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Sexismo/França

“Sua bunda fica linda nessa saia”: pesquisa inédita revela o sexismo nas redações francesas

Editorial assinado por mulheres jornalistas contra o sexismo nas redações, publicado pelo jornal francês Libération.
Editorial assinado por mulheres jornalistas contra o sexismo nas redações, publicado pelo jornal francês Libération. ©Libération

A hashtag #EntenduALaRédac (#OuviNaRedação, em tradução livre), lançada na internet por três coletivos de jornalistas, fez barulho na última semana na França e deu origem a uma pesquisa que revelou, para surpresa dos franceses, a amplitude do sexismo entre os jornalistas. O escândalo conhecido como a “Liga do LOL” já havia causado a demissão de repórteres em algumas das principais redações do país. A nova pesquisa publicada nesta quinta-feira (7), encabeçada pela rádio FranceInfo e pelo jornal Le Monde, mergulha no fenômeno e revela que não há “casos isolados” quando se trata de sexismo e violência sexual contra jornalistas mulheres, mesmo na França.

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"Eu vou passar seu programa [de rádio] amanhã às 7h, então eu vou poder me tocar na minha cama, ouvindo você". O depoimento chocante foi extraído da pesquisa participativa #OuviNaRedação, lançada na internet por três coletivos de jornalistas franceses. Segundo FranceInfo, na época das revelações da Liga do LOL, alguns jornalistas se justificaram dizendo que se tratava de um comportamento minoritário, mas comum na mídia “progressista”. Mas a rádio francesa decidiu checar e descobriu que não havia “casos isolados”. “Esta pesquisa revela a extensão do sexismo e da violência sexual nas redações francesas”, publica a rádio.

Em dez dias, mais de 1.500 jornalistas e 270 estudantes de escolas de jornalismo responderam a um questionário online para denunciar os fatos de que eram vítimas ou testemunhas. Não é surpresa, segundo a imprensa francesa, que as mulheres apareçam majoritariamente representadas na pesquisa: elas foram 80% a participar do questionário. 76% dos entrevistados têm menos de 40 anos, enquanto a média de idade na profissão, na França, é de 44,6 anos.

270 redações francesas envolvidas

As evidências demonstradas na pesquisa mostram que o fenômeno é enorme, já que 270 redações da imprensa francesa estão envolvidas. Entre elas, 208 são citadas por agressão sexual. Os depoimentos recolhidos abordam ainda uma ampla variedade de mídias, sejam locais ou nacionais, gerais ou especializados, e de todos os suportes (papel, web, rádio e TV), incluindo a grande cadeia televisiva nacional, a France Télévisions, e a Radio France. "Não me surpreende que todos esses veículos sejam afetados por esse fenômeno, porque o sexismo é a coisa mais compartilhada no mundo", diz Aude Lorriaux, jornalista e porta-voz de um dos coletivos de jornalistas que organizaram a pesquisa.

"Eu não entendo porque mandamos uma garota para o Salão da Agricultura, isso não é coisa de mulher", ou "eu não sei se ela vai conseguir, é preciso ser forte ... e ela é uma mulher ". Esses são alguns dos comentários sexistas que aparecem nos depoimentos. 67% das jornalistas que participaram da pesquisa relataram ser vítimas deste tipo de comentário sexista, e cerca de 49% foram assediadas por comentários de natureza sexual - como "sua bunda fica linda nessa saia" - e 13% sofreram diretamente com agressões sexuais. “Um colega chegou a me dar uma palmada, dizendo que eu tinha uma bunda grande”, afirma uma delas.

Racismo também

Marilyn Baldeck, presidente da Associação Europeia contra a Violência feita às Mulheres no Trabalho (AVFT), declarou à imprensa francesa que recolhe regularmente testemunhos semelhantes: "Vocês não imaginam o quanto as mulheres jornalistas são vítimas deste tipo de violência dentro de suas próprias redações. Escuto isso com frequência há mais de 15 anos”, diz. Para a socióloga Pauline Delage, especialista em violência de gênero, a pesquisa destaca que "a violência sexista existe dentro do jornalismo, uma profissão que parece protegido, porque é composta [na França] por uma forma de elite cultural e social".

O estudo também observa que as mulheres “racializadas” - termo sociológico francês usado para caracterizar pessoas identificadas por causa da cor da pele - estão mais expostas à linguagem sexista do que seus pares: elas são 64% a relatarem comentários com conotação sexual (em comparação com 49% do total das mulheres entrevistadas). "O sexismo está incorporado em outras relações sociais: as vítimas da Liga do LOL também foram sujeitas ao desprezo de classe e racismo", diz Delage.

“Para essas mulheres, as agressões são duplas”, observou Béatrice Damian-Gaillard, pesquisadora em ciências da informação e comunicação na Universidade de Rennes e especialista em mídia, gênero e sexualidade, em entrevista à rádio FranceInfo. "Uma mulher ‘racializada’ e precária combina formas de fragilidade social em uma relação de dominação", explicou a pesquisadora.

“Dei uma olhada nas novas estagiárias, não há nada para se morder”

Na pesquisa publicada nesta quinta-feira, as discriminações são mais fortes contra as mulheres ‘racializadas’, mas também contra as jornalistas mais precárias, como as freelancers, que não estão garantidas por um contrato de trabalho. Entre as participantes, 14% das contratadas afirmam serem "frequentemente" confrontadas com observações de orientação sexual, mas esse número sobe para 22% entre as freelancers que responderam à pesquisa.

Nada surpreendente segundo Aude Lorriaux, já que "as relações de dominação econômica são favoráveis ​​à agressão e ao assédio sexual". Para a jornalista, o sexismo faz parte de um sistema muito maior, na qual as freelancers não estão protegidas. Diante da exacerbação da competição e das condições de trabalho que tendem a se deteriorar, "não temos forças para lutar", admite a repórter francesa.

Além dos freelancers, os jornalistas de TV parecem particularmente preocupados: 49% dos participantes do estudo dizem que foram vítimas de assédio sexual no trabalho. "O fator da imagem fortalece os estereótipos já sexistas fortes quanto à imagem das mulheres", descriptografa Aude Lorriaux. "Ela não é bonita o suficiente para ser estuprada", relata, por exemplo, ao ouvir um participante da pesquisa.

E nas escolas de jornalismo?

Outra lição desta pesquisa é que as escolas de jornalismo também não são poupadas da violência sexual ou de gênero. Das alunas que responderam à pesquisa, 62% disseram ter testemunhado comentários sexistas em sua escola e 28% mencionaram incidentes de assédio sexual. Cerca de 10% das alunas afirmam ter sido agredidas sexualmente durante seus estudos. "Quatro ou cinco anos atrás, havia uma proposta de ter módulos de treinamento em escolas de jornalismo contra o sexismo. Isso foi recusado", lembra Danielle Bousquet, presidente do Alto Conselho para a Igualdade entre homens e mulheres (HCE).

"Algumas escolas estão começando a construir referências sobre o assunto, há coisas que são feitas, mas não são suficientes", conclui Lorriaux. Os futuros profissionais da mídia também são confrontados com sexismo e violência sexual. "Dei uma olhada nas novas estagiárias, não há nada para se morder", relata ter ouvido um participante desta pesquisa. "Durante um estágio nos escritórios de um canal de TV francês no exterior, um cinegrafista aproveitou a escuridão da sala de edição para passar a mão por baixo da minha camisa", diz outra.

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