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Meio Ambiente

Hortas e jardins dos franceses não podem mais ter agrotóxicos

Áudio 08:12
Agrotóxico Roundup, o glifosato, desapareceu das prateleiras francesas e agora só pode ser utilizado por profissionais.
Agrotóxico Roundup, o glifosato, desapareceu das prateleiras francesas e agora só pode ser utilizado por profissionais. Reuters

Os jardineiros de fim de semana da França agora têm de encontrar outras soluções para dar vigor às plantas e evitar fungos ou ervas daninhas: desde o dia 1º de janeiro, estão proibidos a compra, o uso e o estoque de produtos químicos nos jardins e hortas particulares. A medida é mais um passo no caminho para diminuir “drasticamente” a utilização de agrotóxicos no país, conforme um relatório parlamentar que sugeriu a mudança.

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Os senadores afirmam que os amadores “raramente” têm informações suficientes para utilizá-los de maneira adequada. O glifosato, o agrotóxico mais utilizado no mundo tanto na agricultura quanto pelos particulares, já estava proibido nos parques e espaços públicos franceses há dois anos, e agora também vai desaparecer das casas.  

O diretor da organização Générations Futures, François Veillerette, comemorou mais este avanço para livrar a população dos produtos químicos. Ele observa que uso nos jardins corresponde a 5% das vendas de agrotóxicos, que possuem moléculas nocivas ao cérebro e desreguladores hormonais.

Despreparo

Segundo Veillerette, a proporção de produto por metro quadrado é mais elevada nas casas e apartamentos, em relação às plantações em grande escala. “Os jardineiros amadores não são formados para usar os produtos. Eles não se protegem, não utilizam uma máscara, um macacão, botas e óculos de proteção – pelo contrário, em geral vestem apenas um short e uma camiseta. Ou seja, eles estão ainda mais expostos aos produtos do que os profissionais”, alerta. “Com frequência, eles sequer sabem qual é a dose correta de produto que deve ser aplicada. Diante desses riscos, a proibição dos produtos sintéticos é uma ótima medida.”

O ambientalista ressalta que, em geral, a dose usada pelos amadores é até 20% superior à medida recomendada pelo fabricante. Com a ventilação, as moléculas se difundem no ar e vão parar nos pulmões dos moradores e animais domésticos.

“As soluções ecológicas são eficientes, embora sejam menos violentas do que as químicas. Por isso, tem-se a impressão de que são menos eficazes. Mas as pesquisas estão avançando e os fabricantes entenderam a importância de oferecer produtos mais naturais”, nota Veillerette. “Temos os que reforçam as defesas das plantas, com extratos de plantas. Temos equipamentos que ajudam muito a retirar as ervas daninhas, em vez de matá-las com produtos químicos – e esse exercício ainda faz bem para a forma física do jardineiro”, brinca.

Permacultura, o jardim mais natural

Fã de mexer na terra nos dias de folga, o técnico de som francês Alain Bleu até tentou alguns produtos vegetais para embelezar a horta e o pomar, mas achou que os resultados não valiam o esforço. Ele então abandonou tudo e passou a se inspirar na permacultura, método de jardinagem baseado no ecossistema natural. O segredo, diz, é preparar bem a terra.

“Colocamos folhas sobre a terra e ela fica repousando durante o inverno todo até formar o húmus, como na floresta. A terra é nutrida apenas desta maneira. Os animais da terra decompõem as folhas e esse é o único tratamento que ela precisa. Na primavera, ela está pronta para ser trabalhada e você planta”, explica.

Alain Bleu se inspira na permacultura para cultivar um jardim orgânico em casa.
Alain Bleu se inspira na permacultura para cultivar um jardim orgânico em casa. RFI

Morador dos arredores de Paris, Alain alterna as culturas e prefere uma certa desordem na sua horta – avalia que, desta forma, as plantas se protegem umas às outras. Quanto mais espécies semelhantes estiverem juntas num mesmo local, mais chances haverá de surgirem pragas.

No verão, o francês colhe frutas e legumes para a família e ainda distribui para os vizinhos, que compartilham a paixão pela jardinagem amadora.

“As gerações antigas gostavam muito de usar produtos, mas até eles estão aprendendo a agroecologia. Tenho vizinhos que estão aprendendo, afinal todo mundo só fala disso”, atesta Alain. “É a natureza quem diz que neste ano vou produzir mais tomates do que no anterior. Você tem que seguir a natureza, quando não depende disso para se alimentar. Se eu preciso de mais tomates, vou no supermercado e compro.”

Soluções caseiras

Na jardinagem livre de agrotóxicos, as receitas caseiras valem ouro. Uns colocam borra de café em volta das plantas para afastar formigas e casca de ovo para espantar lagartas. Outros usam a água fervente para matar ervas daninhas, ou ainda aproveitam água do cozimento de legumes para fortalecer as mudas. Há ainda a solução da compostagem, para produzir o próprio adubo.

E para proteger o cultivo dos insetos, nada como estimular a vinda de predadores naturais, como os pássaros, ávidos por lagartas. Para isso, o truque é espalhar ninhos pelo jardim.

"Hotel" para Insetos com seus hóspedes. Cada tipo de material usado na construção (galho seco, papelões, bambu) acomoda um tipo de inseto.
"Hotel" para Insetos com seus hóspedes. Cada tipo de material usado na construção (galho seco, papelões, bambu) acomoda um tipo de inseto. A. Bleu

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