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Cracolândia de Paris se alastra no coração de bairro “hipster”

A praça de Stalingrad no nordeste de Paris.
A praça de Stalingrad no nordeste de Paris. Jeanne Menjoulet/ Creative Commons

Nordeste de Paris, metrô Jaurès, meio-dia: os restaurantes estão cheios, as ruas movimentadas e o sol ilumina as águas da Bacia da Villette, sublinhando o charme da capital francesa. No meio de tudo isso, existe um mercado que transforma a paisagem urbana e chama a atenção. Diversos usuários de crack se reúnem num dos principais pontos de venda da substância na cidade, a despeito das tentativas do Estado de controlar a situação.

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“Recolho entre sete e dez seringas cada vez que rego as plantas. A prefeitura deveria dar um jeito nessa situação, mas o problema é tão grande que eles nem devem saber mais o que fazer”, diz Jean*, jardineiro do La Rotonde, restaurante que fica bem em frente ao local de consumo.

O que ele descreve é visível a todos os transeuntes: peças de roupa misturam-se aos lixos espalhados pelo chão, às fezes humanas e a um odor forte. Perto da “Cracolândia” há dois cinemas, vários bares e o parque Buttes-Chaumont, “point” da juventude parisiense nos fins de semana, se encontra a algumas quadras de distância, deixando a impressão de uma esquizofrenia geográfica. De um lado, a vivacidade de um bairro que Paris começa a redescobrir e a  reocupar. Do outro, uma população vítima do vício que vaga pelas redondezas à procura da próxima dose.

“Antes, a atividade dos traficantes e dos consumidores era muito discreta, escondida atrás dos muros, e geralmente à noite. Mas nos últimos meses eles não se escondem mais e até durante o dia vemos gente vendendo e usando drogas em uma das pontes do canal”, conta Fabien*, morador do bairro. “É impressionante ver gente fumando crack sem nenhum pudor enquanto as pessoas fazem caminhada ou empurram seus carrinhos de bebê na mesma calçada”.

Para o empregado do restaurante La Rotonde, habituado com o comércio e o consumo de crack na região, o pior é a situação dos usuários, que “perdem toda a dignidade”. “Meu trabalho é respeitado, mesmo com todos os ‘junkies’. Mas seria melhor se eles não fizessem suas necessidades no mesmo lugar onde dormem. Os traficantes misturam a cocaína com a metanfetamina e isso vicia muito rápido. Basta olhar para as pessoas daqui, é catastrófico”, diz.

Rotonda da praça Stalingrad
Rotonda da praça Stalingrad RFI

A região é palco da venda do crack desde o fim dos anos 1980, com a chegada de traficantes – chamados de “modous” pelos toxicômanos franceses – em sua maioria vindos do oeste da África, como mostra o relatório de 2018 do Observatório Francês das Drogas e das Toxicomanias (OFDT). Os vendedores da substância iniciaram suas atividades nas ruas e migraram para as estações de metrô, até chegarem àquele que se tornou o ponto de vendas mais conhecido, onde vive Fabien e trabalha Jean, entre o metrô Jaurès e Stalingrad.

A partir de 2004, de acordo com o documento da OFDT, um novo tipo de comércio se estabeleceu: os traficantes passaram a ser mais jovens, da periferia, e eram especializados na venda de maconha até serem atraídos pelo lucro evidente da poderosa droga do crack. O “business” passou até a ser mais bem organizado. Os usuários esperavam numa fila, em horários específicos, para poderem entrar num prédio onde adquiriam a droga.

Foi dessa forma e perto da estação de metrô Laumière – vizinha de Jaurès – que nasceu o maior ponto fixo de venda de crack de Paris: a “boca de Reverdy”, que acolhia, todos os dias, das 21h às 4h, cerca de 150 clientes somente nas primeiras horas. Em junho de 2014, a “boca de Reverdy” foi fechada pela polícia e nunca mais conseguiu se estabelecer, devido ao forte controle, levando o comércio da substância a outros locais da capital.

Metrô: dos bairros ricos aos pobres, nenhum escapa do crack

Um homem, vestindo roupas usadas e sujas e de aparência cansada, entra no metrô Jaurès, linha 5, e desce em Gare de L’est, três estações depois. Ele usa o curto período dentro do transporte público para, um pouco cambaleante, pedir dinheiro aos passageiros – alguns poucos retiram uma moeda e a oferecem. Ele diz ter trinta anos, apesar de aparentar bem mais, e pede desculpas pelo incômodo.

“Nós sonhamos em estar em seus lugares”, diz ele aos passageiros, em meio às conversas e ao barulho do metrô que anuncia sua saída da plataforma. “Ir ao trabalho em vez de vir aqui se humilhar. Ser obrigado a se ridicularizar. Sonhamos em ir ao trabalho, mas não temos mais nenhum recurso, nenhuma família. Estou farto.”

