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França/polêmica

"Manifesto não aprova assédio senão não teria assinado", diz Catherine Deneuve

Pedido de desculpas da atriz Catherine Deneuve às vítimas de agressão sexual que ficaram chocadas com o manifesto assinado por ela e outras cem mulheres, defendendo a liberdade de importunar, é a manchete do jornal Liberation desta segunda-feira (15).
Pedido de desculpas da atriz Catherine Deneuve às vítimas de agressão sexual que ficaram chocadas com o manifesto assinado por ela e outras cem mulheres, defendendo a liberdade de importunar, é a manchete do jornal Liberation desta segunda-feira (15). Fotomontagem RFI/ liberation.fr

Em entrevista ao jornal francês Libération, acompanhada de uma carta publicada na noite de domingo (14) no site do jornal, a atriz Catherine Deneuve pede desculpas às mulheres vítimas de violência sexual que ficaram chocadas com a carta assinada por ela, na semana passada, mas assume o manifesto.

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Depois da onda de críticas gerada pelo manifesto, Deneuve esclarece sua posição e reafirma a preocupação com a censura às artes, manifestada no texto, e os efeitos deletérios das delações nas redes sociais, estimuladas por movimentos feministas como o #entregueseuporco (#balancetonporc em francês), surgido após o escândalo Weinstein nos Estados Unidos.

Efeito de manada

"Amo a liberdade", diz Deneuve, "e não gosto dessa característica de nossa época em que cada um se sente no direito de julgar, de arbitrar, de condenar". Segundo a atriz, "vivemos em uma época em que simples denúncias postadas nas redes sociais acarretam punição, demissão e linchagem na mídia. Não gosto desse efeito de manada", diz Catherine Deneuve, ao criticar o movimento feminista.

Ela cita como exemplos o caso de um ator que foi 'apagado' de um filme após uma denúncia desse tipo, o diretor de uma grande instituição de Nova York que se viu obrigado a pedir demissão depois de vir a público que ele havia passado a mão nas nádegas de uma mulher trinta anos atrás, "sem outra forma de processo".

Apontando o risco de "golpes baixos e do suicídio de inocentes pela manipulação de denúncias", Deneuve diz que as ideias expressas no texto são justas, e que mulheres e homens devem viver juntos, em uma sociedade sem "porcos" e "putas".

Sem citar os nomes de outras assinantes da carta, ela critica Brigitte Lahaie, ex-atriz pornô que em um debate na TV com a feminista Caroline de Haas chegou a dizer que uma mulher pode ter um orgasmo durante um estupro. "Isso foi pior do que cuspir na cara de todas as mulheres vítimas desse crime", uma declaração "indigna", de acordo com Deneuve. Nesse ponto, ela observa não ver nada na carta insinuando que o assédio é bom.

Para Deneuve, o que cria situações traumáticas e insustentáveis é sempre o abuso de poder, a posição hierárquica e uma forma de coerção. "Quando se torna impossível dizer não sem estar ameaçada de perder o emprego ou em situações de humilhação e sarcasmos". Ela acredita que a solução virá com a educação de meninos e meninas e, eventualmente, com regras nas empresas, advertindo que em caso de assédio haverá um processo.

Faxina no mundo artístico

Deneuve insiste no fato de que assinou o texto para denunciar o movimento conservador de "limpeza" nas artes, questionando inclusive se daqui a pouco vão retirar os nus do pintor Paul Gauguin dos museus ou designar Leonardo da Vinci como um pedófilo. "Aos conservadores, racistas e tradicionalistas que estrategicamente me deram apoio, saibam que vocês não terão nem minha gratidão, nem minha amizade, ao contrário".

"Sou e vou continuar a ser uma mulher livre. Meu cumprimento fraterno vai para todas as vítimas de atos odiosos que puderam ter se sentido agredidas pela carta publicada no jornal Le Monde. É somente a elas que apresento minhas desculpas."

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