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50 Anos/Maio 68

"Derrubamos um regime, mas não tomamos o poder", diz Hélène Cixous, ícone de Maio de 68

A escritora, dramaturga e professora Hélène Cixous, em seu apartamento do 14° distrito de Paris, em 22 de março de 2018.
A escritora, dramaturga e professora Hélène Cixous, em seu apartamento do 14° distrito de Paris, em 22 de março de 2018. RFI/Márcia Bechara

Ela tinha 30 anos e acabava de ter sido nomeada professora na Universidade de Nanterre, quando se tornou um dos principais símbolos da Revolução de Maio de 68 na França. Considerada a “maior escritora de língua francesa” pelo filósofo Jacques Derrida, um de seus admiradores, Hélène Cixous conversou com exclusividade com a RFI Brasil sobre os ecos e as consequências do movimento na França: feminismo, memória, Simone de Beauvoir, Clarice Lispector, Catherine Deneuve, revolução.

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RFI: O jornal Le Monde falou recentemente em uma “memória dominante” sobre Maio de 68, como se uma narrativa abafasse outras. A senhora concorda com essa abordagem?

Hélène Cixous: Em 2018 nos encontramos numa situação interessante. 1968 aconteceu há muito tempo para a maior parte das pessoas, mas para mim é como se tivesse sido ontem. O que me pergunto é como os eventos que foram tão importantes e que não podem ser apagados serão tratados na sequência. É uma experiência particular, porque quando fomos testemunhas [de um momento histórico], e ainda o somos; quando fomos uma agente, uma atriz destes eventos, o que volta dezenas de anos depois, é uma espécie de ficção. Se você me pergunta de “memória dominante”, posso dizer que restam dos atores da época testemunhos parciais porque, na verdade, em 1968 havia milhões de pessoas mobilizadas, mas havia também os centros de ação. Eu, por exemplo, estava em Paris no coração do movimento, porque estava em Nanterre, na primeira linha das barricadas. Mas não víamos o que estava acontecendo no interior. Depois, nos jornais, vimos que as pessoas estavam supermobilizadas. A localização dos eventos foi determinante, se não tiver sido “dominante”.

RFI: Existe uma apropriação política dos eventos desta época?

HC: Existe um discurso banal de direita [sobre Maio de 68], mas que tem uma eficácia política, sem ter, no entanto, uma correlação com a História. É uma utilização negativa de alguma coisa que é completamente mistificada, transformada, que não tem mais nada a ver com a realidade. A direita, assim como a esquerda, de outro jeito, utiliza os eventos do passado como ferramentas de propaganda. Sempre foi assim. Mas o interessante é constatar que 68 continua [um símbolo forte]. Tentamos esquecê-lo, mas ninguém consegue, nem a direita, nem a esquerda. Todo mundo continua de olho no que aconteceu, mesmo se tentamos fingir que o movimento nunca existiu.

Existe um discurso banal de direita [sobre Maio de 68], mas que tem uma eficácia política, sem ter, no entanto, uma correlação com a História.

RFI: Qual foi a marca, o rastro de Maio de 68, na sua opinião?

HC: Houve consequências. Elas ainda estão por aí, dispersas, mas é necessário que se diga uma coisa: foi uma revolução. Que é uma herança do espírito revolucionário que existe na França, que começa em 1789 [com a Revolução Francesa]. Maio de 68 vem depois de 1789. Aliás, são dois períodos que se parecem. As revoltas, os protestos, tudo parece uma lembrança de uma ‘certa revolução’, e de outras. Com uma grande diferença: não houve quase sangue derramado. Os sete mortos [atribuídos no decorrer do movimento] não se comparam aos milhares de mortes, às deportações, às execuções.

RFI: Quais eram as intenções do movimento?

A revolução de Maio de 68 retirou um regime do poder. Mas ela não tomou o poder. Ela não tinha a intenção de tomar o poder. Maio de 68 queria se livrar de um certo estado de espírito francês. 1968 não é 1968, são os 10 anos que o precedem. Um momento na França em que nos dizemos: “Acabamos com as guerras coloniais”. Em 1962 acaba a guerra da Argélia. Nesse momento, as pessoas começam a dizer: “Não somos mais colonialistas, e se começarmos a pensar de um jeito diferente?”. Independência, liberdade, modernidade são ideias que circulam em todos os lugares, especialmente entre os jovens. Numa sociedade [francesa] que não havia mudado em nada, que é uma sociedade de direita, com o reino do [general] De Gaulle, desde 1958, isso fez um contraste enorme. Trata-se do reino de uma direita clássica, totalmente cafona, atrasada, ligada ao século anterior em todas as áreas. Eu tinha 30 anos e tinha acabado de ser nomeada [professora] em Nanterre, eu olhava tudo o que acontecia e eu dizia: “Eles são loucos!”. São velhos que estão no poder, com um povo jovem. Tudo é proibido. Sexualmente, politicamente, moralmente, era de um ridículo absoluto.

