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"A Frente Nacional é a anti-França", diz Macron em comício em Paris

Emmanuel Macron acena para o público em comício nesta segunda-feira
Emmanuel Macron acena para o público em comício nesta segunda-feira Reuters

A seis dias do segundo turno da eleição presidencial francesa, o candidato centrista Emmanuel Macron realizou nesta segunda-feira (1°), em Paris, um discurso histórico contra a extrema-direita francesa, representada pela sua adversária, Marine Le Pen, do partido Frente Nacional. Cerca de 12 mil pessoas compareceram ao evento, segundo a organização.

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A primeira parte do comício, batizado de “França Unida”, foi toda dedicada a alertar os franceses para o risco do programa anti-europeu, xenofóbico e racista da candidata.

“Vocês sabem, como eu, que eles estão aqui. Eles são nossos verdadeiros inimigos. Poderosos, organizados, hábeis, determinados. Vocês cruzam com eles nas ruas e no campo, muitas vezes mascarados, tão cheios de ódio quanto de covardia. Vocês os conhecem. É o partido dos agentes do desastre, o instrumento do pior, a extrema-direita francesa, ela está aqui”, disse o candidato, sob uma chuva de aplausos, no centro de convenções Paris Event Center, no 19° distrito da capital francesa.

Cerca de 12 mil pessoas compareceram ao evento
Cerca de 12 mil pessoas compareceram ao evento Augusto Pinheiro/RFI

Segundo ele, “a extrema-direita espera há muito tempo o colapso da França para tirar vantagem da situação”. “Ela usa a raiva, propaga a mentira. Há décadas, atiça o ódio, fomenta divisões, impõe o discurso da discriminação. A Frente Nacional é a anti-França”.

“Eles pensavam que iriam ser os mais votados no primeiro turno. Temos orgulho de ter ficado em primeiro lugar, nós os derrotamos, e nunca poderão tirar isso de nós. Somos o povo que vê, que crê, a França de republicanos autênticos, patriotas lúcidos, o movimento da esperança. E, no próximo domingo, os derrotaremos. ”

"Não a vaiem, combatam-na"

Quando Macron citou o nome de Le Pen, o público começou a vaiar. “Não a vaiem, combatam-na, convençam outras pessoas a votar, derrotem-na no domingo que vem”, respondeu.

O candidato disse que o que está em jogo no segundo turno “não são apenas os próximos cinco anos, mas provavelmente as próximas décadas do nosso país. É o futuro da França, da Europa e de uma certa ideia de mundo. Há uma semana nosso país está em uma mutação profunda, a paisagem política que conhecíamos desapareceu em poucas horas. Nós não sofremos essa mudança, nós a quisemos, nós a provocamos”.

Garota segura bandeiras da França e da União Europeia
Garota segura bandeiras da França e da União Europeia Augusto Pinheiro/RFI

Ele aproveitou para agradecer o apoio de políticos de direita, centro e esquerda e criticou o candidato derrotado da extrema-esquerda, Jean Luc Mélenchon, por não ter se posicionado contra a extrema-direita no segundo turno.

Os ataques à Frente Nacional continuaram em tom firme: “Seu projeto é também a luta contra a liberdade da imprensa, com a criação de uma ordem dos jornalistas, algo que existia na Itália dos anos 1930, a luta contra as mulheres, com o questionamento do direito ao aborto, a luta contra os casais do mesmo sexo, com atos homofóbicos e expressões indignas.”

Nesse momento, ele lembrou o comentário de Jean-Marie Le Pen, pai de Marine e fundador do partido, sobre o discurso do marido do policial morto no atentado do Champs-Elysées. Le Pen disse que “ficou chocado”. “Isso foi pura homofobia, e sua herdeira preferiu o silêncio ensurdecedor. Isso é a Frente Nacional, a violência extrema contra a oposição, a redução da liberdade, negação de diferenças, não esqueçam jamais. ”

Empobrecimento com saída da UE

Macron, que foi ministro da Economia do atual governo francês, alertou para os riscos de saída da União Europeia e da zona do euro, propostas que fazem parte do programa de Le Pen. "No minuto que sairmos do bloco, fecharmos as fronteiras e abandonarmos as alianças, arruinaremos o crédito do país e não sairemos ilesos. A saída representa o empobrecimento de todos, dos empregados e dos aposentados. Representa taxas sobre a importação, com o consequente encarecimento dos produtos."

