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Saúde

Exame de sangue para detectar Síndrome de Down chega aos hospitais públicos franceses

Áudio 04:36
O teste pode ser feito a partir da décima semana de gravidez com uma simples amostra de sangue da mãe.
O teste pode ser feito a partir da décima semana de gravidez com uma simples amostra de sangue da mãe. Flickr/ Creative Commons

O teste DNA não-invasivo que diagnostica precocemente a Síndrome de Down e outros problemas genéticos dos fetos, desenvolvido nos Estados Unidos, chegou aos hospitais públicos franceses. A autorização foi dada pela Alta Autoridade de Saúde, organismo que regulamenta as práticas do setor, no último dia 17 de maio. O exame revolucionará o cotidiano das mulheres grávidas no país.

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O teste pode ser feito a partir da décima semana de gravidez com uma simples amostra de sangue da mãe, que contém fragmentos genéticos do feto. A análise desse material possibilita a descoberta de possíveis falhas cromossômicas que provocam a Síndrome de Down, com uma taxa de fiabilidade em torno de 99%.

O exame também pode detectar anomalias cromossômicas sexuais, mas com muitos falsos positivos, por isso a utilização será restrita à Síndrome de Down. No Brasil, ele existe desde 2013, mas apenas em clínicas particulares.

Na França, como será reembolsado pelo governo, o teste só será realizado em caso de resultados suspeitos nos exames de translucência nucal e marcadores bioquímicos, que são menos precisos, mas mais baratos. Isso independentemente da idade da mãe, que não é mais por si só, segundo as autoridades de saúde francesas, uma justificativa para exames invasivos.

Segundo o geneticista Jean Michel Dupont, chefe do departamento de citogenética constitucional do Hospital Cochin, em Paris, cerca de 10% das pacientes francesas grávidas beneficiarão gratuitamente do teste, que visa principalmente diminuir o número de amniocenteses. No exame, uma agulha é inserida no ventre da paciente para retirada do líquido amniótico e existe o risco, ainda que pequeno, de um aborto espontâneo. Agora, ele só será realizado na rede pública se o teste de DNA for positivo.

O geneticista lembra, entretanto, que a amniocentese continua sendo a única maneira de ter um diagnóstico 100% confiável na detecção da doença. Uma informação que pode levar algumas pacientes a decidir pelo aborto, que é autorizado até o terceiro mês de gestação na França. “Por razões biológicas, sabemos que o teste de DNA pode falhar. Existem falsos positivos. O teste pode indicar anomalias em bebês saudáveis. É um erro pouco comum mas que deve ser levado em conta. Pode ocorrer na parte técnica e em situações biológicas raras. Por isso orientamos as pacientes a não tomarem uma decisão dessas com base apenas nesse teste”, explica.

Polêmica ética

Associações francesas que militam pela inserção social dos portadores de Síndrome de Down denunciam uma “caça à deficiência” e uma prática eugenista, que seleciona crianças saudáveis. Em um comunicado divulgado à imprensa, a Fundação Jérôme Lejeune afirma que o aborto ocorre em 96% dos fetos que têm a deficiência. De acordo com a associação, o novo teste, associado às outras medidas de despistagem, tornaram os franceses “mais intolerantes à deficiência”, conduzindo a uma “eliminação” da doença.

Para o especialista francês, não é o teste em si mesmo que é “eugenista”, já que a política de diagnóstico precoce não é nova na França. “A ideia é dar à paciente a possibilidade da escolha. De decidir ou não dar continuidade à gravidez. E isso, como expliquei, não acontece depois do teste, é preciso uma amniocentese para confirmar o diagnóstico. Na minha opinião, o eugenismo acontece na representação social dessa deficiência, na ausência de um protocolo correto para tratar as crianças que nascem com a síndrome, mais do que no fato de propor um teste que informe os pais”.

O médico também lembra que é importante que as mulheres tenham a escolha de não realizar os exames. “Acho muito importante que essa opção exista. Na lei está mais do que claro que o papel do médico é propor e explicar a despistagem e não impor, explicando que elas têm escolha, e em todas as etapas.”
 

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