RFI: Nós assistimos agora em 2018 uma grande onda de retrocesso e reativação de processos já condenados no passado. Não aprendemos direito as lições de Maio de 68?

HC: Sim, acredito que, com efeito, nós negamos, cobrimos e apagamos as lições de 1968. E guardamos o lado negativo [do movimento], quer dizer, o caos por nada. Mas existe o bom caos necessário para recomeçar. O caos ruim, devemos guardar para fazer um espantalho. Mas existem as coisas que ficaram e são muito importantes, como a revolução de um modo de vida, de relações humanas. O desaparecimento da hierarquia, que é instaurada no meio universitário, em Nanterre, e é nesse momento que é criada a Universidade de Paris VIII, de Vincennes, um local de liberdade absoluta, de inteligência, de modernidade real, de luz. Todas essas coisas são marginalizadas ainda hoje, justamente por se tratar do ‘lado bom’ de 1968. Houve também a continuação desta revolução: o movimento das mulheres, que nasceu em 1968. Eu digo o tempo todo: eu estava lá, em Nanterre, e as mulheres estavam sempre em segundo lugar, como sempre, eram os homens que falavam, as mulheres não tomavam a palavra. Como nas revoluções e nas guerras, as mulheres servem às causas, mas em segundo plano.

Maio de 68 vem depois de 1789. Aliás, são dois períodos que se parecem

RFI: O feminismo francês nasceu aí?

HC: Totalmente. Mas eu não estava do lado das feministas nesta época. Em 1968 eu era uma professora universitária que dizia que era necessário explodir o sistema universitário francês, como não tínhamos conseguido fazer com a Bastilha. Que se tratava de uma universidade decrépita, voltada para o passado, principalmente em termos de Ciências Humanas. Tudo de mais lamentável e vergonhoso. O que me preocupava era a liberdade de pensamento. Eu estava dentro da universidade num mundo totalmente masculino, talvez houvesse em torno de mim 100 homens para cada mulher. Apenas quando crio Paris VIII que eu finalmente me pergunto: e eu? Então, a partir de 1968, procurei saber como fazer para que as mulheres tomassem a palavra. Só consegui um resultado concreto, quando criei o primeiro Doutorado em Estudos Femininos da Europa, em 1974.

Daniel Cohn-Bendit (centro) canta o hino socialista "A International", em 6 de maio de 1968 em Paris, cercado pelos policiais e outros estudantes protestantes, antes de ir ao Comitê Disciplinar da Universidade de Paris Sorbonne.
Daniel Cohn-Bendit (centro) canta o hino socialista "A International", em 6 de maio de 1968 em Paris, cercado pelos policiais e outros estudantes protestantes, antes de ir ao Comitê Disciplinar da Universidade de Paris Sorbonne. ARCHIVES / AFP

RFI: O que a senhora acha das divisões dentro do feminismo contemporâneo?

HC: Elas existem, são divisões que existem desde que é criado um movimento revolucionário. Todas as revoluções foram divididas. Por exemplo, para voltar no exemplo clássico da Revolução Francesa, o que se passou entre Robespierre e Danton. As diferentes facções da Revolução Francesa se mataram logo depois de 1789. Em 1917, os revolucionários russos se mataram logo após o movimento. Mesma coisa se observamos o destino de Rosa Luxemburgo. Não existe um único movimento que não se divida. Toda vez que os indivíduos começam a falar sobre democracia, ocorrem guerras internas de poder, mesmo se pensamos em termos de liberdade. É exatamente o que aconteceu com as feministas francesas, e isso sempre me incomodou profundamente. As meninas não são feministas hoje, por que? Elas têm leis que as protegem, que nós não tínhamos, sobre o aborto, por exemplo, mas sem a consciência da solidariedade, da História. Elas estão, na verdade, prontas para perder todos os direitos que foram conquistados pelas lutas. A educação feminista é mínima!

A revolução de Maio de 68 retirou um regime do poder. Mas ela não tomou o poder. Ela não tinha a intenção de tomar o poder.

RFI: Também na França?

HC: Mas o que se passa na França? Nós regredimos a antes de 68, quer dizer, a Simone de Beauvoir, o tempo todo. Beauvoir, que foi eleita para recuperar a imagem de um movimento, mas que não queria nem saber das mulheres, nunca teve simpatia por elas, que não fazia nem um pouco parte do movimento feminista. Ela fez um grande livro, “O Segundo Sexo”, mas, como modelo de mulher, nunca foi solidária ou acolhedora com outras mulheres, era uma mulher fálica, dos homens.

