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Macron/eleições legislativas

Maioria esmagadora no Parlamento pode ser perigosa para Macron

Palácio Bourbon, sede da Assembleia nacional da França.
Palácio Bourbon, sede da Assembleia nacional da França. LUDOVIC MARIN / AFP

O segundo turno das eleições legislativas neste domingo (18) deve confirmar o vendaval Macron na Assembleia, onde seu partido A República em Marcha (LREM) deve obter maioria absoluta, expandindo a mudança política que a França observa neste momento.

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As pesquisas de opinião desta sexta-feira (18), último dia de campanha, dão a vitória esmagadora do partido do novo presidente entre as 577 cadeiras que vão ser renovadas. A maioria absoluta pode ser alcançada com 289, mas o República em Marcha deve alcançar entre 400 e 455 novos postos, após um primeiro turno em que obteve 32% dos votos em todo o país.

Com essa perspectiva dominante na Assembleia Nacional, o presidente mais jovem da história da França, com 39 anos, pode ter o caminho livre para aplicar suas ambiciosas reformas com as quais aspira tornar o mercado de trabalho mais liberal.

Qual a cara da nova Assembleia?

Mas especialistas, cientistas políticos e a mídia francesa questionam quais as consequências que esse "absolutismo" pode trazer. Quem vai estar na oposição e quem vai sobrar na direita e na esquerda? Qual será a cara da nova assembleia?

Christian Delporte, historiador e professor na Universidade de Versalhes, declarou à RFI que “ter uma maioria esmagadora pode ser um obstáculo, na medida em que não haverá oposição”. Ele acrescenta que “a oposição poderá, diante desse ambiente tão eclético, se formar dentro da própria maioria ‘macronista’”.

"Uma maioria esmagadora pode ser perigosa para Emmanuel Macron, com muitos deputados que provavelmente pecarão por entusiasmo. O presidente terá que ter muita energia para disciplinar a Assembleia", advertiu o cientista político Thomas Guénolé, em entrevista à AFP.

Oposição atomizada

A esquerda, que era maioria, luta para tentar manter pelo menos um grupo na assembleia. O tradicional Partido Socialista (PS), derrotado e desunido, se esforça para manter o mínimo necessário de 15 deputados para formar um grupo e ainda corre o risco de ser atropelado pela esquerda radical da França Insubmissa, de Jean-Luc Mélenchon, tem tudo para tornar realidade sua promessa de se tornar a verdadeira oposição de esquerda.

Jerôme Saint-Marie, da consultoria Pollingvox, disse à RFI que, diante do resultado pífio da Frente Nacional (FN) de Marine Le Pen, que pode eleger apenas um deputado, no pior dos casos, “a atualidade governamental será dominada pela questão da reforma do trabalho e Jean-Luc Mélenchon ficará à vontade para encarnar uma oposição radical ao governo”.

O consultor diz também que “será importante para o LREM ter muitos deputados de direita, e assim, de eleitores de direita, que o apoiem. Para isso, terá que desenvolver argumentos fortes em relação aos deputados LR (Os Republicanos, de direita), com nomeações para o governo. Uma vez que você controla o legislativo e o executivo, isso vai ter peso importante no trabalho de Macron para se aproximar em direção dos eleitos importantes da direita - ou seja, o novo presidente tem interesse em ter amigos na direita, e pode consegui-los propondo postos no governo e na assembleia”.

Oposição sem coesão

Saint-Marie declarou ainda à AFP que "atualmente não há nenhuma oposição forte a Emmanuel Macron, apesar de 75% dos franceses não terem votado por ele no primeiro turno. A oposição está composta por quatro forças irreconciliáveis: França Insubmissa (esquerda radical), Frente Nacional (extrema-direita), esquerda socialista e a direita de Os Republicanos".

O jornal Le Monde aponta outras dificuldades para uma maioria tão ampla. “A força numérica não vai impedir que apareçam as fraquezas. Justamente porque, em seu meio, haverá um número muito pequeno de pessoas com experiência parlamentar”, diz Le Monde, lembrando que apenas 27 dos 517 candidatos já foram deputados.

A falta de experiência pode levar a um tempo de adaptação até que os novos parlamentares se acostumem às regras não escritas da casa, podendo desacelerar o andamento de projetos. Essas observações fazem parte das críticas ao bloco macronista que deve chegar ao Palácio Bourbon, sede da Assembleia francesa.

Contra “mandatos eternos”

"Os novos deputados, por sua inexperiência e heterogeneidade política, vão formar uma massa enorme, mas atomizada. Pode haver alguma dissidência, mas não estruturada. Diante de um poder executivo de uma força sem precedentes, o poder legislativo não pesará muito", considerou Sainte-Marie à AFP.

Em entrevista à RFI, Sylvain Maillard, empresário e porta-voz de Macron durante a campanha, eleito já no primeiro turno, defendeu o ecletismo e especificidades da nova força parlamentar: “se não fôssemos diferentes, seríamos um fracasso. Somos a reação a uma classe política que se instalou, que são sempre os mesmos, com mandatos eternos”. E voltou a afirmar: “vou cumprir só um mandato, os mandatos eternos fazem parte da esclerose da vida política”.

 

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