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Um pulo em Paris

Assédio sexual: caso Weinstein respinga na esfera política francesa

Áudio 15:39
O hashtag #denuncieseuporco tornou-se o mais comentado esta semana no Twitter na França.
O hashtag #denuncieseuporco tornou-se o mais comentado esta semana no Twitter na França. Getty Images / olaser

O escândalo de assédio sexual envolvendo o produtor americano Harvey Weinstein continua tendo forte repercussão na França e respinga na esfera política. A escritora Ariane Fornia, 28 anos, filha do ex-ministro da Imigração Eric Besson (governo Nicolas Sarkozy, 2007-2012), acusou hoje o ex-ministro Pierre Joxe, 82 anos, de tê-la assediado durante um espetáculo de ópera em 2010.

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Joxe é um reputado político socialista, com uma longa carreira ministerial. Ele participou de vários gabinetes de governo, incluindo o do ex-presidente François Mitterand (1981-1995). Segundo Ariane Fornia, o assédio aconteceu quando ela tinha 21 anos. Enquanto aguardava a chegada de seu pai, Joke teria sentado ao lado dela no teatro e colocado a mão sobre suas pernas várias vezes. Apesar dela ter afastado a mão do político, ele teria insistido e até tentado levantar sua saia.

A escritora disse que decidiu revelar essa situação em seu blogue motivada pelos relatos de milhares de mulheres que têm postado nas redes sociais, com o hashtag "#denuncieseuporco", casos de assédio e violência sexual. Joxe diz que as acusações de Fornia são "uma piada" e promete processá-la.

No ano passado, o deputado ecologista Denis Baupin foi acusado de assédio por várias mulheres de seu partido, mas os processos foram encerrados por falta de provas. Anteriormente, Tristane Banon havia acusado o ex-diretor do FMI Dominique Strauss-Kahn de tentativa de estupro, caso também arquivado por falta de indícios que comprovassem a acusação.

Fenômeno de sociedade na França

Desde que atrizes francesas e americanas começaram a denunciar os ataques de Weinstein, aconteceu uma liberação da palavra das vítimas. Sem citar os nomes de seus agressores, muitas mulheres revelam a dor, o desamparo e a repugnância profunda por terem sido agredidas.

Diariamente, a França registra 146 denúncias de estupro e agressões sexuais. Para muitos especialistas, as infrações sexuais são um fenômeno de sociedade.

Em 2015, segundo o Instituto Nacional Demográfico da França, 62 mil francesas declararam terem sido vítimas de estupro ou de tentativa de estupro e 553 mil mulheres sofreram agressões sexuais no mesmo período. Mas, no mesmo ano, a Justiça condenou apenas 1.048 estupradores e 4.668 autores de agressões sexuais. Além da escassa penalização desses crimes, existe uma realidade que é o silêncio das vítimas. Nos casos de assédio, principalmente, às vezes é difícil fornecer provas formais para julgar se houve ou não consentimento das vítimas.

Nesta sexta-feira (20), a psiquiatra Muriel Salmona, especialista em violência sexual e estresse pós-traumático, entregou à secretária de Estado Marlène Schiappa, encarregada da igualdade entre mulheres e homens, uma série de propostas para "acabar com a cultura do estupro" no país.

Entre as medidas apresentadas, a especialista defende uma maior sensibilização das crianças para a questão da não violência e do consentimento; treinamento adequado de médicos, policiais e agentes judiciários no acolhimento das vítimas; criação de centros abertos 24h para vítimas de violência sexual; criação de jurisdições especializadas no tratamento desse tipo de crime e revogação dos artigos de lei existentes que permitem a qualificação do estupro como um delito.

Salmona defende ainda uma maior clareza na legislação francesa a respeito da idade mínima para o consentimento de uma relação sexual. Na avaliação da psiquiatra, abaixo de 15 anos não é possível falar em consentimento.

Ao contrário do Brasil e da maioria dos países europeus, a legislação francesa não prevê uma idade mínima de consentimento para relações sexuais entre menores e adultos.

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