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Política isolacionista de Trump abre oportunidade para França se aproximar da América Latina

François Hollande e a presidente do Chile, Michelle Bachelet, no mês passado
François Hollande e a presidente do Chile, Michelle Bachelet, no mês passado Reuters

A França volta novamente seus olhos para a América Latina, uma oportunidade criada com a chegada ao poder do presidente norte-americano Donald Trump, segundo analisa o cientista político Gaspard Estrada, em artigo publicado esta semana no jornal norte-americano The New York Times.

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"Embora a chegada de François Hollande à presidência não pressagiasse grandes mudanças, seu governo acabou imprimindo um giro em direção à política externa. Cinco anos depois se abre uma oportunidade histórica para que a França recupere a influência que teve há décadas na região e se converta em um importante sócio econômico, um ator político influente e, sobretudo, uma alternativa aos modelos que oferecem Estados Unidos e China”, escreve o diretor-executivo do Observatório Político da América Latina, do Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences Po).

Segundo ele, Trump, no afã de fechar fronteiras e construir muros, está contribuindo para criar pontes entre a França e a América Latina, em um momento em que existe una vontade presidencial de se aproximar da região. “A França está em uma boa posição para reforçar a curto e longo prazos essas pontes, a menos que as pesquisas voltem a se equivocar no próximo mês de maio e que os franceses elejam Marine Le Pen, a candidata da extrema direita, como presidente”, continua.

Estrada lembra que, em seu primeiro discurso na “conferência dos embaixadores” (reunião anual que fixa as prioridades da política externa), no final de 2012, o presidente francês mencionou apenas uma vez a região”, para dizer que “a França pesará no futuro do mundo reforçando seus laços com os países emergentes, da América Latina, da Ásia, da Oceania, da África e do Golfo Pérsico”. Para o cientista político, era um sinal de que “a tradicional ‘negligência benigna’ parecia continuar".

“Porém, poucos meses depois, vários presidentes da América Latina começaram a visitar o novo hóspede do Palácio do Eliseu. E Hollande, ao contrário de Nicolas Sarkozy, decidiu cruzar o Atlântico, com a vontade de evidenciar uma mudança na política externa”, continua o artigo.

Viagens de Hollande à América Latina

A viagem do presidente tinha três grandes objetivos. Buscava impulsionar os negócios das grandes empresas francesas que estão presentes há muito tempo na América Latina e que desejavam melhorar seu acesso aos líderes públicos e privados. Também conseguir a adesão dos países latino-americanos à conferência de Paris sobre as mudanças climáticas (COP 21), realizada em dezembro de 2015. E, por último, afiançar a importante rede educativa, de cooperação científica e cultural, que permitiu à França manter sua influência apesar da distância política.

“A soma dessas ações concretas traduziria essa ‘aproximação com a América Latina”, como o definiu o ex-ministro das Relações Exteriores, Laurent Fabius, en um discurso na Universidade Externado de Bogotá. Durante seus cinco anos de governo, o presidente Hollande visitou Brasil, México, Cuba, Peru, Argentina, Uruguai e, mais recentemente, Chile e Colômbia, realçando o diálogo político ao mais alto nível entre França e América Latina”, acrescenta Estrada.

O cientista político explica que, em Cuba e na Colômbia, o chefe de Estado francês, assessorado pelo ex-presidente do Senado, Jean-Pierre Bel, decidiu mostrar seu apoio ao processo de transição do regime cubano, assim como ao acordo de paz assinado entre o governo colombiano e as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), para fortalecer a presença francesa no debate político regional. “Embora o voluntarismo de Hollande tenha tido repercussões importantes, o tradicional desinteresse da alta hierarquia do Quai d’Orsay, sede do Ministério das Relações Exteriores, sobre os temas latino-americanos foi mantido.”

“O espaço dado à América Latina na política externa francesa foi tradicionalmente reduzido, apesar da evidente proximidade histórica, cultural e linguística. A atuação do ministério poderia ser explicada pela inexistência de guerras na região, pois a França, ao ser membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas, coloca seus esforços diplomáticos nas regiões em crise, como África e Oriente Médio. O ensimesmamento da América Latina em seus debates e a existência de uma relação particular com os Estados Unidos diminuía a possibilidade de tomar iniciativas políticas de relevância. Apesar do êxito da COP 21 e do aumento do diálogo político de alto nível, faltava um impulso político que desse mais força a essa iniciativa presidencial. ”

China ocupa espaço na região

Segundo Estrada, esse impulso apareceu com a eleição de Donald Trump. “A possível derrogação do Tratado de Livre Comercio de América do Norte provocou uma introspecção no seio da elite política e econômica mexicana, que até agora havia estado reticente em diversificar a matriz econômica do país. No resto da América Latina, o protecionismo defendido pela nova administração norte-americana causa perplexidade, em particular em países que viveram alternâncias políticas recentemente e que esperavam restabelecer uma relação privilegiada com os Estados Unidos para atrair capitais estrangeiros. ”

“Hoje em dia, esse espaço já foi ocupado, em boa medida, pela China. Trata-se do primeiro sócio comercial de países como Brasil, Peru e Chile e a terceira fonte de investimentos estrangeiros. No entanto, a chegada de produtos chineses de baixo custo fragilizou a indústria da região, gerando críticas a respeito do modelo de desenvolvimento 'Made in China'. A ausência de crescimento econômico, que alimenta a polarização política e social, faz com que essa mudança de paradigmas abra possibilidades para a França, seja através de iniciativas bilaterais ou ao nível da União Europeia.”

O cientista político questiona, então, o que deveria fazer o próximo governo francês. E responde: “Mais que nada, manter os ativos da política latino-americana atual, começando pelo diálogo político direto de alto nível e, ao mesmo tempo, continuar agregando a densidade política e econômica que falta”.

Para ele, a França deveria se posicionar contra a construção do muro entre México e Estados Unidos e se apresentar como uma terceira via entre EUA e China. “Ela teria que seguir presente nos grandes debates regionais, como a transição do regime em Cuba e o apoio ao processo de paz na Colômbia. ”

“No plano econômico, ela poderia encabeçar uma iniciativa no seio da União Europeia para destravar o tratado de livre comércio com o Mercosul, completar a modernização dos acordos comerciais bilaterais já existentes e pensar em outras formas de associação, para multiplicar os investimentos e o comércio. Através desses atos, a França poderia recuperar uma posição de liderança no seio da EU e, ao mesmo tempo, dividir com os demais países membros do bloco os custos inerentes a essa iniciativa.”

O cientista político finaliza dizendo que, na sua época, os presidentes Charles de Gaulle e François Mitterrand tomaram iniciativas políticas relevantes na região, que, apesar de sua importância, perderam impulso rapidamente. “Hoje há uma nova oportunidade. Esperemos que as iniciativas políticas de François Hollande não entrem, da mesma maneira, no baú da história, seja por desinteresse ou pela possível eleição de Marine Le Pen.”
 

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