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“A dificuldade da esquerda é reconstruir o coletivo”, diz filósofo francês

Ícones da esquerda francesa, Jean-Luc Mélenchon (ao centro) e Benoit Hamon (à sua esquerda) durante protestos deste sábado, 23 de setembro de 2017, contra a reforma da lei trabalhista, em Paris. Nas mãos, a faixa com os dizeres "Golpe de Estado social".
Ícones da esquerda francesa, Jean-Luc Mélenchon (ao centro) e Benoit Hamon (à sua esquerda) durante protestos deste sábado, 23 de setembro de 2017, contra a reforma da lei trabalhista, em Paris. Nas mãos, a faixa com os dizeres "Golpe de Estado social". REUTERS/Philippe Wojazer

A esquerda “morreu”? Se não, será que seu futuro passa pela contestação? Longe dos julgamentos fáceis, os filósofos franceses Marcel Gauchet e Michaël Fœssel analisaram o “mal-estar dos progressistas” numa grande entrevista à revista L’Obs, nas bancas neste fim de semana.

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“Quatro meses depois da vitória [do presidente francês] Emmanuel Macron, a esquerda nunca esteve tão dividida”, escreve a revista francesa L’Obs. “O Partido Socialista desmoronou, a República em Marcha [partido do presidente francês] governa com a direita e a França Insubmissa [movimento da esquerda radical de Jean-Luc Mélenchon] não se reconhece mais na separação entre esquerda e direita. Será que a esquerda será capaz de propor um novo projeto político?”, pergunta o periódico aos filósofos Marcel Gauchet e Michaël Fœssel.

“A esquerda existe porque (...) é legítimo pensar que os homens possam moldar melhor seu destino a partir da compreensão de sua história”, explica Gauchet, nas páginas da revista. “Cedo ou tarde, novos projetos de esquerda ressurgirão, (...) mas o que impressiona é o tamanho do buraco histórico... Tudo terá que ser refeito. Será necessário redefinir três elementos ao mesmo tempo. O primeiro será determinar o perímetro de uma transformação social. A herança marxista nos levou a pensar do ponto de vista mundial. Mas, o conceito de nação está de volta. (...) Entre o mundial e o nacional, será necessário rever essa articulação”, afirma o filósofo.

“O segundo ponto é a gestão do Estado. A esquerda vivia da ideia da superioridade da gestão pública. Foi aí que ela foi vencida pelos liberais, face às disfunções flagrantes dos sistemas burocráticos. Foi uma fatalidade? O privado é necessariamente mais eficaz que o público? Uma administração pode ser racional, a serviço dos cidadãos? Essa é uma das questões mais importantes das democracias atuais”, continua Gauchet. “E o terceiro parâmetro a ser revisado é: se o objetivo é construir uma sociedade mais ‘habitável’, quem a construirá? Não podemos mais delegar isso à classe operária e aos miseráveis do planeta. Em quem podemos contar, e com quais argumentos?”, questiona o filósofo para a revista L’Obs.

Uma nova “gramática” capaz de “traduzir frustações individuais em exigências coletivas”

“A falência da experiência soviética desarmou durante muito tempo a esquerda face ao neoliberalismo. Mas precisamos nos lembrar que, especialmente depois da crise de 2007, a contrarrevolução liberal também fracassou”, completa o também filósofo Michaël Fœssel, na análise publicada pelo periódico.

“O mercado deveria permitir, senão a emancipação, pelo menos a autossatisfação; evidentemente, não é o caso. Podemos constatar com espanto as semelhanças entre um executivo que exprime sua insatisfação no trabalho e um trabalhador precário exausto pelo stress de sua situação. As pessoas estão abatidas pelas situações de injustiça, mas também pelo absurdo das reformas administrativas que lhes são propostas. O papel da esquerda é propor uma nova gramática capaz de traduzir frustações individuais em exigências coletivas”, analisa Fœssel no artido da L’Obs.

“Nos belos dias do progressismo reinava uma crença histórica: a injustiça de hoje vai suscitar a revolta de amanhã, que mudará o mundo depois de amanhã. Esta teoria desapareceu, mas os sofrimentos que a motivaram continuam aí. A esquerda não deve apenas se compadecer com o sofrimento social, mas formata-lo”, afirma o filósofo à revista.

Corbyn e Sanders

“Diz-se por exemplo, que o assalariado de hoje está atomizado: o entregador de pizza sozinho sobre sua moto, a faxineira, sozinha na limpeza de manhã... Mas ao invés de chorar o desaparecimento da consciência de classe, a esquerda deveria analisar o que liga estas situações, além das aparências”, analisa Fœssel, durante a entrevista. “ [Jeremy] Corbyn e [Bernie] Sanders fizeram isso, o que explica seu sucesso. Dois homens velhos colocam em palavras a experiência dos mais jovens, o que exige um esforço de imaginação. No fundo, eles disseram: nós vivemos o momento onde a redistribuição [de renda] funcionava, mas somos conscientes que a vida de vocês é diferente”, resume o filósofo.

“A força do neoliberalismo foi ter individualizado as condições, reduzindo cada um de nós a seu combate particular. A dificuldade da esquerda é reconstruir o coletivo”, finaliza Michaël Fœssel. Perguntado pela revista L’Obs sobre o que achava de Jean-Luc Mélenchon, do movimento de esquerda radical França Insubmissa, estar convocando a população para protestar contra as mudanças na lei trabalhista francesa, o filósofo Marcel Gauchet pergunta: “E por que não?”. “Muitas vezes os sindicatos tomam posições políticas e partidos políticos intervêm no terreno do social. No entanto, isso não me impede de continuar sendo cético em relação à cultura de protesto. Sobretudo quando ela mira o status quo, como é o caso da contestação da lei do trabalho. A contestação sem proposição construtiva não leva a lugar nenhum”, finaliza Gauchet, que não poupa a imprensa francesa: “A mídia merece ser criticada. Ela deveria cumprir uma função e o faz muito mal. Essa crítica faz parte da vida democrática”, pontua o filósofo.

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