluição nas cidades atualmente é que se descobriu que os poluentes estão interagindo uns com os outros, tornando-os ainda mais perigosos", adverte.

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