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Maio de 68

Onde estava e o que fazia a extrema-direita em Maio de 68 na França?

Estudantes se manifestam em Paris, em 11 de maio de 1968, depois da noite de confrontos do 10 de maio.
Estudantes se manifestam em Paris, em 11 de maio de 1968, depois da noite de confrontos do 10 de maio. (UPI/AFP)

Numa crônica de época, Le Monde retraça os violentos combates entre os “fachos”, diminutivo de “fascistas”, termo que designava os militantes do grupo Occident, de extrema-direita, e os monarquistas, e os “bolchos”, de “bolcheviques”, expressão que fazia referência aos estudantes da esquerda radical, entrincheirados na Sorbonne. “Sem o Occident, não teria acontecido a noite de violência de 3 de maio, e Maio de 68 não teria eclodido”, afirma o historiador Nicolas Lebourg, especialista em extrema-direita, ao jornal francês. O artigo, publicado nesta terça-feira (24), abre uma série que Le Monde preparou sobre a atuação do campo conservador nos eventos de Maio de 68 na França.

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“Comunistas, assassinos! ”, publica o jornal francês, lembrando os gritos de guerra do grupo Occident, de extrema-direita, em 1968. Le Monde recupera a história destas centenas de militantes conservadores, vindos, em sua maioria, da faculdade de Direito de Assas, em Paris. Em ritmo de crônica, o jornal narra os acontecimentos que terminaram na fatídica noite de violência entre “fachos” e “bolchos”, e que teria dado início ao movimento que completa 50 anos em 2018.

“Eles atravessaram o Jardim de Luxemburgo e agora descem rapidamente o boulevard de Saint-Michel. A maioria está armada: barras de ferro, alças metálicas, soco inglês. Muitos com roupas paramilitares, blusões de couro. (...) Na frente deles, Alain Madelin e Alain Robert, 22 anos, fundadores do grupo de extrema-direita Occident”, relembra Le Monde.

O jornal conta que, nesta sexta-feira, 3 de maio de 1968, os “fachos” buscam o confronto com os “bolchos”, uma referência aos bolcheviques, ancestrais dos comunistas soviéticos. Reunidos no pátio da Sorbonne, em Paris, estavam os maoístas do Sindicato da juventude comunista marxista-leninista (UJCML), os trotskistas da Juventude comunista revolucionária (JCR) e do Centro dos estudantes revolucionários (CLER). “A eles, se juntavam os militantes do grupo ‘os encolerizados’, vindos de Nanterre, preparando-se para a chegada dos ‘fachos’. Eles também possuíam um verdadeiro arsenal, com o objetivo de se defender”, publica o vespertino.

Le Monde detalha a tensão que antecipou o confronto histórico. “Curiosamente, à primeira vista, nenhum policial. Quando chegaram nas proximidades da velha universidade, as tropas do Occident se emparelham com as forças de ordem, que se escondiam nas ruas adjacentes. Ao perceberem os capacetes policiais, os manifestantes de extrema-direita preferem recuar”, publica o jornal.

Anticomunismo visceral

Mas se o ataque à Sorbonne não deu certo, as horas seguintes seriam de rara violência, e decisivas para a eclosão do movimento de Maio de 68. “A polícia invade a Sorbonne e começa a realizar uma série de interpelações com os militantes de esquerda radical. A operação exacerba a raiva dos estudantes. A partir de 19h, o Quartier Latin [bairro tradicionalmente estudantil, no coração de Paris], se inflama”, lembra o jornal.

“Milhares de estudantes enfrentam as forças de ordem, com projéteis de fabricação artesanal e pedras... Brigas acontecem em todo lugar. Vitrines explodem, paralelepípedos são retirados das ruas, carros são incendiados. Por volta de 22h, há quatros feridos em estado grave, além de outros 30 do lado da polícia. Do lado dos estudantes, cerca de 596 interpelações policiais. Maio de 68 acabava de começar”, conta Le Monde.

O jornal pergunta se a guerra prolongada entre grupos extremistas está na origem das revoltas contra o poder que, na noite do 13 de maio, jogarão a França no maior movimento social de sua história recente. Quem responde é o historiador Nicolas Lebourg: “Maio de 68 está também profundamente ligado ao clima de violência que nasce na sequência da guerra da Argélia e das tensões interiores que resultaram dela”.

“Durante os dias que se seguem, as tensões aumentam até o dia da greve geral e de manifestações do 13 de maio, organizada pelos principais sindicatos, jogam o país num clima de quase insurreição”, publica Le Monde. E onde estavam nesse momento os militantes de extrema-direita? “Neste momento, Occident não consegue reagir à onda de contestações, eram apenas 300 ou 400 militantes. ‘Para nós, Maio de 68 terminou aí’, admite Alain Robert”, diz o jornal.

No entanto, na noite do 13 de maio, um pequeno grupo de anarquistas decide vandalizar o túmulo do Soldado Desconhecido, na conhecida praça de l’Etoile. “A partir deste momento, os grupos de extrema-direita e os monarquistas passam a se encontrar todas as noites, por volta de 18h, no local. Occident se junta a eles. Nas primeiras noites, eles são algumas centenas, depois mil, depois milhares”, lembra Le Monde. “No dia 12 de junho, o governo francês decreta a dissolução dos grupos de esquerda radical. Será preciso esperar até 31 de outubro de 1968 para que o Executivo ordene a dissolução do [grupo de extrema-direita] Occident, depois de um atentado a bomba contra uma livraria maoísta do Quartier Latin”, finaliza o jornal.

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