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Assédio

Agressões sexuais: denúncias atingem a mais tradicional união estudantil francesa

À esquerda, Jean-Baptiste Prévost, ex-presidente da UNEF, acusado pelas ex-associadas.
À esquerda, Jean-Baptiste Prévost, ex-presidente da UNEF, acusado pelas ex-associadas. RFI/Florent Guignard

Depois do caso Harvey Weinstein, que deu origem a uma enxurrada de queixas de assédio e agressão sexual, a onda de denúncias chega agora à União Nacional de Estudantes da França, a UNEF, cujos membros da direção teriam abusado do seu poder para assediar, agredir e violar suas colegas, jovens associadas.

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Motivadas pelos movimentos #MeToo (eu também, em inglês) e BalanceTonPorc (Dedure o seu porco, em francês), que agitaram as redes sociais em 2017, um grupo de 83 ex-associadas da UNEF publicou, em novembro passado, um artigo no jornal Le Monde, denunciando a direção da associação por ter sido conivente com anos de abusos sexuais, perpetrados por seus membros mais graduados.

Nesta terça-feira (20), o jornal Libération completa a denúncia com o testemunho de 16 vítimas, que não só relatam as agressões sofridas, de assédio a estupro, mas também dão nomes aos bois, ou aos “porcos”, nesse caso.

União dos Machos

Segundo os relatos publicados pelo Libération, a direção da UNEF, o mais tradicional grêmio de estudantes da França, viveu, entre 2007 e 2015, o seu período mais sombrio e machista, coordenado por seu então presidente, Jean-Baptiste Prévost, sempre protegido por seus correligionários.

Números de telefone e dados pessoais, cadastrados pela união, eram acessados por um ou outro membro da direção para se aproximar das novas associadas. Segundo os testemunhos, todo tipo de argumento, como a solidariedade para com um colega que não tinha onde dormir, era usado para que os dirigentes se aproximassem das meninas, quando não as agrediam enquanto elas estavam alcoolizadas.

“Jamais procurei números de telefone nos arquivos da UNEF”, se defende Prévost. “E nunca escolhi minha acomodação” nas viagens pelo interior, completou em sua defesa.

À beira do suicídio

O caso mais grave, porém, diz respeito a um certo A., cujo nome foi preservado pelo Libération, que teria agredido várias estudantes, gozando sempre da proteção dos seus camaradas. Afinal, A. era considerado um dos mais respeitados militantes da UNEF, uma associação de fundo marxista, pela qual passam os futuros políticos da esquerda francesa, reunindo 30 mil dos 2,4 milhões de estudantes do país.

Confrontado pelo jornal, que abordou todos os denunciados, A. respondeu imediatamente, através de e-mail, no qual confessa todos os seus atos, fazendo poucas correções. Alega, no entanto, que teve uma infância difícil, marcada por um pai que abusava sexualmente das meninas da família. Diz ainda que, ao ingressar na faculdade, ele encontrou, na UNEF, um alívio para o seu sofrimento familiar.   

“Eu me reconheço como o autor das agressões sexuais citadas, mesmo que elas se baseiem somente em depoimentos”, confessa A. “Há muito tempo me sinto assombrado por essas memórias. Por isso, decidi dar fim aos meus dias, sendo eu mesmo o único responsável por isso”, encerrou.

A ameaça de suicídio fez com que a redação do Libération suspendesse a denúncia por alguns dias, até que A. pudesse ser localizado e hospitalizado pela sua família.

Garantida a integridade física do denunciado, o Libération finalmente publicou nesta terça-feira os depoimentos e a reportagem sobre a decadência da UNEF, que perdeu o posto de maior associação estudantil da França para a FAGE, a Federação das Associações Gerais de Estudantes, de política mais reformista.

Nova era

Hoje presidida por uma estudante, Lilâ Le Bas, a UNEF garante ter aprendido com as lições do passado, implementando “um sistema de prevenção e acompanhamento que está 50 anos à frente da própria sociedade francesa”. O futuro dirá.

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