O empresário Jean-René Levy: "Se Le Pen ganhar, vou embora da França"
O empresário Jean-René Levy: "Se Le Pen ganhar, vou embora da França" Augusto Pinheiro/RFI

Ele contrapôs mais uma vez o seu projeto ao de Le Pen. "De um lado, temos a França patriótica, exigente, reformadora, eficaz e justa, que leva à mudança e à renovação, para que cada um encontre seu lugar na sociedade em uma França forte dentro de uma Europa que protege. Do outro, temos uma França reacionária, nacionalista, que joga com a cólera do povo para dar como resposta o isolamento, o ódio e a saída da França da Europa, do mundo e da historia."

O candidato também criticou o que chamou de "estranha aliança" entre Marine Le Pen e Nicolas Dupont-Aignan, que obteve 4,7% dos votos no primeiro turno da eleição. Le Pen disse, inclusive, que o nomearia primeiro-ministro em caso de vitória. "O pobre, perdeu e agora o vemos densorado", ironizou Macron.

Na segunda parte do comício, o candidato falou de suas propostas nas áreas econômica e social. Ele defendeu a liberdade de religião e o respeito aos muçulmanos e aos homossexuais. E disse que ao menos metade do seu governo será formado por mulheres. Prometeu ainda o combate ao terrorismo - dentro e fora da França.

“Discurso muito responsável”

Para o empresário Jean-René Levy, 54, Macron realizou um discurso “muito responsável e consciente da responsabilidade que ele tem”. “Se havia pessoas que ainda tinham dúvidas sobre o enorme risco da Frente Nacional, esse foi o momento de colocar a mão na consciência.”

Os amigos Vince Febret, Virginie Lalanne, Simon Pierre Sengayrac e Caittlin Waters: juntos pela Europa
Os amigos Vince Febret, Virginie Lalanne, Simon Pierre Sengayrac e Caittlin Waters: juntos pela Europa Augusto Pinheiro/RFI

Para ele, a vitória de Le Pen seria “o fim da França e da Europa”. “Eu vou embora do país se ela ganhar, teria vergonha de ser francês, não sei como poderia ficar aqui. Não gosto nem de imaginar.”

O farmacêutico aposentado Philippe Morel, 69, disse à RFI Brasil que apoia Macron porque é “um europeu convicto”. “Eu voto nele por acreditar no seu programa, mas também por oposição total e irredutível à extrema-direita”.

Morel, que veio de Biarritz (sudoeste da França) para o comício, afirma que Macron “é um jovem político fora do sistema”. “É a nova geração, que rompe com os vícios da política antiga.” Ele acha que a Frente Nacional representa “o isolacionismo total, o colapso da França e o desaparecimento da nação francesa”.

Philippe Morel: "Macron rompe com os vícios da antiga política"
Philippe Morel: "Macron rompe com os vícios da antiga política" Augusto Pinheiro/RFI

Os amigos Virginie Lalanne, 26, consultora, e Simon Pierre Sengayrac, 24, estudante de administração, foram juntos ao comício. “Macron representa as ideias que considero boas. Ele propõe o liberalismo de esquerda. Ou seja, ao mesmo tempo ele quer liberar as iniciativas empreendedoras, mas em um ambiente de justiça social, para dar chance a todos: pobres, ricos, jovens, velhos, homens, mulheres. É a melhor solução para o futuro do país”, diz Simon.

Bernadette Henninger: "Macron é cheio de vida e de alegria"
Bernadette Henninger: "Macron é cheio de vida e de alegria" Augusto Pinheiro/RFI

Para Virginie, “ele é o único verdadeiro candidato europeu”. “E eu me sinto tão europeia quanto francesa. Quero um candidato jovem que defenda os meus interesses, tenho vontade de mudança. Ele entende a minha vida e o meu cotidiano. É um verdadeiro reformista, progressista, ele faz a verdadeira síntese entre o que me interessa na direita e na esquerda.”

A professora Bernadette Henninger, 59, diz que vai votar em Macron “porque não quer que seus netos e alunos vivam em uma sociedade cheia de ódio”. “Le Pen é uma mulher odiosa, xenófoba, que quer restringir nossas liberdades. Macron é cheio de vida e de alegria, um líder que dá vontade de seguir.”

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