RFI: O público brasileiro repercutiu a polêmica causada pelo manifesto assinado por Catherine Deneuve e outras personalidades francesas no jornal Le Monde [sobre a “liberdade de importunar”]...

HC: Porque foi assinado por Catherine Deneuve. Acredito que se trata [o manifesto] de uma besteira perversa. Disse para meus amigos, quando foi publicado: é preciso ler a coisa. Tem algo correto ali, uma certa tentativa de levar em conta a realidade do assédio. Mas, por outro lado, é uma solicitação ao direito à perversão. O direito ao masoquismo, o direito à perversão sexual. Mas não se trata de um direito, e sim um exercício individual. E também se olharmos de perto as pessoas que assinaram o documento, são burguesas. Porque, evidentemente, elas não estão nem aí para a aventura da mulher que precisa pegar um metrô e que tem a bunda tocada todos os dias. Isso é um signo da falta de conhecimento do Outro, da indiferença e do individualismo egoísta. Quando vi que Deneuve havia assinado, pensei: ela não prestou atenção, ela assinou alguma coisa que as amigas passaram para ela, porque ela não é burra não. Eu acho que ela deve se arrepender de ter assinado.

Como nas revoluções e nas guerras, as mulheres servem às causas, mas em segundo plano.

RFI: A senhora tinha consciência na época da importância do que vivia?

HC: Sim, porque eu não estava sozinha nesse momento. Eu estava muito dentro do movimento, desde o primeiro dia. Mas eu também viajei, então, quando criei [a universidade de] Paris VIII, eu tinha na cabeça universidades muito mais modernas que tinha visto pelo mundo, como as norte-americanas, muito na frente do que acontecia na França. Mas eu também tinha grandes amigos escritores, como Cortázar, Fuentes, que estavam no exílio em Paris, com quem eu compartilhei uma vida intensa. Eles eram refugiados em Paris, no exílio, fugindo de seus países afetados pela ditadura, e estavam comigo, nas ruas. Eles viam o que acontecia na França e podiam reverberar em seus países o movimento.

RFI: Qual a importância da memória para uma civilização e um movimento como Maio de 68?

A França, como todos os países, avança apagando o que viveu. Não é uma particularidade francesa. Não existe memória, é um enorme problema. Na França, onde temos uma prática da Ciência da História, esquecemos um pouco menos do que em outros países que conheço bem como a Argélia ou a Índia. O que aconteceu há 30 anos de repente não existe mais. A falta de memória faz com que voltemos sempre ao passado. Com Ariane [Mnouchkine], no Théâtre du Soleil, pensamos em fazer um espetáculo sobre a Resistência durante a Segunda Guerra Mundial. As vezes penso em meus amigos resistentes, eles estão todos mortos. Mas quando começamos a discutir a possibilidade desta peça, ainda havia muita gente viva. O que eles viveram e fizeram, o Conselho Nacional de Resistência, que inspirou Maio de 68, desapareceu completamente, 20 anos depois não existia mais nada. Isso para mim é uma lição permanente. O progresso, se ele existe, só pode ser feito se for imediatamente. É no momento em que algo acontece que se deve instalar algo de novo.

Beauvoir, que foi eleita para recuperar a imagem de um movimento, mas que não queria nem saber das mulheres, nunca teve simpatia por elas, que não fazia nem um pouco parte do movimento feminista.

RFI: A senhora pode terminar falando um pouco de Clarice Lispector, uma vez que introduziu a autora na França e no mundo?

Clarice não era lida, nem entendida. No Brasil, era lida por uma pequena minoria, e nada lida no exterior. Mas, circulando pelo mundo acadêmico, nos Estados Unidos, sempre falava de Clarice Lispector, eu fazia meus alunos trabalharem seus textos. Ela sempre se disse brasileira, era uma emanação do Brasil, mas esta autora não era reconhecida quando comecei a trabalhar sua obra. Hoje, sim, ela é globalizada. Tínhamos amigos em comum, como Maria Bethânia e Caetano Veloso, que conheci em Paris, quando Clarice morreu. Então eu entrei em contato com o melhor do Brasil, o mais criativo, prolífico, alegre. Sei também que se trata de um país classista, dono de uma violência inacreditável contra os pobres. Durante um tempo, nós, franceses, pensamos que tudo se passaria melhor, com Lula, mas a situação atual é catastrófica, eu acompanho sim, me interessa bastante.

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