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O Mundo Agora

"Se der certo, Macron sai por cima da carne seca. Senão, a contestação vai às ruas"

Áudio 05:07
"A maioria dos votantes decidiu entregar o poder à nova geração dos trinta-quarenta anos. "
"A maioria dos votantes decidiu entregar o poder à nova geração dos trinta-quarenta anos. " REUTERS/Bertrand Guay/Pool

Confortável maioria absoluta para Emmanuel Macron no parlamento. Mas não foi o tsunami anunciado. Os partidos tradicionais perderam boa parte de seus deputados, mas não foram completamente esmagados. Até alguns candidatos da extrema-direita e da extrema-esquerda vão ter assento no hemiciclo.

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Também não dá para minimizar a acachapante vitória do “macronismo” com sua pletora de candidatos sem experiência política, mas tarimbados em vida real – médicos, empresários, funcionários, agricultores. Desde o início da aventura, os jornalistas e politólogos franceses não entenderam patavina. Macron não podia ganhar. Quando ganhou não podia ter maioria parlamentar. E agora com maioria absoluta, não vai conseguir aplicar o programa. Na verdade, não entenderam que o mundo político francês está vivendo uma mudança radical.

Mas não é uma revolução. A França, paralisada por uma classe política esclerosada, envelhecida, sem coragem e ambição, decidiu simplesmente recuperar o tempo perdido. A maioria dos votantes decidiu entregar o poder à nova geração dos trinta-quarenta anos. Os problemas sociais e econômicos são tantos que não dava mais para empurrar com a barriga. Fora com os políticos profissionais que só pensam na próxima reeleição e prometem futuros radiantes em que ninguém mais acredita.

No entanto, a abstenção recorde prova que os franceses não morrem de amores pelos quarentões do “macronismo”. A ideia é dar uma chance ao jovem presidente. Chega de “problemáticas” e da oposição esquerda/direita. A cidadania quer “solucionáticas”. Se der certo, Macron sai por cima da carne seca. Senão, a contestação vai para as ruas, incendiada pelo pequeno núcleo de extremistas no parlamento.

A solução anunciada pelo presidente é tratar os problemas caso a caso: diagnosticar a questão em pauta, produzir – com os ministérios encarregados do dossiê – um programa prático para resolvê-la com prazos bem definidos, e impondo resultados e cobranças periódicas. Se o ministro não der no couro, será despedido. Para garantir a viabilidade política e a adesão de uma maioria da população, as prioridades e soluções não podem ser monopolizadas por um grupo de tecnocratas.

Durante a campanha eleitoral, Macron criou centenas de pequenos grupos locais que foram conversar com as pessoas porta-a-porta. O programa do governo foi estabelecido a partir dessas milhares de respostas, ideias e sugestões da população, turbinadas pelos quadros técnicos e políticos do movimento “Em Marcha!”. E o novo presidente já anunciou que vai utilizar esse método para implementar o pacote de reformas prometidas. Se der certo, será uma maneira nova e radical de fazer política.

Não se trata mais de imitar os velhos partidos tradicionais que pretendiam mudar ou conservar o mundo com visões messiânicas do futuro acopladas a intermináveis listas de lavandaria cheias de promessas – que no final, eram esquecidas e jamais cumpridas.Esse modo original de encarar a ação política e governamental tem muito a ver com os padrões empresariais da nova economia digital que está tomando conta do planeta. No velho paradigma da produção de massa para o consumo de massa, o produtor inventava e fabricava um produto, para depois tentar vendê-lo para o maior número possível de consumidores graças à publicidade.

Macron terá boa e sólida margem de manobra

Hoje, na produção em rede, o produtor está permanentemente conectado a cada cliente de maneira quase individualizada, e são as sugestões e gostos desses clientes, tratados por poderosos algoritmos, que vão definir a mercadoria ou serviço que será produzido. O problema, tanto nas empresas como na política, é que esse modelo só funciona com uma forte centralização do poder de decisão em última instância. Macron já declarou que será um presidente “jupiteriano”.

Com uma maioria de 60% na Assembleia Nacional, o novo Júpiter terá uma boa e sólida margem de manobra. Mas esse novo tipo de força política depende diretamente de resultados rápidos e tangíveis ao gosto dos cidadãos. Na nova economia, o empresário que erra vai à falência rapidim. Macron está apostando grosso.

*Alfredo Valladão, do Instituto de Estudos Políticos de Paris, faz uma crônica de política internacional às segundas-feiras para a RFI
 

 

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