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Socialistas vendem sede histórica em Paris: "fim de uma era, não do partido", diz cientista político

O Partido Socialista francês (PS) hipotecou sua sede para pagar um empréstimo destinado a financiar a campanha de seu candidato às eleições presidenciais de 2017.
O Partido Socialista francês (PS) hipotecou sua sede para pagar um empréstimo destinado a financiar a campanha de seu candidato às eleições presidenciais de 2017. REUTERS/Charles Platiau

O palacete do século 18 na famosa Rive Gauche, a margem esquerda do Rio Sena, em Paris, abrigou no último meio século os ideais de um dos partidos políticos mais importantes da história da França: o Partido Socialista. Hipotecada para pagar dívidas de campanha, a sede do PS foi agora colocada à venda, dividindo ainda mais os ânimos dos socialistas e do público francês, que assistem, provavelmente, ao fim de um dos símbolos mais importantes de sua cena política pós-maio de 68.

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Os cerca de 3.000 metros quadrados do antigo palacete, no elegante sétimo distrito de Paris, testemunharam cenas históricas, como a chegada ao poder de François Mitterrand, em 1981, o primeiro socialista eleito presidente da República pelo voto universal, uma vitória histórica que consolidou as bases do PS na vida política da França. Construída no chamado Segundo Império, e nomeada em referência à batalha de Solférino, vencida por Napoleão III contra as tropas austríacas, a rua de Solférino, endereço histórico do Partido Socialista, liga o Boulevard Saint-Germain ao rio Sena.

“A rue de Solférino é, para mim, o símbolo dos socialistas no poder, seja com Mitterrand, ou depois com [Lionel] Jospin”, afirma o cientista político Gaspard Estrada, especialista em América Latina da Sciences Po, numa referência ao famoso endereço da sede do PS. “Houve momentos importantes ali, inclusive nas derrotas. Por exemplo, em 2007, quando Ségolene Royal perde a eleição presidencial [para Nicolas Sarkozy], ela vai primeiro para a Casa da América Latina e em seguida para a rua de Solférino. Sinceramente, para mim, esta sede do PS é símbolo deste momento dos socialistas, que começou em 1971, quando o partido foi criado, e que deve terminar agora em 2017 com esta derrota estrepitosa de Benoît Hamon”, analisa Estrada.

E nem só de comemorações socialistas viveu o famoso endereço da rue de Solférino. Antes de se tornar sede do partido da esquerda clássica, o palacete abrigou, entre outras coisas, os porões da Radio Paris, mídia afinada com a propaganda do governo colaboracionista de Vichy, durante a ocupação nazista da França (1940-1944). A partir de 1944, o local fez as pazes com seu passado sindicalista, abrigando a CGT, um dos maiores sindicatos franceses.

O começo do fim?

Brigas e histórias à parte, não teve jeito: com 31 deputados na Assembleia Nacional, em comparação com 284 na legislatura anterior, os subsídios públicos do Partido Socialista em 2017 passaram de 25 para € 7 milhões por ano, o que fez com que a conta não feche para os cofres do PS. O partido optou então pela venda do imóvel, cujo valor de mercado é estimado entre € 50 e 60 milhões, embora o PS não forneça números oficiais.

A decisão da venda dividiu ainda mais as opiniões no já tão fragmentado Partido Socialista francês. Se a ala mais velha do PS ruge de raiva e responsabiliza a campanha de Benoît Hamon pelo empréstimo de € 8 milhões, que resultou na hipoteca do imóvel, a ala mais jovem dos socialistas acredita que o fim da sede da Solférino possa talvez impulsionar o nascimento de um partido mais dinâmico e renovar os laços com os eleitores franceses, que fugiram em massa para o atual partido do presidente francês Emmanuel Macron (ex-PS), o República em Marcha.

Solférino: “fim de uma era, ou o futuro de outra”

“O partido Socialista está sem discurso, sem projeto. A venda de Solférino, para mim, simboliza o fim de uma época, ou o futuro de outra”, afirma o cientista político Gaspard Estrada. “Mas é claro que a venda tem um simbolismo muito forte. O Partido Socialista sempre foi chamado como o ‘partido da rue de Solférino’, uma longa história de associação entre o próprio local e o partido”, explica o cientista político.

“Não vejo, hoje em dia, qual seria a liderança política no curto prazo que permita ao Partido Socialista voltar ao governo. É o fim de uma época, mas isso não quer dizer que o partido esteja à beira do desaparecimento. No curto prazo, o PS vai enfrentar um grande debate interno sobre estratégia, mensagem, qual vai ser a prioridade, e isso acontece com qualquer partido que perde as eleições. Isso aconteceu com o Les Républicains [direita] em 2012, com o próprio Partido Socialista em 2007, faz parte”, explica o Estrada.

“Vemos isso inclusive agora no (partido de extrema-direita) Frente Nacional, de Marine Le Pen, que vive muitos conflitos internos. No entanto, não acredito que o Partido Socialista vá desaparecer do cenário político francês, é ainda um partido influente, tem muitos quadros nos territórios do país e uma grande bancada no Senado, penso que se trata de uma nova etapa para o PS”, completa Gaspard Estrada.

A venda do histórico endereço do número 10 da rue de Solférino será objeto de uma licitação com uma série de cláusulas para garantir que o prédio não caia em mãos indesejadas. O Partido Socialista poderá, portanto, rejeitar uma oferta de compra se o futuro proprietário não convencer os chefões do PS.

O próximo cavalo de batalha dos socialistas será decidir para onde devem se mudar, após venderem Solférino. Uma das opções avaliadas pelos chefes do partido, seria se mudar para a periferia de Paris, com o objetivo de ficar mais próximo das classes populares. A Zona Norte da capital também seria uma opção.

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