Conhecido por seu tamanho e eficácia – assim como por seus cheiros estranhos e por sua sujeira –, o metrô de Paris abriga em seu estômago mais uma das veias do tráfico do crack francês. “Você quer comprar crack? Tem no metrô! Quer fumar crack? Pode ser no metrô! As vezes passo quatro, cinco, seis dias sem sair do metrô. Durmo, fumo, compro, vivo dentro do metrô desde que o crack veio para cá”, relata um usuário de 21 anos aos pesquisadores do OFDT.

Ponto de consumo de crack em Paris
Ponto de consumo de crack em Paris RFI

O comércio da droga no transporte público, ao contrário do ocorre em Jaurès – que se concentra em um bairro mais popular – chegou a todas regiões de Paris, passando pelas linhas 4, 9, 12 e 14. Entre 2013 e 2015, por exemplo, havia pontos de venda nas estações Concorde, conhecida dos turistas por causa do obelisco e da proximidade com a avenida Champs-Elysées, Madeleine, onde acontece anualmente a versão parisiense da celebração religiosa Lavagem da Madalena, ou Notre-Dame-de-Lorette.

De 2015 a 2016, a polícia fechou diversos pontos de comércio, dessa vez em bairros menos favorecidos, como Saint-Lazare, Château-Rouge, Barbès e Marcadet-Poissoniers. O número de estações de metrô transformadas em “bocas” era extremamente elevado em 2016, de acordo com o relatório, atingindo seis dos vinte distritos de Paris.

“Gentrificação” e toxicomania: como pensar a cidade levando em conta todos os seus moradores

Pode ser difícil de imaginar que uma cidade que recebe tantos turistas como Paris conviva com um problema tão grave e que traz várias consequências sociais, de segurança e de saúde. Mas a semelhança com a realidade da Cracolândia de São Paulo, por exemplo, é impressionante quando comparada com a chamada “Colina do crack”, localizada na região de La Chapelle, outro grande ponto de tráfico da droga na capital. O lugar, além de local de compra e consumo para os usuários, passou a ser a casa de alguns – até a chegada da polícia, que volta e meia desmantela a “comunidade”.

Local permanece sujo e sem cuidados
Local permanece sujo e sem cuidados RFI

A última ação policial na “Colina do crack”, em 27 de junho, conduziu vários toxicômanos de volta às imediações de Jaurès, Laumière e Stalingrad, gerando ainda mais conflito com os moradores. “É muito triste, pois nosso bairro vinha atraindo cada vez mais visitantes nos últimos anos, por causa dos cafés e cinemas instalados nas margens da Bacia da Villette”, diz Fabien. “Além disso, estamos em um dos lugares que a prefeitura de Paris pretende usar como zona de realização das provas aquáticas durante os Jogos Olímpicos de 2024. Tomara que não sejamos obrigados a aguardar até as vésperas da competição para que o bairro seja maquiado.”

Para Elisabeth Avril, diretora medical e administrativa da associação Gaia, que ajuda toxicômanos a se recuperarem e a conduzirem suas vidas de forma mais digna, a complexa convivência entre moradores e usuários de crack deve ser pensada nas políticas de urbanização. “Trabalho nesse bairro há vinte anos. Quando renovamos uma região da cidade – o que é ótimo, aliás –, temos que levar em consideração as pessoas que vivem lá, mas que não moram em apartamentos”, diz.

A existência de indivíduos que “moram” nos bairros sem seguir a fórmula clássica da compra ou do aluguel de um imóvel deve, portanto, ser incluída no processo de gentrificação, pelo qual Jaurès está passando, de acordo com a especialista. “Essas pessoas que moram nas ruas não são levadas em conta nas políticas de renovação urbanas, mas permanecem na área, e isso obviamente cria conflitos. Em vinte anos, a Colina foi desmantelada dezessete vezes, sem uma solução global e de integração. Desmantelamos, mas eles vão para outros lugares. Desmantelamos de novo, e eles migram novamente. Voilà”, critica Elisabeth Avril.

De acordo com ela, é preciso reintegrar os toxicômanos que já se encontram em uma dependência extrema. “Na Holanda, onde havia o mesmo número de usuários de droga que a França, não existe mais a questão do espaço público. Essas pessoas têm um lugar para viver fora da rua. Mas isso exige uma política pública e recursos que não se focalizem na repressão”, afirma.

A questão do crack em Paris parece longe de ser solucionada. Como em tantos outros países, ela exige que o Estado tome decisões que levem em conta a segurança da população, a reapropriação do espaço público e a recuperação dos toxicômanos que vivem nas ruas e já estão num estágio avançado do vício. Ou seja, é preciso enxergar a situação de frente e considerar como urgentes e prioritárias as demandas de todos os que pegam o metrô em Jaurès, por diferentes razões: o trabalhador Jean, o morador Fabien e o pedinte que “sonha em ser” um passageiro comum.  

*Os nomes foram alterados a pedido dos entrevistados.

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